01.11.2011

À conversa com Arq.º António Nunes de Almeida

01.11.2011

À conversa com Arq.º António Nunes de Almeida

‘Eu gosto de pensar arquitectura e desenvolver projectos. (…) Para mim a obra de arquitectura é uma escultura habitada.’

O Arq. Nunes de Almeida completa, este ano, 50 anos de carreira. É mais difícil ser arquitecto nos dias de hoje?

O que é mais difícil é ter trabalho, actualmente. Ao longo deste tempo todo, o que mais mudou foi a tecnologia associada à produção da arquitectura. Quando comecei a trabalhar fazia tudo à mão. Os desenhos eram feitos em papel vegetal, eram apagados, emendados, martirizados, e alguns acabavam mesmo por rasgar e ser deitados fora. A técnica de desenho digital veio facilitar imenso a tarefa dos arquitectos. Os desenhos passaram a ter uma precisão superior. Todos os pontos são marcados por topógrafo e ficam exactamente naquele ponto das coordenadas reais. Antigamente era um mais ou menos e, às vezes, tínhamos de chegar a obra um bocadinho mais para o lado. Os projectos passaram a ser interligados, a relação dos arquitectos com as outras especialidades, como a engenharia, ficou muito mais facilitada, até pela rapidez de transmissão dos dados. Antes tínhamos de tirar cópias e enviar para a BETAR e agora enviamos um e-mail e temos imediatamente o feedback do engenheiro, que nos diz logo se temos de mudar a viga de sítio ou não. Aumentámos muito a nossa produtividade. O que não acompanhou isso foi o mercado, a procura. Actualmente, no atelier, somos apenas 3 pessoas. Quando precisamos de mais alguém, para um trabalho específico, recorremos a mais alguns arquitectos, e temos capacidade para desenvolver projectos enormes. Por exemplo, o projecto do Palácio da Justiça de Sintra, que tem 32 mil metros quadrados e é dos maiores que se fez em Portugal, foi feito por seis pessoas.

Como é o arquitecto Nunes de Almeida, depois de 50 anos de carreira?

Eu gosto de pensar arquitectura e desenvolver projectos. O mais interessante na nossa profissão é o processo criativo e esse não mudou. Estou bastante atento a tudo o que se passa no mundo, na arquitectura, e sou influenciado por isso, mas há coisas que se mantiveram. Olho muito para os aspectos que têm a ver com a volumetria final. Para mim a obra de arquitectura é uma escultura habitada. Por exemplo, no edifício do Lloyds Bank, que ganhou o prémio Valmor, eu tentei reinterpretar o plano que me pediam dando-lhe um carácter volumétrico. Já nesse edifício se verifica uma força bastante grande dos aspectos escultóricos. É isso que me continua a interessar, ainda hoje. O que me dá prazer e me faz ter orgulho no que fiz é poder passar, hoje, na Avenida, e olhar para o edifício. Até porque foi muito complicado aprovar o projecto na Câmara Municipal. O edifício deveria enquadrar-se num plano que a Câmara tinha para a Avenida e, dentro da Câmara, havia arquitectos que diziam que o projecto tinha umas coisas salientes o que não podia ser. Gerou muitas discussões mas acabaram por achar que era uma peça interessante. Mais tarde, foi premiado pela própria Câmara Municipal.

Há algum projecto que lhe tenha custado muito ficar na gaveta?

Sim, o Palácio da Justiça de Coimbra. Foi um concurso que ganhei mas, já na altura, o
Ministério da Justiça andava a arranjar uma nova teoria que tem a ver com as cidades judiciárias. É uma ideia que só serve para não fazer concursos. Alugam uns edifícios de escritórios, enfiam lá dentro uma coisa a que chamam tribunal, mas os edifícios não estão preparados para isso. Em Coimbra houve polémica porque não me queriam entregar o trabalho a mim. Eu pus o ministério em tribunal e ganhei o concurso, mas anularam-no. Mais tarde, fizeram uma cidade judiciária, num edifício alugado, e ficaram a pagar renda durante 40 anos. Também estive pré qualificado para os Palácios da Justiça de Faro e do Porto mas foram ambos anulados. Quem está agora encarregue do instituto que trata desses assuntos está a pôr tudo isso em causa e a mostrar que as rendas que o ministério paga são uma brutalidade e saem muito mais caro ao Estado do que fazer obras de raiz.

O que é que está a fazer agora?

Neste momento estou a fazer a recuperação de um edifício de uma escola em Portimão, com a BETAR. É uma obra que já está a meio, estamos na segunda fase. Correu bem até uma determinada altura mas agora, como mudou o Governo, está a ser mais difícil porque a Parque Escolar foi posta em causa. A obra não está em perigo mas vamos ver como corre. É um projecto interessante porque é a recuperação de uma escola dos anos 60, que tinha algum interesse arquitectónico, e que tivemos de pensar de modo a enquadrar o que já existia sem estragar o que lá estava. Preservámos e valorizámos, dentro do mesmo espírito, mas afirmando, ao mesmo tempo, uma coisa diferente.

E o que é que gostava de fazer a seguir?

Tive, há pouco tempo, uma ideia que podia ser muito importante para a locomoção dentro de Lisboa: criar um teleférico entre o novo porto de Lisboa – que está a ser feito em Santa Apolónia, pelo arquitecto Carrilho da Graça – e o Castelo de São Jorge. Tive a ideia de, a partir dessa localização, e da chegada de imensos passageiros nos navios, fazer a ligação entre o porto e o castelo. Apresentei o projecto ao Porto de Lisboa e ficaram extremamente satisfeitos. Depois apresentei à autarquia e não se interessaram. O teleférico tinha sítio onde ir parar, há um terreno baldio, encostado às muralhas do castelo, que pertence à Câmara de Lisboa. Fizemos um estudo prévio e percebemos que poderia movimentar mil e quinhentas pessoas por hora. Podia escoar os turistas que chegam nesses navios para conhecer a cidade e colocá-los no castelo, que é das zonas mais turísticas e um ponto central da cidade. O Porto de Lisboa disse que lhes resolvia imensos problemas porque têm de escoar aquelas pessoas todas dali em autocarros e táxis, mas a Câmara não se interessou pela solução. Ainda não desisti, vamos ver se consigo andar com o projecto para a frente.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #25, de novembro de 2011

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