01.01.2013

À conversa com Arq.º Alberto de Souza Oliveira

01.01.2013

À conversa com Arq.º Alberto de Souza Oliveira

‘A arquitetura é arte… Penso que é uma alegria encontrarmos clientes que gostam de viver nos nossos espaços… e habitar lugares onde possam sonhar’

A sua formação tem por referência o Atelier de Louis Kahn e a Universidade da Pensilvânia. Deve muito a essa experiência?

Devo a Louis Kahn ter adquirido uma atitude de pesquisa e teorização na prática da arquitectura. O valor do espaço, o interrogarmo-nos sobre a essência de um projecto, de como construir. A vida é composta de mudança, e hoje a “materialidade” e a “estratégia” são valores inquestionáveis na formulação de uma proposta. Tenho contribuído para difundir a ideia de que um projecto encerra uma questão de “compacidade” ou seja, que ele contém o necessário e o essencial de uma expressão e que transformar o espaço é qualquer coisa de muito admirável.

O que tem a dizer sobre o Lisbon Stone Block?

Um edifício de gaveto na cidade é sempre um desafio para um arquitecto. É um “cunhal” na cidade… A ideia essencial do projecto parte de um conceito de “fachada mutante” constituída por uma “pele de pedra”, que é formada por painéis móveis, com a capacidade de transformarem o edifício num “bloco de pedra”. Esta capacidade de reconversão do edifício aproxima-o da escultura. Direi que o edifício é uma “escultura habitada”. De dia, a luz penetra nos espaços e de noite ela deixa vários vazios de luz, e de não luz, que permitam múltiplas composições. Já pensei que o edifício é uma espécie de objecto em permanente mudança que se apresenta silenciosamente à cidade.

Também inovou com este projecto?

Penso que procurei inovar interiormente as habitações, ao propor uma mutação do espaço interior através de “painéis de ripado em madeira”, que adquirem diferentes posições, obtendo espacialidades variáveis na sala de estar e nos espaços distributivos, sem que isso afecte a coerência do espaço. Todas as habitações são lugares onde reconhecidamente não me importaria de viver, e isso também é um valor na minha maneira de projectar.

Venceu o concurso para a Reabilitação do Capitólio, no Parque Mayer. Foi um desafio diferente recriar um teatro?

O Capitólio levou-nos a questionar o que é reabilitar um edifício de teatro. Antes de mais, estamos perante a memória do espaço… e o valor de uso do edifício. Queremos que ele tenha um uso futuro, que tenha êxito como teatro. O Capitólio é uma “caixa mágica” que resolvemos ampliar nas suas “competências” como espaço de teatro. É um espaço mágico de múltiplas transformações, adaptando-se a inúmeros modelos cénicos. O edifício existia mas faltava-lhe poder assumir essas múltiplas valências de espaço. Foi muito difícil compatibilizar o carácter e as linhas contidas do seu modernismo com a instalação de uma maquinaria de cena, muito evoluída como tecnologia. Hoje em dia é possível que na boca de cena surja alguém que “aterra” no palco, controlado por computador, sincronizado por uma música inesquecível… Claro que o Capitólio é difícil quando queremos obter silêncio num espaço formado por paredes de vidro, instalado num possível parque de diversões… mas isso é um problema que se resolve com os anos de experiência de uma equipa de projecto…

A reabilitação é um grande desafio na Baixa Pombalina?

Apetece-me, ao falar de reabilitação, pensar ao mesmo tempo em “intocabilidade”. Quando trabalhei na reabilitação de um edifício pombalino na Baixa Histórica de Lisboa, essa foi a grande questão. Conseguiremos manter a memória, e a “intocabilidade” de um património? Ao transformar, o que está em causa? A vida diz-nos que é muito difícil conciliar a  contemporaneidade de uma proposta com os valores do passado. Mas é possível. Penso que a Baixa é um grande desafio. Como integrar os valores de uma arquitectura que tem uma atmosfera muito própria? As tábuas velhas, as paredes de azulejo, os vãos e as portadas de madeira, num incansável jogo compositivo? É possível deixar um valor contemporâneo na proposta e assumir os valores presentes nessas atmosferas de Lisboa? Abri a porta silenciosamente, e naquele escritório tinha estado Fernando Pessoa.

Tem também feito novas habitações… A Vila Utopia é um conceito inovador de design e identidade. Como encarou a ideia de participar num projecto com mais 17 arquitectos?

A Vila Utopia foi um desafio lançado pelo Engº António Rodrigues e sugerido pelo arquitecto e amigo Manuel Aires Mateus. Tinha duas casas para projectar que hoje estão construídas. Sei hoje, depois de ter feito o projecto e construído as casas, que é um projecto único. O desafio era investigar “o espaço da casa” e trazer para a arquitectura qualquer coisa que nos deixasse na memória. É possível construir a “memória” de um espaço habitável? Penso que sim. São duas casas, com a mesma filosofia de cheios e vazios… iguais e diferentes. As casas são um exercício de subtracção do espaço, deixando antever pequenos pátios interiores, permitindo a visualização de pequenos jardins, a partir de espaços de quartos. A casa é misteriosa e versátil. Um quarto pode ser uma sala. A nível térreo há uma multiplicidade de espaços e de pátios com acessos diferenciados. Foi uma aventura inesquecível e construí uma amizade com um cliente inacreditável, pela sua generosidade em questionar-se e procurar encontrar novos valores na arquitectura. Mostrei-lhe um dia que era possível “habitar um quarto que tem na sua frente um jardim virtual”.

Aquelas casas são arte?

Procurei que fossem casas que se constituíssem como uma expressão artística: uma memória inesquecível de um pátio de plantas coloridas, numa primavera que desponta. A arquitectura é arte… Penso que é uma alegria encontrarmos clientes que gostam de viver nos nossos espaços… e habitar lugares onde possam sonhar.

O que tem a dizer sobre a nomeação do Lisbon Stone Block para o prémio Mies Van der Rohe?

É uma nomeação que me honra, mas não mais do que isso.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #38, de Janeiro de 2013

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