01.11.2013

À conversa com Arq.º João Favila

01.11.2013

À conversa com Arq.º João Favila

‘Costumo dizer que a arquitectura é parecida com a culinária. Têm ambas a ver com alquimia, com proporções e doses certas, com transformação e precisão.’

Tem uma forte ligação à Madeira. O que é que o arquipélago tem de tão especial para a prática da arquitectura?

Acima de tudo tenho uma relação afectiva com o arquipélago porque toda a minha família é da Madeira. Em criança ia para lá, nas férias, e tenho memórias muito especiais porque eram lugares muito diferentes dos que estava habituado. A Madeira permite-nos uma ligação muito forte com a natureza. Geologicamente é muito intensa. Para mim, está também muito ligada a casas, experiências e pessoas especiais. Ainda hoje me lembro de casas da Madeira quando estou a projectar. Casas sem electricidade, em que o tempo era completamente diferente e o ritmo e a disponibilidade para ouvir e ver eram completamente diferentes. A Madeira é uma espécie de memória e de reflexão da arquitectura. Existe um estoicismo que está mais ligado à construção do território do que propriamente à da casa em si. Há um grande esforço para domar a paisagem. A ilha oferece uma grande resistência e isso faz com que aconteçam coisas particularmente interessantes ao nível da imaginação. Existem lá coisas muito bem feitas e sem grandes recursos. E a natureza ajuda no processo. Mas não pode ser um processo transformador, no sentido de construir “contra”, tem de ser “construído com”. Num dos primeiros trabalhos que fiz no arquipélago, a Casa Branca, percebi que o grande tema do projecto era o jardim. Era evidente que era preciso preservar o jardim, onde depois se ia enraizar a arquitectura. Ele ia ser a essência do projecto e o hotel ia viver disso, ia ter uma relação silenciosa com o jardim.

O Hotel Porto Santo também tem uma forte ligação com a paisagem?

Embora fazendo parte do mesmo arquipélago, o Porto Santo é, da Madeira, completamente distinto. É muito mais árido, o que torna a experiência totalmente diferente. Ali, naquele território, as pessoas procuram praia e por isso o projecto reagiu de forma diferente. O que se pretendia era um hotel SPA, que tivesse uma espécie de componente médica, ligada ao potencial das areias. Assim, o hotel tinha de responder à praia, oferecendo ambientes mais escuros onde havia muita luz, mais húmidos onde o ambiente é muito árido, e mais intimistas onde os espaços são muito amplos. O hotel está colado à praia e vive da relação antípoda que estabelece com ela.

O que sente hoje quando pensa nas nomeações para os prémios que a Quinta da Casa Branca teve?

Eu era muito novo quando fiz esse hotel e o que sinto é que é uma obra que tinha de facto uma qualidade intrínseca, muito ligada à relação com o território, mas também alguns problemas associados a um jovem arquitecto. Costumo dizer que a arquitectura é parecida com a culinária. Têm ambas a ver com alquimia, com proporções e doses certas, com materiais, com transformação e precisão. Na cozinha, se deitamos um pouco de sal a mais podemos estragar o arroz, na arquitectura é exactamente assim. E na cozinha, geralmente, as pessoas só a partir dos 50 é que começam a cozinhar efectivamente bem, é uma coisa que demora muito tempo a aprimorar, obriga a uma grande prática. A arquitectura é assim também. Para além de que é preciso ter uma ligação especial com a pessoa para quem se está a fazer o projecto. No fundo, a arquitectura, tal como a culinária, está entre o serviço e a arte.

Sei que considera a arquitectura pluridisciplinar…

Cada vez mais. Eu trabalho com vários intervenientes, e um bom paisagista ou um bom engenheiro faz a diferença. Esta entrevista é para a BETAR e não posso deixar de referir que umas das melhores descobertas que fiz foi o Eng. Miguel Villar, que é realmente um engenheiro com alma de arquitecto, que nos compreende bem e se apresenta sempre disponível – e não sou o único a pensar assim – ele tem um deslumbramento relativamente à estrutura e à arquitectura que é muito particular, e isso ajuda imenso a pensar e a construir as coisas. Mas cada projecto pede especialidades diferentes. Já fiz parcerias extraordinárias com muitas pessoas. Lembro-me de um trabalho que fiz com o João Simões, um artista plástico; ou o trabalho sistemático que faço com as paisagistas Filipa Cardoso Menezes e a Catarina Assis Pacheco; gosto imenso de trabalhar com fotógrafos, o Eurico Lino do Vale ou o Duarte Belo têm e permitem leituras impressionantes no que toca aos territórios que nos envolvem. Gosto de fazer sempre uma recolha de elementos do território em estudo e ouvir as pessoas envolvidas e interessadas, antes de começar o trabalho. O projecto é assim intuído de forma mais informada.

Participou na exposição “Overlappings” para divulgar a arquitectura portuguesa. Na altura levantou-se a questão da ausência do Estado nesta matéria. Alguma coisa mudou em dois anos?

A consciência colectiva das pessoas em relação ao espaço público melhorou muito. Nos últimos 10 anos, foram feitas obras muito importantes, como eliminar o esgoto que havia no Terreiro do Paço. Foi uma grande obra invisível. A obra invisível é, aparentemente, má para o político, mas esta foi altamente transformadora. O Cais das Colunas agora está cheio de gente e isso foi excelente para a Baixa de Lisboa. Outra obra muito importante foi a linha Ribeirinha pedonal, que teve custos mínimos e um impacto impressionante na vida das pessoas. São intervenções necessárias. Há muita coisa por fazer, Lisboa continua a ser muito mal tratada, com património fabuloso a degradar-se, mas o desafio da escassez em que nos encontramos tem de nos fazer pensar. E aí temos segredos como a açorda alentejana, que é feita apenas com água, pão, azeite e coentros, mas que tem um sabor genial. Não precisamos de soufflés mas de açordas.

Em relação ao seu livro, qual foi o principal objectivo e o que é que resultou da obra?

O livro foi surpreendente. Foi um trabalho que envolveu muitos aspectos e que acabou por ser uma pequena obra. É uma espécie de retrospectiva do meu trabalho. Apesar de estar há muitos anos nisto, tenho pouca obra, e o livro foi bom para fazer um ponto de situação, para ver o que está feito e como está feito. Deu-me uma certa satisfação porque mostra que, apesar das dificuldades, há alguma coisa feita e que continuo a ser “alfaiate”. O livro também evoca textos de que gosto muito, como um do Paulo David sobre a “casa Gonçalo Monteiro”, que eu fiz na Madeira, ou do João Rodeia sobre a “Casa Branca”, ou do Pedro Paixão sobre a “casa Maria Borges”, pessoas que eu gosto e que estão relacionadas com o atelier. Foi uma espécie de paragem para reflexão.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #47, de Novembro de 2013

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