01.10.2011

À conversa com Arq.º Manuel Aires Mateus

01.10.2011

À conversa com Arq.º Manuel Aires Mateus

‘A grande vantagem que há com os irmãos é a total falta de cerimónia, o que nos faz ter discussões violentíssimas e resolver tudo muito rapidamente.’

Os irmãos Mateus tornaram-se os dois arquitectos, trabalharam ambos com Gonçalo Byrne, fundaram um atelier e dão aulas em conjunto. A vossa parceria é perfeita?

Eu comecei a trabalhar com o Gonçalo Byrne tinha 15 anos. E só muito tarde é que deixámos o atelier dele, a quem devemos imenso. Foi o nosso grande mestre. A minha parceria com o meu irmão não é perfeita, funciona, é possível. A grande vantagem que há com os irmãos, que também pode ser uma desvantagem, é a total falta de cerimónia, o que nos faz ter discussões violentíssimas, mas conseguimos discutir tudo. Isso às vezes é bom, dizemos logo o que pensamos, tem funcionado. Tem essa base muito clara, as coisas connosco são muito rápidas, temos discussões muito fortes e conseguimos resolver tudo muito rapidamente.

Duas cabeças pensam mesmo melhor do que uma?

Duas pessoas têm muito mais coragem do que uma. É a grande vantagem. Este é um trabalho de coragem e resistência, e duas pessoas têm mais resistência que uma. Por exemplo, esta coisa de ensinarmos fora seria muito mais difícil se estivéssemos sozinhos. Entre os dois é bastante mais fácil. E também porque as pessoas não estão sempre com a mesma capacidade e na mesma forma, portanto isto de poder partilhar e apoiar é bom. Duas pessoas tornam-se mais operantes.

Que características, de um e de outro, é que mais utilizam no vosso trabalho em equipa?

Nós tínhamos coisas que cada um fazia de uma forma mais evidente, por exemplo, o meu irmão era mais ligado a aspectos práticos do processo construtivo e eu fazia todas as conferências. Não sei porquê, mas distribuíamos assim. O que nos aconteceu, e o facto de trabalharmos em espaços físicos diferentes ajudou bastante, foi que hoje estamos muito mais parecidos, o que é muito positivo. Cada vez mais fazemos os dois a mesma coisa, sem grandes diferenças, o que nos permite ter um tempo diferente; usamos a nossa relação, basicamente, só para discutir. O meu irmão tem projectos nos quais eu não interfiro e vice-versa e temos alguns que fazemos em conjunto. Isto do ponto de vista administrativo porque, na verdade, do ponto de vista prático, fazemos as coisas juntos, mesmo os projectos que não são conjuntos. A investigação, que é aquilo que nos interessa, é quase sempre conjunta e partilhada.

Sente que a vossa arquitectura tem uma identidade própria, e que o vosso trabalho é logo reconhecido?

Não acredito que haja uma arquitectura nossa. Pensamos sempre que se tem que repensar cada momento. A arquitectura repensa-se constantemente. E nós gostamos de pensar que estamos disponíveis para fazer tudo diferente, a qualquer instante. Assusta-me que a nossa arquitectura possa ser reconhecível. Há pessoas que me dizem que é, mas eu acho que não. Os nossos projectos são muito diferentes uns dos outros. Assusta-me que a nossa arquitectura possa vir a ser reconhecível, no sentido disso se transformar numa prisão em relação ao trabalho. O reconhecimento da arquitectura tem um lado imagético, que me irrita um pouco, por ser demasiado panfletário. Eu acho que a arquitectura tem a ver com razões muito mais profundas, como a vida e o habitar, do que esse lado da imagem, da moda. A ideia da arquitectura identificada assusta-me porque, às tantas, transforma-nos em escravos de uma imagem. Reconheço que há coisas que estão identificadas mas gostaria de imaginar que a nossa arquitectura consegue sempre deixar na dúvida essa ideia autoral.

O Manuel disse, numa entrevista, que “vivem aterrorizados com a ideia de estarem esgotados”. É cada vez mais difícil ser criativo, depois de tudo o que já fizeram?

Quando acabamos os projectos, reconhecemos neles uma intencionalidade e pensamos que já não vamos conseguir fazer mais nenhum. Há o medo de já não voltarmos a ser criativos. Às vezes pegamos em projectos que têm parte de coisas que já explorámos e sentimos que são frágeis. Os mais fortes são os que têm aspectos únicos, que são pensados de raiz. Às vezes temos o terror de já não sermos capazes, de não termos nenhuma ideia. O que me atormenta, e que há-de acontecer um dia, é já não conseguirmos enfrentar um projecto de uma forma nova e forte. É algo que acontece com os arquitectos e com todos os criadores. Há aquelas excepções dos grandes génios, mas esses são poucos. Queremos poder correr riscos. No dia em que não pudermos correr riscos não temos qualquer hipótese de acertar no projecto, porque temos de fazer coisas que já conhecemos. Vivemos numa luta pela liberdade de poder correr riscos, de sermos criativos. É aí que os projectos são verdadeiramente interessantes. E a possibilidade de estarmos esgotados é um medo claro, a cada dia.

Há críticas quanto à habitabilidade das vossas casas. O que é que não admite que digam do vosso trabalho?

A única coisa que me importa, quando nos criticam, é que se compreenda o esforço que está envolvido. A partir daqui, as críticas são interessantes e positivas, muitas vezes ajudam-nos. Lembro-me de alguém dizer, numa exposição que fizemos no CCB, que a casa de Azeitão, aquela que tem os cubos suspensos, seria uma loucura de construir. Não se apercebeu que estava a falar de uma casa construída. O que acontece nessa casa, que eu visito porque sou amigo dos donos, é que é muito fácil de habitar. As pessoas dormem em camas, sentam-se em cadeiras… As coisas são relativamente banais e as nossas casas são desenhadas para esse grau de banalidade que tem a vida. Ter casas com espacialidades fortes tem uma interferência positiva na forma de habitar. Uma das características que temos nas nossas casas é exactamente essa facilidade e esse prazer pela forma como se habita. Nós vivemos muito em função disso. A nossa arquitectura centra o projecto na ideia do uso, na relação da pessoa com o espaço. Portanto as críticas à habitabilidade são, um pouco, desconhecedoras.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #24, de outubro de 2011

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