01.04.2015

À conversa com o Arq.ª Patrícia Barbas e Arq.º Diogo Lopes

01.04.2015

À conversa com o Arq.ª Patrícia Barbas e Arq.º Diogo Lopes

‘O dealbar de novas gerações, com novos métodos de trabalho e novas formas de organização resultou num panorama profissional mais diversificado e plural.’

Trabalham juntos desde 2003 e têm atelier desde 2006. O que é que vos juntou?

Somos ambos arquitectos, vivemos juntos. O nosso primeiro projecto em parceria, em 2003, foi a remodelação da casa onde vivíamos então. O resto seguiu naturalmente, a partir da cumplicidade conjugal e do reconhecimento mútuo das nossas aptidões complementares. Andámos na mesma faculdade, em Lisboa, mas depois as nossas formações profissionais, a nossa verdadeira aprendizagem como arquitectos foi muito diferente. Donde, o que nos juntou também foram as nossas diferenças. Ganhámos com isso um certo gosto pela diversidade, nos trabalhos e na resposta aos mesmos.

O vosso trabalho está enraizado num compromisso cultural, dão muita importância à economia de meios e os projectos definem-se como simples e pragmáticos. Falem-nos um pouco da forma como encaram a arquitectura.

Encaramos a arquitectura como mais que um serviço burocrático, como mais que um negócio. A arquitectura é uma disciplina, uma forma de conhecimento e de transformação do mundo. Nesse sentido procuramos ter, efectivamente, um compromisso cultural com o tempo presente e perceber como a arquitectura tem de ser antes de mais um veículo de reflexão sobre a realidade. A simplicidade e o pragmatismo são, do nosso ponto de vista, a expressão certa de uma razão que deve assistir às coisas, e em particular à arquitectura. Parece-nos que esses atributos são a medida justa para os tempos em que vivemos.

Como é a vossa relação com os clientes?

Procuramos que a nossa relação com os clientes – grandes ou pequenos, públicos ou privados – seja conduzida por argumentos racionais e autoridade técnica. Não descartamos a empatia ou mesmo a sedução, mas acima de tudo é a universalidade dos princípios intrínsecos da arquitectura nos quais confiamos como modo de relação com os clientes. São processos que envolvem sempre muita negociação e diálogo. Sem grandes clientes, não há grandes obras mesmo que seja a remodelação da cozinha da avó.

O que é que sentem que mudou na arquitectura em Portugal, desde que começaram a trabalhar?

Antes de mais, a falta de trabalho que se foi fazendo sentir nos últimos anos e que afectou a maior parte da nossa classe. Obviamente que a arquitectura não acabou em Portugal, como chegou a ser dito, mas vai ficar mais pobre porque é feita para menos e por menos. A falta de concursos públicos e o desinvestimento em programas de habitação de custos controlados são sintomas disso mesmo. Mas também nestes anos, assistimos ao dealbar de novas gerações, com novos métodos de trabalho e novas formas de organização. Daqui também resulta um panorama profissional mais diversificado e plural.

A arq. Patrícia colaborou com os arquitectos Aires Mateus, Gonçalo Byrne, e João Pedro Falcão de Campos. O que é que mais aprendeu com cada um deles?

Com qualquer um deles cresci e aprendi a olhar melhor, da cidade ao parafuso. São arquitectos com abordagens bastante diferentes e, por isso mesmo, foram experiências muito estimulantes que contribuíram para a minha formação e a maneira como encaro a profissão. Com o João Pedro Falcão de Campos, colaboradora ainda enquanto estudante, recuperei a paixão pela disciplina, com o Manuel Aires Mateus, porque também foi meu professor, aprendi a perseverança que é necessária para levar um projecto avante e, com o Gonçalo Byrne a diplomacia necessária para o conseguir concretizar.

Com Gonçalo Byrne concluíram a requalificação do Teatro Thalia, em Lisboa. Como é que encararam o desafio? Há algum outro projecto que gostassem de destacar?

O desafio de intervir nas ruínas do Teatro Thalia foi saber que tínhamos entre mãos um tesouro esquecido no tempo, saber como reavivar a sua memória e resgatar o que ainda restava dele. É um projecto complexo porque tem situações muito diferentes ao nível espacial e construtivo. Por exemplo, as engenharias tiveram um papel fulcral nomeadamente no conceito para a consolidação da ruína. Quanto a outros projectos: há vários, nem todos construídos e alguns puramente de pesquisa. Mas, dada a sua importância para o escritório, destacamos a torre de escritórios que estamos a projectar para a Avenida Fontes Pereira de Melo em Lisboa. É o nosso maior projecto até à data e um imenso desafio técnico e estético à escala da cidade.

Foram nomeados para os Icon Awards 2012, Designs of the Year 2013 e Mies van der Rohe 2013. Como é sentir o vosso trabalho reconhecido e saber que foi nomeado entre tantos?

É gratificante, mas efémero. Tem de haver condições para continuar a produzir por forma a alimentar o interesse que as nomeações ou prémios podem suscitar. Sobretudo numa esfera internacional, que é muito competitiva, mas um universo no qual temos interesse em participar para que a nossa arquitectura possa operar num campo expandido de oportunidades e ideias. Na verdade, é uma consequência lógica das circunstâncias em que vivemos. Procurar um espaço de trabalho para além das fronteiras portuguesas nasce, também, da necessidade de aumentar as probabilidades de encomendas ou outro tipo de trabalho. E as nomeações e prémios ajudam a isso.

Os prémios tiveram efeitos práticos no atelier?

Tiveram, em termos de convites para conferências e concursos. O portfólio do escritório ganhou um outro peso e notoriedade. Os prémios ajudaram ainda a consolidar o nosso currículo para efeitos de ensino, em particular em instituições estrangeiras, que é uma actividade que consideramos essencial para a nossa progressão como arquitectos. Ser professor é um imenso privilégio, por manter vivo um sentido de experimentação e aventura da juventude. Mas, transporta consigo a imensa responsabilidade de formar indivíduos com ferramentas adequadas para exercer esta profissão e, através dela, terem uma relação responsável com o mundo.

Quando falamos no desenvolvimento da arquitectura portuguesa para o futuro, como vêem a imagem e prestígio internos e externos e quais poderão ser os maiores constrangimentos?

Um dos maiores constrangimentos advém de uma insuficiente leitura dos efeitos desses “prestígios internos e externos” da arquitectura portuguesa. No sentido dos mesmos não se traduzirem necessariamente numa abundância de situações favoráveis. Que seriam inteiramente justas, dada a qualidade de muita produção arquitectónica em Portugal. Este desfasamento decorre duma certa fragilidade – económica, política, social, cultural – do nosso contexto. Temos que participar mais, e de forma mais consciente.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #63, de Abril de 2015

 

Notícias & Entrevistas

01.07.2012

À conversa com Arq.º Alexandre Marques Pereira

‘À medida que o mundo se vai enriquecendo, também o nosso trabalho se vai alterando. A linguagem tem de ser contemporânea e as referências adaptadas sem complexos.’ Ler mais

01.02.2013

À conversa com Arq.ª Catarina Sousa e Arq.º Gilberto Oliveira

‘Com a redução demográfica a que estamos a assistir, o que não é sustentável é a dimensão do território construído. Há centenas de milhar de edifícios vazios em Portugal e vamos perder quase 10% da população.’ Ler mais

01.06.2012

À conversa com Arq.º Jorge Silva

‘Atribuo à arquitectura a função de intervenção social e responsabilidade pública, não é um ato só entre arquitecto e proprietário, tem de dar resposta à cidade’ Ler mais

Topo

Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência de navegação. Ao continuar a aceder a este website está a concordar com a utilização das mesmas. Para mais informações veja a nossa política de cookies.

Portugal 2020 / Compete 2020 / União Europeia - Fundo Europeu do Desenvolvimento Regional