01.02.2021

À conversa com Arq.ª Mariana Barbosa Mateus

01.02.2021

À conversa com Arq.ª Mariana Barbosa Mateus

'Somos um país de referência na arquitectura contemporânea, exportamos imensos jovens arquitectos talentosos porque não os conseguimos absorver cá. Algumas ambições para a profissão: espero que seja mais valorizada e respeitada'

Porque escolheu arquitectura?

O meu pai foi desenhador quando eu era pequena e trabalhava bastantes serões em casa, por isso cresci a ver muitos desenhos de arquitectura. Adorava aquele universo do estirador e réguas T, e tenho a certeza que isto acabou por influenciar a minha escolha. Lembro-me também que a arquitectura contemporânea portuguesa se tornou muito mediática quando estava ainda no liceu. Primeiro com a Expo 98, em 99 inaugurava Serralves e a Casa da Música no Porto. Eu entrei na faculdade por essa altura e tenho a certeza que a experiência de ter visitado estes edifícios sedimentou a escolha de ser arquitecta.

Colaborou no atelier Aires Mateus e depois esteve vários anos em Londres. Fale-nos um pouco do seu percurso.

Estudei na Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa, estagiei com o atelier Matos Gameiro e depois trabalhei 5 anos com o Arq.º Manuel Aires Mateus. Foi uma óptima experiência e um intervalo de tempo suficiente para colaborar em projectos do princípio ao fim, por isso aprendi imenso. Em 2011 mudei-me para Londres onde trabalhei com os Sergison Bates e 6a architects, neste último tornei-me associada. Em 2017, achei que era uma boa altura para trabalhar a solo e regressei a Lisboa.

Quais as principais diferenças que encontra, na forma de trabalhar, entre o Reino Unido e Portugal?

O modus operandi é bastante diferente, é uma questão cultural, que se nota em qualquer indústria, não só em arquitectura. No entanto eu diria que os escritórios onde trabalhei tinham uma visão muito aberta e europeia, talvez sejam atípicos no contexto Londrino. Em ambos os escritórios onde trabalhei os directores leccionavam na Suíça e o ambiente era muito internacional. Em escala e organização, não senti diferenças flagrantes. Os pontos positivos são sem dúvida o enorme pragmatismo que têm em relação ao tempo e organização. A profissão de arquitecto é também mais valorizada. Os pontos menos positivos relacionam-se com alguma falta de frontalidade na comunicação e, por ser um contexto muito competitivo, todos se salvaguardam da melhor maneira possível, o que torna os processos de trabalho mais rígidos. Aqui também importa referir que é comum na indústria da arquitectura e construção resolver judicialmente qualquer divergência entre as partes. Este peso de se poder ser processado, por um lado responsabiliza os técnicos, por outro pode ser um constrangimento no processo criativo.

Consegue descrever o seu estilo arquitectónico e quais influências que não dispensa?

Acredito que cada projecto deva ser diferente do outro porque resulta do lugar, do seu contexto social, do cliente, do budget disponível. Todas estas condicionantes criam oportunidades. Para mim, nesta fase da carreira, seria redutor ter um ´estilo´. Ter uma linguagem específica poderia afunilar escolhas de projecto. Quanto a influências, penso ser imprescindível à prática da arquitectura investigar o que os outros já fizeram no passado, da arquitectura vernacular à mais erudita.

Em que áreas tem tido mais trabalho ultimamente? O que é que está a desenvolver no momento?

Temos trabalhado sobretudo em Habitação, projectos de diferentes escalas e em localizações muito distintas. Temos um projecto em obra no centro histórico de Cascais, um palacete divido em 4 apartamentos e não muito longe, no Monte Estoril, outra casa que se divide também em apartamentos.  Em Lisboa, estamos a desenvolver escalas maiores e mais compactas – na Palma de Baixo uma residência para estudantes e em Marvila um edifício de 4 pisos com 25 apartamentos. Fora da Grande Lisboa, estamos a trabalhar numa casa em Melides e em dois projectos turísticos em Alvor.

A pandemia afectou muito o seu trabalho?

Felizmente não diminuiu o volume de trabalho, afectou sim a forma de trabalhar. Desde Março que estamos praticamente em teletrabalho. É possível, mas não é o ideal. É importante trabalhar lado a lado com os colegas e reunir pessoalmente com clientes e equipa alargada de projecto. O nosso trabalho é táctil, temos de ver amostras, fazer maquetes, desenhar. Não temos de estar presentes todos os dias nem em todas as circunstâncias, mas têm de haver pontos de contacto. Penso que o futuro será assim, mesmo finda a pandemia, uma mistura de trabalho presencial e remoto.

E qual a visão para o futuro?

Algumas ambições para a profissão de arquitecto: espero que seja mais valorizada e respeitada. Somos um país de referência na arquitectura contemporânea, com dois prémios Pritzker (Álvaro Siza em 1992 e Eduardo Souto Moura 2011), exportamos imensos jovens arquitectos talentosos porque não os conseguimos absorver cá. No entanto é difícil conseguir honorários justos para o trabalho do arquitecto. A Ordem dos Arquitectos não tem tido um papel particularmente activo neste e noutros temas que fragilizam a profissão. O Arq.º Gonçalo Byrne é o presidente da Ordem desde o passado Verão e abraçou a causa com premissas bastante assertivas, estou convicta que ajudará a classe durante o seu mandato.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #127, de Fevereiro de 2021

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