01.07.2015

À conversa com o Arq.º Miguel Pimentel

01.07.2015

À conversa com o Arq.º Miguel Pimentel

‘Projectamos, em regra, para mais anos do que, supostamente, iremos ter de vida, e a consciência dessa dimensão dá uma grande responsabilidade ao arquitecto sobre a tarefa de transformação que tem em mãos.’

Comecemos por perceber o que é que o fez escolher arquitectura e o que é que mais gosta na profissão?

Perde-se na minha memória, o momento e as razões que me levaram a decidir fazer arquitectura, por essa motivação ter estado presente no percurso do meu desenvolvimento, de forma consciente, desde o princípio da minha adolescência. A minha forma de estar e de me relacionar com a vida, nessa idade, assumia um carácter lúdico que sempre integrava a ideia de construir, inventar, criar objectos que, hoje, sinto como tendo sido o percurso lógico que me levou, mais tarde, à prática desta disciplina. Essa forma de estar faz-me pensar que, de algum modo, se nasce arquitecto, mesmo que, por vezes só mais tarde se tenha consciência disso. Como a qualquer outro arquitecto, o que mais me agrada nesta actividade é projectar, criando a ideia que se vai materializar na transformação de um espaço ou  num edifício, resolvendo a equação que todos os projectos transportam e encerram em si, por estar na sua génese, nas suas condicionantes naturais, culturais, físicas, sociais e económicas. São inúmeras as peças do puzzle com que o arquitecto se depara quando, perante um sítio, vazio ou construído, desenvolve uma ideia coerente que se virá a concretizar num edifício, e a ter uma interacção definitiva com aquele lugar. Projectamos, salvo nas obras opcionalmente efémeras, para muitos anos, em regra, mais do que, supostamente, iremos ter de vida, e a consciência dessa dimensão dá uma grande responsabilidade ao arquitecto sobre a tarefa de transformação que tem em mãos.

Houve alguém que o tivesse influenciado?

Na adolescência, não tive professores ou proximidade com outros arquitectos que, pela sua dimensão humana, tivessem contribuído para a minha decisão de fazer arquitectura, que gosto de encarar como uma forma de estar na vida, e não como uma profissão; foi uma decisão natural e solitária. No entanto, não vou deixar de referir a importância dos Mestres do Movimento Moderno, que influenciaram toda a Arquitectura do Século XX. Nomeio apenas dois que, de alguma forma, me influenciaram quando, nos anos 70, tomei conhecimento das suas obras, através de revistas e monografias. Refiro-me a Louis Kahn e a Tadao Ando, o primeiro no final e o segundo no início da sua prática como arquitectos, estabelecendo como que um fio condutor. Em Portugal, não posso deixar de referir a obra vastíssima de Álvaro Siza, obra notável, singular, que me continua a surpreender e impressionar pela sua qualidade, renovada a cada projecto.

Como é que define o atelier e a arquitectura?

O Atelier da Cidade, que fundei com outros arquitectos há mais de 30 anos, acumulou muita experiência na elaboração e coordenação de projectos de arquitectura, com os mais variados programas e tipologias, e que sempre funcionou em equipas alargadas de arquitectos, artistas e técnicos de outras especialidades, que tenta fazer uma arquitectura coerente, eticamente responsável, respondendo, em nossa opinião, da melhor forma possível aos desafios que nos são propostos. Definir arquitectura é uma tarefa ingrata, pelo carácter redutor que qualquer curta definição encerra para uma disciplina tão vasta e abrangente, sendo, para mim, a mais interessante, a arte de pensar e construir o espaço. É no espaço vazio, inundado pela luz natural, que a arquitectura aparece e se faz sentir. Fazemos arquitectura quando acrescentamos uma dimensão poética, necessariamente ética e estética, a qualquer construção.

Fez vários projectos para Angola. Há diferenças marcadas entre os projectos que faz em Portugal e, neste caso, em África?

Temos feito vários projectos para Angola nos últimos 25 anos do atelier. Inicialmente numa prática muito difícil, pela presença da guerra civil, e desde o início do processo de reconstrução, de forma organizada e muito profissional. Na minha perspectiva, não há diferenças marcantes entre os projectos que se fazem para Portugal, Angola, ou qualquer outro país, que não sejam as decorrentes das condicionantes comuns a todos os projectos. Angola, actualmente, não tem, em meu entender, características e condicionantes especiais ao desenvolvimento dos projectos de arquitectura, que não sejam as intrínsecas ao sítio onde temos que intervir, e as resultantes dos condicionalismos habituais, mas que são constantes, sempre presentes em projectos em qualquer parte do mundo.

Concorda que a arquitectura é cada vez mais considerada uma disciplina pluridisciplinar? É gratificante trabalhar com as várias especialidades?

Na minha perspectiva, não é a arquitectura que é cada vez mais uma disciplina pluridisciplinar, mas as equipas que elaboram os projectos que, progressivamente, incorporam técnicos de especialidades mais diversas, dando uma dimensão e complexidade ao projecto e à resolução das suas questões técnicas, muito enriquecedoras para a prática desta arte. Relativamente à especialização da área da arquitectura é, para nós, uma falsa questão. Qualquer arquitecto está habilitado, pelo conhecimento que tem e pelas ferramentas de que dispõe, a responder a qualquer tipo de programa que lhe seja exigido.

Houve alguma reacção ao seu trabalho que o tenha surpreendido, pela positiva ou pela negativa? E em relação ao futuro do atelier, que desafios estão em cima da mesa?

Ao longo da minha vida profissional, não me recordo de reacções ao meu trabalho pela negativa, mas recordo várias reacções positivas, quer obtidas em classificações de concursos de ideias, quer em comentários ocasionais, e ou, anónimos, muitas vezes os mais pertinentes e significativos. O atelier tem, neste momento, vários desafios em cima da mesa. Os mais simpáticos, que resultam de dar continuidade aos projectos de diversas escalas e tipologias que estamos a desenvolver, e os menos simpáticos, que resultam da gestão da crise económica que Portugal e a Europa do Sul estão penosamente a atravessar, e que tem evidentes interferências com a nossa actividade. A par das questões referidas, talvez o mais importante, seja o desafio de crescer na internacionalização do atelier, uma vez que o mercado de trabalho da arquitectura em Portugal, parece estagnado. Reconheço que, os tempos que vivemos, são de um crescente esmagar das condições dadas aos arquitectos para produzirem o seu trabalho, mas penso que esses factores circunstanciais não farão alterar a qualidade da prática desta disciplina, ainda que à custa do prejuízo dos arquitectos.

Há muitos prédios devolutos na baixa de Lisboa. A reabilitação é um grande desafio na Baixa Pombalina. Concorda que é indispensável reabilitar?

Concordo, em absoluto, que é indispensável e urgente reabilitar todo o território nacional, começando pelas áreas mais sensíveis como a Baixa Pombalina, e alargando a toda a cidade e território. Reabilitar não é, para nós, uma atitude estática, imobilista, querendo repor tudo na “traça original”, mas uma atitude dinâmica, critica, construtiva, e que acrescente valor ao Património a preservar.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #66, de Julho/Agosto de 2015

 

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