01.10.2014

À conversa com SIA Arquitectura

01.10.2014

À conversa com SIA Arquitectura

‘Um estagiário espanhol disse que nas universidades em Espanha, os dois países que são “cases studies” sobre a forma de construir são a Suíça e Portugal. Isso é admirável quando as condições são tão diferentes.’

Trabalham juntas desde 2000. Em 2007 fundaram um atelier. Como surgiu a SIA arquitectura?

Sofia – Nós conhecemo-nos no atelier do arquitecto Alberto Oliveira, onde começámos a trabalhar juntas. Depois eu continuei no Atelier Souza Oliveira, a Inês foi trabalhar para o atelier Aires Mateus, onde permanece; a Ana passou a dedicar-se à SIA em exclusividade. Os ateliers onde trabalhámos são ateliers grandes, com projetos morosos. Muitas vezes passam dez anos entre o início de um projecto e ver a obra concluída, e nesses dez anos há coisas em que já não nos revemos, há coisas que se perdem pelo caminho, e traz uma certa frustração. A ideia de conseguir controlar um processo desde a aquisição até à materialização foi a base do SIA.

Ana – Tínhamos estado três anos a trabalhar, de alma e coração, no projeto da Biblioteca Central e Arquivo Municipal de Lisboa, do arq. Alberto Oliveira com o arq. Manuel Aires Mateus, e depois o projeto “foi para a gaveta”. Tínhamos crescido imenso como arquitectas, mas ficámos desiludidas. Nessa altura decidimos formar a SIA para procurar processos que fossem mais comprimidos no tempo, num modelo em que fossemos simultaneamente promotoras, projetistas e donas de obra.

Inês – Isso aliado a uma crença na recuperação, que na altura não se fazia tanto como agora, fez-nos decidir montar um projecto, ainda antes de montar um atelier. Decidimos ser nós as clientes: escolhemos uma casa – fomos à procura, perguntámos nas conservatórias quem eram os donos – recuperámo-la – no início guardávamos um dia na nossa semana para nos dedicarmos a este projeto – e vendemo-la – agora vive lá uma família, que adoptou o projeto tal como o tínhamos imaginado, quase não mudou nada. Entretanto encontrámos outro edifício, maior, que também nos encantou e estamos neste momento a coordenar a obra de recuperação.

Falem-nos um pouco da forma como encaram a arquitectura no SIA.

Ana – A SIA é um agrupamento de arquitectas. Fazemos projetos para clientes que nos procuram, e alternamos isso com projectos próprios. Cada uma tem uma letra mas funcionamos juntas, não respondemos em nome individual. Fazemos parcerias, que funcionam muito bem; colaboramos com colegas quando necessitam de fechar um projecto; fizemos um cenário para uma peça no Teatro do Bairro, que foi muito gratificante; e fazemos, sobretudo, recuperação. As pessoas vêm ter connosco principalmente para isso. O nosso método de trabalho é muito natural: cada uma coordena um projecto, mas todas intervêm. Começamos por pensar cada uma por si e depois debatemos as nossas ideias, inquietações e dúvidas. Muitas vezes há consenso, em caso de empate entre duas ideias, a terceira desempata. A democracia prevalece sempre. E quando temos opiniões divergentes, já sabemos que vamos gostar muito mais do resultado final do que das ideias de cada uma separadamente. Ou seja, muitas vezes cada uma tem uma ideia, mas a junção das três resulta melhor. Um dos problemas é que as coisas que gostamos mais de fazer nos processos, e as que gostamos menos, são comuns. Nenhuma pode escapar ao que gosta menos de fazer… Temos de dividir.

Inês – Tentamos trabalhar de uma forma muito sintética, os trabalhos têm sempre uma previsão, ajustamos os projectos ao tempo que temos, sabemos trabalhar com a escassez de recursos, não divagamos. Investigamos todas as soluções de forma sistematizada, sem dispersar, discutimo-las a três, elegemos aquilo que vai ser determinante para o projecto e tentamos organizar tudo o resto em função disso. Quando pegamos nos projetos há uma eleição daquilo que podemos trabalhar, fazemos uma leitura, entre as três, e depois perseguimos isso.

Sofia – Uma coisa curiosa é o facto de termos pequenos clientes que à partida não contratariam um arquitecto e que vêm ter connosco porque procuram uma pequena mais-valia no projecto e intuem que lhes podemos dar isso. Às vezes basta uma versatilidade que não tinham pensado, uma ideia. São pequenas recuperações, pequenos investimentos, que fazem diferença.

Quando falamos no desenvolvimento da arquitectura portuguesa para o futuro, como vêem a imagem e prestígio internos e externos?

Sofia – Portugal tem arquitectos extraordinários, temos dois Pritzker, e convivemos diariamente com projectos notáveis, há uma forma poética de pensar os espaços e os lugares que é própria do nosso contexto. Temos imensos colegas a emigrar para países onde se faz uma arquitectura “de imagem”, e a reabilitação pode ser uma forma de resistência, de passar esta tradição de como se constrói, como se pensa o espaço a partir das suas características essenciais. Neste momento de crise, a reabilitação pode ser uma forma de preservar a tradição da arquitectura portuguesa. Felizmente está a ser feito um trabalho de reabilitação em Lisboa, ao nível dos edifícios e do espaço público. Como exemplo temos a operação do Intendente que foi muito eficaz e com um resultado visível. As ações amplificam-se, quando os espaços estão cuidados as próprias pessoas respeitam-nos mais.

Inês – Um estagiário espanhol perguntou-me, há uns dias, por que é que se constrói tão bem em Portugal. Disse-me que em Espanha, na universidade, os dois países que são “cases studies” sobre a forma de construir são a Suíça e Portugal. Isso é admirável, principalmente quando as condições de trabalho e os recursos destes dois países são tão diferentes.

Que tipo de estratégias usam para expandir o vosso espaço no meio?

Ana – As pessoas chegam até nós através do nosso círculo de conhecimentos, pessoas que já conhecem o nosso trabalho e confiam em nós. Não fazemos grande divulgação dos nossos projetos, até há bem pouco tempo nem tínhamos noção da quantidade de sites que fazem divulgação da nossa arquitectura… No fundo, conhecem-nos pelo trabalho e não pela divulgação, é uma coisa mais próxima do quotidiano e menos da mediatização, até porque não sabemos bem fazer isso. Às vezes são os próprios construtores que nos recomendam, outras vezes são pessoas com quem já trabalhámos que indicam o nosso nome.

E em relação ao futuro do atelier, que desafios estão em cima da mesa?

Inês – Em relação ao nosso projeto inicial, houve um “gap”: vendemos a primeira casa, e íamos reinvestir nesse tipo de projectos, mas tivemos outros pedidos e passámos a fazer projetos de arquitectura, para clientes, na forma de encomenda, que é mais habitual. Temos alguns projectos em curso, todos em reabilitação: um prédio na Rua do Arsenal, uma casa unifamiliar na Ajuda, uma casa em Porto de Mós, um armazém ao pé do Convento do Carmo. E neste momento voltámos a fazer um pequeno investimento e estamos a recuperar uma “mansarda”, nossa, debruçada sobre o rio, para depois habitar ou vender.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #57, de outubro de 2014

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