01.03.2013

À conversa com Arq.º Bartolomeu Costa Cabral

01.03.2013

À conversa com Arq.º Bartolomeu Costa Cabral

‘Sempre tive uma atitude racional nos projectos, achei que não seria um grande arquitecto no aspecto visual, porque a minha segurança é a análise do sítio e do programa, a imagem vem depois.’

Iniciou a sua actividade no atelier dos arquitectos Nuno Teotónio Pereira, Manuel Tainha e Manuel Alzina de Menezes. Fale-nos um pouco do início da sua carreira.

O meu contacto inicial com os profissionais da arquitectura foi nesse atelier, ao qual cheguei através de um amigo comum, o eng. Ernesto Borges. Trabalhei um pouco com o arq. Alzina e com o arq. Tainha, mas colaborei sobretudo com o arq. Teotónio Pereira, e logo no projecto do Bloco das Águas Livres. Na altura estava a terminar a tese. Para além da colaboração no atelier, tinha também um emprego na Federação das Caixas de Previdência, onde o arq. Teotónio era consultor.

O Bloco das Águas Livres foi designado monumento de interesse público. Diz-se que é o prédio perfeito, que simboliza a vida moderna. Quando finalizaram o projecto, tiveram noção de que aquela era uma obra perfeita?

Esse projecto foi a minha grande escola, a minha tarimba. Foram dois anos a fazer o projeto e dois anos de construção. Durante quatro anos, com o arq. Teotónio Pereira, não fiz mais nada. Lembro-me que, sendo a minha primeira obra, quando comecei a vê-la surgir pensei “afinal não é assim tão difícil fazer uma coisa que fique bem”. Nós fizemos o melhor que pudemos, éramos jovens, fizemos aquilo com todo o nosso empenho e imaginação. O programa foi feito por nós. O arq. Teotónio queria fazer uma coisa moderna, experimentar novos materiais, o contrário da aplicação de uma receita. Foi feito com entusiasmo. Eram apartamentos de gama alta mas onde se aplicavam os princípios da habitação social, não havia esbanjamento de áreas; por exemplo, fizemos apenas escadas de serviço porque as pessoas usam os elevadores. Aplicámos o princípio da rentabilidade do espaço da habitação social e da organização funcional da casa.

O que é que mais lhe interessa quando elabora um projecto?

Temos de pensar sobretudo que a arquitectura é uma coisa para servir as pessoas. É muito abrangente, há aspectos psicológicos e poéticos que entram nos aspectos funcionais mas, parafraseando Alvar Aalto, a arquitectura é uma actividade social, de serviço às pessoas. Serve para fazer uma coisa que é precisa. Ao contrário das outras artes, é uma arte que preenche uma determinada necessidade, tem um lado concreto e prático, e isso é, para mim, uma condição indispensável. Pode ter um lado extraordinário e espectacular mas se não servir o fim em vista não cumpre a função principal. Obviamente que não pode ser só para servir, se não tiver outros aspectos não é arquitectura, é construção. A arquitectura existe quando se coloca qualquer coisa de arte…

Na sessão de homenagem que lhe fizeram, Manuel Tainha disse que “o que o caracteriza é o seu instinto matemático. No seu trabalho o acaso não existe. A sua obra não tem resíduos”. Reconhece-se nesta descrição?

Sim, sempre tive uma atitude racional nos meus projectos, embora ache que a minha arquitectura não é fria, tem um sentido de humanidade… Há quem acuse o Corbusier, por causa da sua frase “a habitação é uma máquina de habitar”, no entanto eu acho que ele é um arquitecto muito humano, as coisas que faz são lindíssimas e a beleza faz parte do sentido de humanidade. Sempre achei que eu não seria um grande arquitecto no aspecto visual, porque a minha segurança é a análise do sítio e do programa. Tentei sempre encontrar uma forma harmoniosa de fazer a obra mas a imagem vinha depois, não era o ponto de partida. Um amigo dizia-me que uma porta no edifício é uma fatalidade, tem de existir, porque senão não se entra e tem de estar no sítio certo.

Li que a aparente simplicidade da sua obra esconde uma grande complexidade de soluções. Esta é uma das características do seu trabalho?

Espero que sim. Essa é uma coisa comum a todas as obras boas. Uma peça de Bach é aparentemente simples mas é, na realidade, extremamente complexa. Se as minhas obras têm essa característica, fico encantado. Foi isso que procurei fazer ao longo da vida.

Quais os condicionamentos que mais interferiram na sua actividade?

Tenho tido muita sorte com os chamados condicionamentos. Eles existem no local, na orientação, nos acessos, nos próprios materiais, mas todos eles se resolvem. Depois há condicionamentos de outra ordem, a que eu chamaria exigências, como é o caso do cliente. Felizmente não tive muitos problemas a esse nível, tive um com a Câmara Municipal de Lisboa, que chumbou uma fachada de uma moradia na Lapa e eu depois não consegui fazer uma alternativa ao meu gosto, fiz o que eles queriam mas acho que me estragou o projecto. Em relação à evolução tecnológica, continuo a fazer os projectos no papel mas tenho quem passe para computador. Não é um condicionamento, é como um escritor que escreve um livro à mão e depois é passado à máquina, o que importa é o que ele escreve…

Tem uma obra da sua vida?

Tenho duas obras longas que me acompanharam. Essas é que são as obras da vida de uma pessoa. Estou a falar da Universidade da Beira Interior, na Covilhã, que foi um projecto que fiz ao longo de 30 anos, como arquitecto responsável, integrado na equipa do arq. Maurício Vasconcelos, nos primeiros 20 anos. Embora o edifício tenha variado de expressão, ao longo dos anos, mantive sempre os princípios basilares do meu trabalho e por isso hoje a obra não parece uma manta de retalhos. Tem uma unidade. O outro projecto grande, mas completamente diferente, é o Bairro de Pego Longo, que é uma aldeia com 150 casas, que também comecei há cerca de 30 anos e ainda estou a fazer projectos para lá. Foram dois projectos que me deram muito gosto e que constituem a actividade social do arquitecto. Fiz outros, muitos dos quais com a participação do eng. José Venâncio, da BETAR, que sempre foi uma esplêndida colaboração. Mas a obra que mais me surpreendeu – porque enquanto estamos a desenhar não temos total noção da dimensão das coisas e do impacto final – foi a moradia de Taipa, no Alentejo. O sítio é tão fantástico que impregnou a própria obra. A casa foi feita para aquela envolvência, mas o resultado superou as minhas expectativas.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #40, de Março de 2013

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