01.09.2015

À conversa com o Arq.º Paulo Cunha

01.09.2015

À conversa com o Arq.º Paulo Cunha

‘Os gabinetes que conseguiram reestruturar-se poderão sair mais sólidos desta conjuntura. Os demais debatem-se em cima de um muro cada vez mais estreito.’

O que é que o fez ser arquitecto e como descreveria a sua ligação com os clientes e com os projectos?

O interesse pela Arquitectura veio sobretudo por via do desenho e do meu deslumbramento, desde jovem, pelo acto de “construir”. Encontrei na Arquitectura a possibilidade de passar do acto criativo e abstracto do desenho para a sua realização material, o que era fascinante e se conjugava na perfeição com as minhas motivações. Contudo, ao longo da minha actividade, acabei por me aperceber que a dimensão mais estimulante da Arquitectura é sem dúvida a sua fruição, o seu uso e o seu potencial para intervir e modificar a vida das pessoas, das instituições ou das comunidades. O projecto exige sempre um conjunto de escolhas e muitas decisões. Não se esgota num conceito inovador ou numa imagem virtuosa. A noção de aperfeiçoamento sucessivo é algo que procuramos transmitir aos clientes e esse percurso é indispensável para a adequação do resultado final às suas expectativas. As aplicações informáticas que rapidamente permitem ter soluções quase finais, realisticamente ilustradas, subverteram o processo de reflexão e decisão que um projecto requere. As ferramentas evoluíram muito, mas o nosso “processador” continua a ser o mesmo. Sou da geração “pré-CAD” em que os desenhos permaneciam nos estiradores vários dias e a todo o momento eram vistoriados, corrigidos e aperfeiçoados. Não devemos descurar esta função correctiva do projecto.

Iniciaram a actividade do atelier em 1998. Fale-nos um pouco do percurso e características do AI.

O atelier formou-se como evolução natural de uma relação de trabalho sólida e continuada que já mantinha com os arquitectos Francisco Freire e João Pernão que, aliás, também foram meus colegas de curso e que, entretanto, já não integram o atelier. Com alguns projectos em andamento juntámos recursos e apostámos numa estrutura mais sólida, que nos permitisse responder melhor às encomendas. Havia uma forte relação de trabalho com um grande grupo do sector agro-alimentar e acabámos por ficar sempre mais ligados à encomenda privada do que à pública. Fomos crescendo e consolidando a nossa prestação, concretizámos alguns projectos interessantes e vimos várias obras construídas, como o prédio da Travessa Conceição em Lisboa, o centro de formação do CENFIC em Loures e a requalificação da Praça da República em Elvas, que têm servido como referência da nossa actividade. Somos um pequeno atelier. Qualquer projecto é amplamente discutido e todos os colaboradores, de uma ou outra forma, participam no seu desenvolvimento. A estrutura inicial do atelier favoreceu alguma diversidade estética, mas isso nunca nos impediu de encontrar uma linguagem coerente para os nossos trabalhos. Na abordagem ao projecto fomos mais convergentes e sempre estabelecemos uma grande proximidade e cumplicidade com os clientes. É lugar comum, mas também é verdade: os bons projectos só se concretizam com bons clientes e as boas obras com bons empreiteiros, e estas não são condições fáceis de atingir.

O AI desenvolveu um projecto designado “Dividir para Valorizar”. Em que é que consiste e quais os resultados?

O projecto parte de uma constatação comum a muitas localidades à volta de Lisboa. Os núcleos de moradias construídos durante o séc. XX, por famílias que precisavam de casas grandes ou buscavam uma residência de lazer, estão hoje sob grande pressão urbanística e especulação imobiliária. O envelhecimento das populações originais e a transformação dos agregados familiares veio evidenciar o desajustamento das tipologias das moradias existentes. As alterações nos parâmetros urbanísticos vigentes e algumas polémicas operações imobiliárias, têm levado à substituição das moradias originais e introduzido transformações profundas nestes conjuntos, reduzindo o seu potencial paisagístico, indispensável como contraponto às urbanizações vizinhas de grande densidade de construção. Propomos, para cada caso, a transformação das moradias existentes em habitações bifamiliares ou plurifamiliares, mantendo sempre a estrutura original do edifício e da propriedade. A divulgação local do projecto que fizemos teve boa receptividade e recebemos algumas consultas, no entanto ainda não concretizámos nenhum desses projectos.

Uma das vertentes do AI é a reabilitação. Considera que tem sido feito um bom trabalho a este nível?

A reabilitação urbana teve nos últimos anos um forte impulso, bem visível em cidades como Lisboa. Para trás ficaram muitas iniciativas que ajudaram a beneficiar e preservar edifícios, mas que não lograram renovar os centros das cidades. A realidade parece agora bem diferente, com dinâmicas que enquadram e valorizam as intervenções isoladas. Os bons exemplos de reabilitação quer privados, quer públicos, são frequentes e influenciam positivamente outros promotores e intervenções. O turismo e os pólos socioculturais da cidade vieram beneficiar a viabilidade económica dos empreendimentos e ajudar a reanimar áreas degradadas e em recessão populacional. As empresas adaptaram-se e há agora melhores produtos e soluções técnicas para a reabilitação. Os arquitectos e os projectistas, em geral, especializaram o seu conhecimento e têm soluções mais adequadas para apresentar. Com a ajuda de autarquias e administração central este movimento terá, seguramente, resultados positivos para as comunidades urbanas, porém, é indispensável que os cidadãos e instituições sejam envolvidos em todo o processo.

Como vê o contexto actual da arquitectura em Portugal?

Há poucos anos, num júri de aptidão profissional de técnicos de desenho, um candidato, colaborador num gabinete de uma pequena cidade do interior, referiu-me que tinha projectado cerca de 150 moradias e pequenos comércios em apenas um ano! Esta é uma questão que permanece actual. O projecto feito por arquitectos continua a ser, nalguns contextos locais ou socioculturais, uma situação de excepção. Hoje, acrescem as dificuldades do sector imobiliário e as restrições ao investimento público e privado que expuseram a frágil realidade de muitos gabinetes, sem margem e forçados a dispensar os seus colaboradores ou até a fechar. Ainda estamos a sentir essa vaga e não é fácil perspectivar o que virá a seguir. Os gabinetes que mantiveram a actividade, que captaram trabalho no exterior, que se concentraram em áreas em crescimento e que conseguiram reestruturar-se, em função dos condicionamentos actuais, poderão sair mais sólidos desta conjuntura. Os demais debatem-se com menos e piores encomendas e honorários indignos e vão tentando equilibrar-se em cima de um muro cada vez mais estreito.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #67, de Setembro de 2015

 

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