01.02.2015

À conversa com o Arqº Miguel Malaguerra, Arqª Susana Jesus e Arqº Bruno Martins

01.02.2015

À conversa com o Arqº Miguel Malaguerra, Arqª Susana Jesus e Arqº Bruno Martins

‘A inventividade tornou-se a nossa melhor ferramenta e tem dado excelentes resultados.’

Como é que surgiu o MSB Arquitectos?

Formámos o atelier num ano em que havia muita solicitação aos arquitectos. Dois de nós tínhamos trabalhado juntos em anos anteriores e, num momento de oportunidade, concretizámos a vontade de tornar a fazer equipa. Mas, como a necessidade obrigava a mais do que apenas dois arquitectos, procurámos por um terceiro elemento e encontrámos o mais que certo complemento. Formámos uma sociedade tripartida. Durante alguns anos, a equipa manteve-se apenas com os três sócios. Começou a aumentar quando sentimos necessidade de uma maior projecção e um aumento da capacidade de resposta. Actualmente somos cinco. A aposta em cada elemento novo parte sempre do princípio da complementaridade. Cada um deve representar uma mais-valia e não apenas um factor de replicação.

O arquitecto Paulo Mendes da Rocha afirmou que “a geografia é a primeira arquitectura”. O grosso da vossa actividade passa pela Madeira, quais os maiores desafios que enfrentam no território?

Sem dúvida. O território madeirense tem um carácter muito dramático em termos da sua orografia. É sempre muito desafiante projectar para uma geografia tão peculiar. Qualquer intervenção é, à partida, muito condicionada pela morfologia do terreno em que se insere. Reunir as condições ideais de insolação, orientação, vistas, e acessibilidades é raro, porque quase sempre existem limitações na implantação. O caminho passa por soluções marcadamente inventivas que, em vez de moldar o terreno à condição ideal, criam arquitecturas que acompanham a morfologia mais do que a transformam. Em complemento da afirmação do Paulo Mendes da Rocha podemos também dizer que terrenos difíceis tornam projectos interessantes e obras únicas.

Sentem grande responsabilidade para com a região, sabendo que a arquitectura na Madeira tem um papel importante na economia do turismo?

O sentido de responsabilidade está sempre presente desde que a forma de actuar passe pela dedicação incondicional aos valores envolventes ao edificado. Infelizmente, o arquipélago da Madeira está seriamente agredido por edificação que não representa esse sentido de respeito e entendimento dos valores dos lugares. É como se tivesse passado a actuar em estado de cegueira, tornando a área não construída no único espaço que importa valorizar. É triste e muito mau para uma região que quer canalizar grande parte da sua economia no proveito que pode retirar do seu território. Nesta medida a nossa responsabilização torna-se acrescida já que nos transforma em agentes na criação dos bons exemplos para a orientação e renovação das mentalidades.

Como é que o MSB tem respondido à actual conjuntura desfavorável?

Tal como a maioria dos arquitectos, sentimos o impacto de uma baixa procura, em particular na Madeira. Há pouca iniciativa privada e as obras públicas são em reduzido número. A solução passou por partir para outros campos de trabalho. Foi necessário sair do nosso espaço de conforto. A inventividade tornou-se a nossa melhor ferramenta para criar alternativas e tem dado excelentes resultados. Uma das mais-valias do atelier é dispor de uma equipa constituída por elementos com formação em diferentes disciplinas. Esta multidisciplinariedade proporciona-nos uma mais alargada capacidade para aquisição de trabalho e torna-o mais completo e coerente como resultado final. No conjunto temos arquitectos com especialização em arquitectura, urbanismo, reconversão urbana, interiores, etc. Nos últimos anos temos desenvolvido trabalho nas áreas da investigação, criando diversas parcerias com empresas e instituições. O maior investimento foi aplicado na criação de um sistema construtivo de baixo custo, grande rapidez de execução e de elevada qualidade. Este projecto foi objecto de um incentivo financeiro considerável que nos permitiu desenvolver estudos ao longo de dois anos, consolidando a nossa equipa e formando novas equipas de trabalho para novos projectos de investigação e novos investimentos.

Em que é que consiste a BMM – Bloco Multimodular, que o MSB fundou com a BETAR e outros parceiros?

A BMM – Bloco Multimodular é uma empresa criada com o propósito de desenvolver um sistema construtivo, alternativo, em altura, de forma modular, produzido com enorme economia de tempo e a preços de mercado muito baixos. Esta empresa é o resultado de uma parceria entre a MSB e a BETAR, que foi criada há mais de 2 anos para o cumprimento de uma candidatura, promovida pelo Instituto de Desenvolvimento Empresarial da Região Autónoma da Madeira, e a que nos foi dada homologação com classificação elevada. Tratou-se um investimento muito grande, em termos financeiros, em dedicação, horas de trabalho e esforço individual e colectivo. Com os nossos parceiros de investigação – o Instituto Superior Técnico, através do ICIST – Instituto de Engenharia de Estruturas, Território e Construção e da FUNDEC (Associação para a Formação e o Desenvolvimento em Engenharia Civil e Arquitectura), assim como o LREC (Laboratório Regional de Engenharia Civil da Madeira) e ainda a WHS (World Housing System) – foi possível criar, desenvolver e comprovar o sistema. Temos já um primeiro protótipo de uma moradia de dois pisos, construído, e um prédio de estrutura para cinco andares, em fase de finalização. Os resultados são surpreendentes e estamos já a trabalhar na comercialização do produto BMM.

Há algum projecto que vos tenha dado particular orgulho?

Quase todos os projectos que executamos são motivo de orgulho para a nossa equipa, tenham ou não sido edificados. Significam sempre muito investimento. No entanto, há um que nos orgulha particularmente que é a remodelação da Fábrica de Manteiga da Calheta. Foi um projecto que teve uma divulgação muito grande e muito contribuiu para a o reconhecimento do atelier e para a consolidação da marca MSB. O projecto foi nomeado pela Arch Daily, na Building of the Year Awards de 2010, e ficou classificado entre os 5 melhores na Categoria de Remodelação. Em consequência disso ganhámos o Prémio de Arquitectura para o Melhor Projecto de Remodelação, atribuído pela revista Construir, em 2011. Estes prémios acabaram por ser amplamente divulgados nos meios de comunicação da Madeira e Continente, originando inúmeras entrevistas. Completamos 11 anos de existência. O balanço destes anos é muito positivo. Congratulamo-nos por ter conseguido manter uma actividade sempre crescente e melhorada, em todos os aspectos que implicam o trabalho de equipa, mesmo em tempos de grandes adversidades. Consolidámos as nossas competências individuais e de grupo, tornámo-nos mais exigentes, ganhámos intolerância aos actos gratuitos. Apurámos a nossa responsabilidade e valorizamos melhor as opiniões divergentes. Tornámo-nos melhores.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #61, de Fevereiro de 2015

 

Notícias & Entrevistas

01.05.2018

À conversa com Arq.º Wolfgang e Arq.ª Amelie Zichy

‘Numa obra, para explicar como aplicar os azulejos, fizemos um rectângulo no chão com a composição completa do que queríamos. Fazemos tudo, é de A a Z.’ Ler mais

01.11.2015

À conversa com o Arq.º João Góis

‘Tento sempre refletir, nos projetos, a personalidade dos seus donos. Gerir as ansiedades e escolhas dos clientes. Não há melhor satisfação para um arquiteto que sentir que as pessoas vivem as suas casas.’ Ler mais

01.11.2013

À conversa com Arq.º João Favila

‘Costumo dizer que a arquitectura é parecida com a culinária. Têm ambas a ver com alquimia, com proporções e doses certas, com transformação e precisão.’ Ler mais

Topo

Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência de navegação. Ao continuar a aceder a este website está a concordar com a utilização das mesmas. Para mais informações veja a nossa política de cookies.

Portugal 2020 / Compete 2020 / União Europeia - Fundo Europeu do Desenvolvimento Regional