01.12.2021

À conversa com Eng.º Samuel Muzime

01.12.2021

À conversa com Eng.º Samuel Muzime

'Os principais desafios dos CFM são: ser referência regional no transporte de carga a um preço competitivo e com segurança, ter infraestruturas com modernização contínua e pessoal bem treinado e motivado'

Pode contar-nos como começou o seu percurso profissional?

No final do ensino primário, os meus professores notaram certa habilidade natural para o desenho. Sem me consultarem, propuseram a minha candidatura à escola de artes visuais de Maputo. Quando me comunicaram, fiquei contrariado, contudo realizei as provas de verificação de habilidades nas artes visuais. Como solução para continuar a estudar numa situação em que eu concordasse, a escola enviou a minha candidatura a algumas escolas do ensino geral. Apenas havia vagas na escola industrial 1º de Maio, em Maputo, e só restavam algumas vagas no curso de mestre-de-obras. Foi assim, de uma maneira tortuosa, que começou a minha história na engenharia civil. Depois da licenciatura fiz cursos complementares entre os quais a Pós Graduação em Engenharia Ferroviária e a especialização em Engenharia Portuária.

Neste momento ocupa o cargo de Director de Projectos dos CFM – Portos e Caminhos de Ferro de Moçambique.

Comecei como estagiário em 1995 e fui continuando os estudos, depois, já como trabalhador. Iniciei na Direcção de Engenharia e por força do trabalho fui transferido para a zona Sul, após cerca de 3 anos. No sul trabalhei pouco mais de 10 anos na área de via e obras, principalmente com edifícios, drenagem ferroviária e sistemas de abastecimento de água ao longo da rede ferroviária. Regressei à Direcção de Engenharia, onde estou até então. Conto com cerca de 27 anos de trabalho dentro dos CFM. A maior parte do tempo estive dedicado à elaboração de projectos, com ênfase para o cálculo estrutural, cálculos hidráulicos, e manutenção de infraestruturas. Em 2011, passei a coordenar a área de Portos, Pontes e Estruturas Especiais, que estava em criação. Foi esta área que coordenou os trabalhos de resgate das pontes da zona Sul, grandes intervenções nos portos de Pemba e Beira, e apoio no porto de Nacala, entre outros. Em 2017 assumi a posição de Director de Engenharia. Precisei de me ajustar para lidar com um grupo maior de colegas. Tinha que manter o clima de unidade na equipa. Precisei de saber mais em outras áreas como locomotivas, vagões e outros meios ferroviários. Tenho de estar sempre informado e preparado para lidar com os projectos de todos os ramos de engenharia do CFM e em todo o país.

Quer falar um pouco dos projectos que estão actualmente em curso e de como a intervenção dos CFM é importante na vida dos Moçambicanos?

Vários projectos estão em curso, em todas áreas no CFM. Vou agrupar e citar os mais importantes. Na Área Portuária: Reabilitação, expansão e modernização do porto de Nacala, o principal ponto para garantir o abastecimento e escoamento da produção da zona norte do país; Melhoria do porto de Pemba, que é o ponto de suporte logístico dos projectos de gás; Reabilitação de alguns cais do porto da Beira, incluindo a expansão do terminal de combustíveis. Na Área Ferrovia: Reabilitação da Linha de Machipanda para melhorar a conexão com o Zimbabwe e reforçar o transporte entre Manica e Sofala; Reabilitação do Ramal Mutarara- Vila Nova da Fronteira para reactivar a conexão com o Malawi; Duplicação da Linha de Ressano Garcia para reduzir o tempo de trânsito entre África do Sul e Maputo; Compra de equipamentos de manutenção pesada e de locomotivas, vagões e carruagens; Criação de uma rede para a comunicação ferroviária.

Quais considera que são os principais desafios e obstáculos?

Os principais desafios são: ser referência regional no transporte de carga a um preço competitivo e com segurança, manter as suas infraestruturas com modernização contínua, manter o seu pessoal bem treinado e motivado para continuar a produzir, continuar a reconstruir o país pós guerra. Quanto a obstáculos: no momento actual, face à COVID 19, o principal é a dificuldade em investir para alcançar os desafios referenciados. Existe ainda a questão dos fenómenos naturais, como ciclones, que destroem algumas infraestruturas; e a dificuldade de alguns países do interland em acompanhar o investimento em
infraestruturas de conexão.

Como é que a BETAR tem contribuído para o desenvolvimento dos vossos projectos?

A Betar foi a empresa que alertou para o perigo da fraca manutenção das obras de arte. No trabalho com a BETAR (projecto, fiscalização e assistência técnica), os CFM reconstruíram cerca de 10 obras de arte desde 2013 nas linhas de Ressano Garcia e Goba. O trabalho continua e já inclui a reabilitação do porto de Pemba e do cais TCC8 no porto da Beira. Como resultado já se transita em segurança nas duas linhas férreas referenciadas e as obras de arte passaram para 20 Ton/eixo.

Qual é a sua visão para o futuro?

Gostaria de ver os CFM cada vez mais renovados, a acompanhar a modernização e sobretudo, a catalogar com maior precisão os seus planos de investimento em infraestruturas. O investimento contínuo, em meios circulantes ferroviários, não deve ser colocado de lado. Ter uma equipa cada vez mais jovem seria um ganho importantíssimo para a renovação.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #136, de Dezembro de 2021

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