01.03.2011

À conversa com Arq.º Nuno Teotónio Pereira

01.03.2011

À conversa com Arq.º Nuno Teotónio Pereira

‘O espaço construído tem de ter boas condições para as funções que aí se exercem.’

O Arq.º Nuno Teotónio Pereira é conhecido, em parte, pelos projectos de habitação social que desenvolveu. Revê-se num papel social da arquitectura?

Durante 22 anos, fui funcionário da Federação da Caixa de Previdência, um organismo do estado dedicado exclusivamente à habitação social. Trabalhei na coordenação de projectos, era uma espécie de arquitecto principal. Fui a muitas cidades do país, contactei com câmaras municipais, seleccionei terrenos, acompanhei as construções, etc. Esse trabalho colocava-me constantemente a par das necessidades das pessoas. Foi um tema que sempre ocupou um lugar muito importante no meu trabalho, e a finalidade principal era não fazer uma distinção muito nítida entre os projectos de habitação social e os projectos para a chamada classe média. Nos meus projectos, eu quis esbater essa diferença, mostrando que os princípios que deviam reger a habitação social deviam ser os mesmos que caracterizam a arquitectura para qualquer classe, quer quanto à localização, à forma, aos equipamentos… Tentei sempre que meus os projectos não tivessem sinais exteriores que fizessem essa separação de classes e que houvesse uma integração desses edifícios no tecido urbano.

João Belo Rodeia, Presidente da Ordem dos Arquitectos, apelidou o seu atelier de “verdadeira escola”. Considera que desempenhou essa função pedagógica?

Não era uma função deliberada, intencional. Acabou por ser, em parte, porque passaram por lá muitas dezenas de arquitectos, estudantes ou estagiários, para completar a sua formação. Contribuiu para isso o facto de haver sempre trabalhos muito variados, de naturezas diferentes, e aconteceu uma coisa muito especial para acentuar esse carácter de escola: Como eu passava grande parte do tempo na Federação da Caixa de Previdência e não estava a cem por cento no atelier, os meus colaboradores, jovens arquitectos, sentiam-se à vontade para desenvolver as suas ideias… Havia, depois, uma apreciação do trabalho que eles tinham feito, mas havia uma colaboração muito estreita entre nós, porque eles tinham tempo e liberdade para evoluir sozinhos.

Que conselhos daria, hoje, a um jovem estagiário de arquitectura?

Eu tive uma posição, na prática da arquitectura, que foi definida há muitos séculos por um arquitecto romano [Marcus Vitruvius Pollio] do tempo do Império Romano, que estabeleceu o princípio de que um projecto de arquitectura tinha de ter sempre presente três características, em perfeito equilíbrio umas com as outras, sem sobreposições, isto é, nenhuma podia prejudicar as outras. As componentes eram: a utilidade (o edifício construído tinha de ter uma disposição adequada às funções que lhe eram destinadas); a resistência ou a solidez da construção – o que tem muito a ver com o trabalho dos engenheiros – (o edifício não podia ser frágil, tinha de ser resistente ao tempo); e por fim a estética (a beleza da obra). Foi esse princípio que me regeu ao longo da vida, e que consegui, em quase todas as obras, e foi esse princípio que incuti nos meus colaboradores. Hoje em dia, há uma certa tendência para dar mais importância ao aspecto exterior do edifício do que propriamente à organização interna e funcional da obra. Por exemplo, a Casa da Música, no Porto, tem grandes preocupações estéticas, soluções inovadoras, muito visíveis, é um belo edifício… mas no interior acho que está mal organizada, não está funcional, não é fácil as pessoas orientarem-se lá dentro. Portanto o equilíbrio entre as tais três exigências é, para mim, o princípio fundamental de uma boa arquitectura.

Qual é a obra da sua vida?

Recordo-me de um edifício de escritórios, na rua Braamcamp, popularizado como “Franjinhas”, porque tem franjinhas de betão. É um edifício muito diferente e foi o resultado de um dos aspectos que considero mais importantes na arquitectura que é: o espaço construído tem de ter boas condições para as funções que aí se exercem. Muitas pessoas passam nos locais de trabalho grande parte da sua vida e, neste caso em concreto, eu esforcei-me para criar as melhores condições para que as pessoas se sentissem bem lá. Fiz aquilo que se chama arquitectura de dentro para fora. Há, muitas vezes, a tendência de imaginar o aspecto exterior do edifício e depois fazer o interior. Eu não concordo com isso. Sempre defendi que se deve partir das necessidades interiores do edifício. Na projecção do “Franjinhas”, pensei o espaço a partir da imagem da secretária de uma pessoa que ia estar ali dentro grande parte do seu dia. Pensei em termos de luz, de condições de conforto, de vista para o exterior… No fundo, as exigências interiores é que foram dando forma ao edifício. E no final, também a fachada foi pensada em relação ao interior. Fiz janelas grandes, para entrar luz natural, mas protegidas com betão armado – as tais franjinhas – para não entrar demasiado calor e para dar uma certa intimidade ao espaço. Na altura, muitas pessoas pensaram que eu tinha começado por desenhar a fachada, por ser invulgar e estranha, mas foi a última coisa a ser desenhada.

Dos projectos que realizou com a Betar, qual foi o que mais gostou de elaborar?

A Rotunda e Fonte do Rato, na Covilhã, foi uma obra que tive muito gosto em fazer porque ocupou o vale de um rio onde, há meio século, havia fábricas que foram falindo e ficando em ruínas. A ideia era fazer desse espaço um espaço digno da cidade. Foi um projecto que trouxe a água da ribeira, numa passagem superior, sobre a estrada. Vencemos a ribeira sem a esconder. Era preciso desviar a água, e em vez de fazer um túnel, para a água passar por baixo, fizemos prevalecer a ribeira através de uma espécie de canal elevado. Fizemos a ribeira passar por cima da estrada. Foi muito importante a colaboração da Betar, nessa obra, em termos de estruturas. O trabalho de colaboração com os engenheiros foi sempre muito importante, desde o início do projecto.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #18, de Março de 2011
Crédito fotografia: Visão

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