01.12.2013

À conversa com Arq.º Pedro Ravara e Arq.º Nuno Vidigal

01.12.2013

À conversa com Arq.º Pedro Ravara e Arq.º Nuno Vidigal

‘A relação com os alunos é fascinante e fundamental para nos mantermos “up to date”. Eles são a nossa melhor revista da especialidade.’

Que características da vossa personalidade, ou da forma de trabalhar de cada um, mais contribuíram para fundar o Baixa atelier?

N – Formalmente, o Baixa Atelier fundou-se em 1991, 3 anos após a nossa licenciatura, mas na realidade começámos a trabalhar juntos a partir do 3º ano da escola. Quando estávamos no 5º ano surgiu a oportunidade de elaborar um projecto para a CERCI, em Chelas e, de uma forma natural, fizemo-lo em conjunto. Respondendo à sua pergunta, penso que a amizade e a formação conjunta, ou seja, a partilha das mesmas procuras, são a base da nossa associação.

P – Quando se forma uma “associação”, mesmo que ao princípio, informal, não se medem personalidades ou consequências. Simplesmente aconteceu, porque as circunstâncias do momento assim o permitiram. Parece-me que, ao fim destes anos, tem valido a pena!

São ambos docentes na faculdade. O que é que aprendem ao ensinar?

P – A relação entre a prática e o ensino é absolutamente complementar. Principalmente, na área do Projecto, em que as preocupações e os temas abordados acabam muitas vezes por ser comuns. Sinto que quando tenho pouco trabalho no atelier (e isso tende a ser uma dura realidade) menos tenho para dizer aos alunos, bem como quando estou sem dar aulas (como quando estive de licença para o doutoramento), estava pouco inspirado para o trabalho no atelier, e não exerci durante um ano! No entanto, no trabalho desenvolvemos um projecto sobre o qual temos domínio e uma forte intervenção, é da nossa autoria, e na Faculdade o trabalho é dos alunos e não podemos interferir enquanto “projectistas”, mas apenas enquanto críticos.

N – Para mim, que sou docente de Design de Ambientes no IADE, ensinar é reflectir a nossa prática profissional sobre outros pontos de vista, é aceitar que a arquitectura não se encerra em si mesma mas é realmente uma disciplina fascinante e aberta a diferentes abordagens. Depois há a relação com os alunos. É fascinante e fundamental para nos mantermos “up to date”. Eles são a nossa melhor revista da especialidade!

Integraram, em 2009, a representação oficial Portuguesa à 8ª Bienal de Arquitectura de São Paulo, no Brasil. Como foi a experiência?

N – O projecto “Cinco Áfricas, cinco escolas”, comissariado pelo Arq. Manuel Graça Dias, que representou Portugal em São Paulo, foi desde o início muito mais ambicioso do que uma mera exposição de trabalhos. A ideia foi desenvolver e construir 5 escolas, para os 5 países de língua portuguesa em África, projectadas por 5 arquitectos/gabinetes portugueses, e que em si representassem também 5 “escolas”. Isso implicou muita conversa entre todos, contactos com as entidades locais, visitas aos espaços e a elaboração dos projectos. Cada projecto era acompanhado por um crítico de arquitectura. O meio de apresentação privilegiado foi a maqueta. Por tudo isto, e por tudo o que representou para nós, a experiência foi fascinante e muito marcante. Infelizmente, nenhuma das 5 escolas foi, até à data, construída.

P – Esta experiência ainda não acabou. Mesmo que o projecto não seja construído, aquilo que nos deu foi uma reflexão na possibilidade da arquitectura poder abranger uma solução urbana mais generalizada. Nesse projecto, a partir de um módulo inicial de uma escola, acabámos por propor também um mercado, um posto de correios ou um centro de saúde. Estas possibilidades programáticas enfatizam as potencialidades arquitectónicas da solução, tornando-a independente da sua função última e criam uma nova realidade urbana, mais controlada e construtivamente mais permanente. É e será um projecto em curso.

Portugal está em “crise”. Isso exige uma nova abordagem da arquitectura? Podemos falar em arquitectura low-cost? Continua a ser um bom país para trabalhar?

N – Mesmo em tempos de crise não devemos confundir as coisas. A qualidade da construção poderá sofrer com a crise, e terá de se adaptar aos novos níveis de investimento, mas a natureza e a qualidade da arquitectura não se definem pelo seu custo. Haverá apenas uma menor produção. Neste momento, Portugal não é um bom país para trabalhar. Há pouco investimento e a concorrência desleal é uma prática comum. No entanto, é em Portugal que queremos trabalhar. Há muito trabalho para desenvolver cá. Basta olhar para nossas zonas urbanas.

P – Infelizmente há quem fale na crise num sentido do serviço prestado. Os serviços do arquitecto implicam regras deontológicas para com os colegas e regras de ética para com os clientes. Não se podem fazer descontos a responsabilidades ou então passarão os cirurgiões a fazer operações low-cost em que não se fazem anestesias ou faltam as luvas higiénicas? Há, no entanto, países, como a Irlanda, em que a importância dada ao trabalho do arquitecto deriva de um investimento do Estado no ensino da disciplina, ao nível dos primeiros dez anos de formação na escola, desde a primária. Esta política (porque se trata de uma política de arquitectura) dá hoje enormes frutos naquele país, mesmo com a actual crise que os afecta também profundamente.

Verifiquei que o Pedro é membro do Conselho Directivo Nacional da Ordem dos Arquitectos. Sente que é importante intervir na coordenação das questões que interessam à profissão? E como é que o Nuno vê este papel, estando mais de fora da OA ?

P – Alguém terá de o fazer! Não deixa de ser uma escolha, ninguém me obrigou, mas sinto que é uma parte cívica da minha vida, por isso importante. No entanto, às vezes é difícil, porque o papel do membro da OA, e eu enquanto membro também o fazia, é criticar a OA, e o papel essencial do(s) dirigente(s) da OA é saber ouvir essas críticas e dar-lhes sentido na tentativa de resolução dos problemas que a OA tem pela frente, que são cada vez mais e mais complexos.

N – O Pedro é por natureza uma pessoa activa. Agora é a Ordem, mas já foi o mestrado, o doutoramento, são as aulas… Depois da Ordem será outra coisa qualquer. É bom que gaste alguma da sua energia fora do atelier!

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #48, de Dezembro de 2013

Notícias & Entrevistas

01.10.2011

À conversa com Arq.º Manuel Aires Mateus

‘A grande vantagem que há com os irmãos é a total falta de cerimónia, o que nos faz ter discussões violentíssimas e resolver tudo muito rapidamente.’ Ler mais

01.09.2011

À conversa com Arq.º Carrilho da Graça

‘Os arquitectos estão sempre a tentar comunicar, de uma forma perfeita, aquilo que pensam (...) Eu não posso dizer que há uma que é ‘a’ obra. Vou sempre tentando a perfeição.’ Ler mais

01.01.2013

À conversa com Arq.º Alberto de Souza Oliveira

‘A arquitetura é arte… Penso que é uma alegria encontrarmos clientes que gostam de viver nos nossos espaços… e habitar lugares onde possam sonhar’ Ler mais

Topo

Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência de navegação. Ao continuar a aceder a este website está a concordar com a utilização das mesmas. Para mais informações veja a nossa política de cookies.

Portugal 2020 / Compete 2020 / União Europeia - Fundo Europeu do Desenvolvimento Regional