01.01.2014

À conversa com Arq.º Jorge Sousa Santos

01.01.2014

À conversa com Arq.º Jorge Sousa Santos

‘Acho que sou arquitecto por influência da Lego (…) Quanto à arquitectura, há uma ideia que tenho perseguido que é a de que um edifício é um objecto que não é possível decompor.’

A SousaSantos Arquitetos tem agora patente, na Shed76, a exposição Getting Through, que propõe uma reflexão sobre os objectos do quotidiano. Fale-nos um pouco sobre esse projecto.

A exposição está integrada na Trienal de Arquitectura de Lisboa e foi feita no âmbito do tema deste ano que é Close Closer. O espaço foi desenhado nessa base de proximidade, os corredores são estreitos, os objectos estão muito próximos das pessoas e pretende-se que haja uma interacção entre o corpo e o objecto. Começámos por pensar na relação que temos com alguns objectos, que funcionam como interfaces da arquitectura, ou seja, que fazem parte da arquitectura mas que são autónomos, como uma cadeira ou um lavatório.
Assim, convidámos 20 personalidades do contexto cultural português e pedimos-lhes que escolhessem um objecto que lhes fosse próximo. Depois convidámos 15 arquitectos, artistas e designers, para escolher um dos objectos e fazer qualquer coisa a partir dele. Numa primeira fase apresentamos os objectos escolhidos, e depois os que vão resultar das ideias que esses primeiros suscitaram. Há objectos como um banco do jardim da casa do arquitecto Ricardo Bak Gordon; um urso de peluche da deputada Joana Amaral Dias, que está a servir de catalisador para uma peça minha, que vai servir para deixarmos objectos de que gostamos, uma espécie de colector de memórias; uma cadeira da coreógrafa Olga Roriz, que está a ser trabalhada pelos Beyond Architects; uns lápis do estilista José António Tenente, que a designer Joana Astolfi irá usar para desenvolver a sua proposta; um fogão do Telmo Faria, proprietário do Hotel Rio do Prado, que patrocina este projecto; um velocímetro de um Porsche do fotógrafo Fernando Guerra; entre outros.

Decidiu sozinho que queria ser arquitecto? Como é que evoluiu a sua visão da arquitectura, ao longo dos anos?

Visto a esta distância, acho que sou arquitecto por influência da Lego. Devo ser das primeiras gerações que tiveram acesso a estes brinquedos e isso foi determinante, para além de gostar muito de desenhar. Aos 15 anos já tinha apontado nesta direcção, também por culpa do contexto que se vivia na altura; era uma época optimista, onde alguns arquitectos começavam a ser reconhecidos. Quanto à arquitectura, há uma ideia que tenho perseguido nos últimos tempos que é a de que um edifício é um objecto, determinado pela noção de unidade, que não é possível decompor numa série de partes. Trabalhei durante muito tempo com o arquitecto Manuel Tainha, que foi uma referência enorme, mas quando comecei a trabalhar sozinho percebi que tinha de fazer as coisas de outra forma. Tenho uma admiração tremenda pelo processo de trabalho do arquitecto Tainha, e pelas obras que tem, mas não trabalho segundo os princípios dele, porque senti que não fazia sentido seguir o mesmo processo. A minha actividade foi sempre muito centrada na unidade do objecto.

Como vê o contexto actual da arquitectura em Portugal?

O contexto arquitectónico está a sofrer alterações substanciais a vários níveis. Estão a acontecer coisas interessantes na divulgação da arquitectura, por exemplo. Hoje em dia, a arquitectura é mediatizada a partir da Internet e isso faz com que ateliers pequenos, como o meu, em determinado momento, por exemplo quando lançam uma obra, tenham uma projecção idêntica à de um atelier grande. Está a assistir-se gradualmente a uma disseminação do trabalho dos star architects. No contexto português, sempre existiu um círculo de arquitectos fechado que se conheciam todos, mas com o aumento do número de cursos, isso mudou. Estas transformações do tecido social dos arquitectos têm efeitos muito expressivos e criam uma certa tensão. Por um lado isso é bom, pois há cada vez mais arquitectos a produzir coisas interessantes, por outro torna mais visível a situação de que há pouco trabalho.

Tem um Mestrado em Cultura Arquitectónica Contemporânea. O que é que defendeu na tese e de que forma contribuiu efectivamente para o seu trabalho?

O arquitecto Tainha foi meu professor no 5º ano e o trabalho final era um Museu na Rua do Alecrim, onde hoje existe um edifício do Siza. Eu gostei tanto desse trabalho que fiz a tese de mestrado sobre museus, sobre o lugar da arte. Interessava-me a relação da arte com a arquitectura: de que forma é que a arte é exposta? como é que a arquitectura pode tirar partido da arte e vice-versa?
A minha tese foi sobre o espaço de um museu na contemporaneidade e a forma como se expõe um objecto, e isso teve uma repercussão efectiva no meu trabalho. Tenho um projecto de um museu que pode agora ir para a frente, mas a importância de expor está muito presente em trabalhos que já fiz, nomeadamente em três lojas de óculos, onde o processo de exposição dos objectos é sempre diferente, o processo de exposição é o fundamento destes projectos.

Dos projectos que fez com a Betar, há algum que sinta que correu particularmente bem?

Eu gosto imenso da Escola Secundária Rafael Bordalo Pinheiro, que foi feita com o engenheiro José Pedro Venâncio. Gosto sobretudo da biblioteca, que se define por ter no capitel dos pilares metálicos que pontuam a sala uma clarabóia, um artifício que alude à noção de coluna sem fim do Constantin Brancusi. No fundo, reflecte a forma como podemos tirar partido da componente arquitectónica e dar-lhe mais sentido. Foi uma solução de arquitectura/engenharia que funcionou muito bem.

Houve alguma reacção ao seu trabalho que o tenha surpreendido, pela positiva ou pela negativa?

Acho que as pessoas de fora da arquitectura reagem de uma forma muito positiva àquilo que eu faço. Quanto aos arquitectos, acho que ainda há uma certa tendência para trabalhar de uma certa maneira e pertencer a um grupo, e quem não pertence a uma determinada escola já não pertence a esse grupo. Eu sinto-me um outsider, alguém que trabalha de uma forma mais ou menos isolada, independente. Mas obviamente que é fantástico saber que o meu trabalho é reconhecido por alguns dos meus pares.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #49, de Janeiro de 2014

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