01.06.2015

À conversa com o Arq.º Bak Gordon

01.06.2015

À conversa com o Arq.º Bak Gordon

‘A arquitetura precisa de tempo. Estamos a transformar um lugar e parece que não se compreende que é preciso tempo para pensar. A arquitetura requer serenidade, não pode ser eufórica.’

Queria perceber como foi o seu percurso. Sei que tem uma paixão pelo desenho, até expos alguns recentemente. Foi isso que o fez escolher arquitectura?

A decisão de fazer arquitectura surgiu por me ter deixado sugestionar por duas ou três obras, quando andava no liceu: a Fundação Gulbenkian e uma casa modernista dessa época, anos 70. Lembro-me que, de um momento para o outro, eu, que até tinha interesses noutras áreas, como coisas mecânicas e eléctricas, comecei a desenhar casas. Fui estudar para a António Arroio, em 1983, 84, uma escola secundária vocacionada especialmente para as artes, e deixei-me envolver muito em temas como arte, cinema, arquitectura… E depois preparei-me para a universidade. Não entrei em Lisboa, por três décimas. Fui parar ao Porto, o que foi uma alegria porque a escola de Belas Artes do Porto era um universo extraordinário, numa cidade incrível, onde havia uma grande intimidade com colegas e professores. Na disciplina de Desenho, o meu professor foi o escultor José Grade, figura mítica do curso e da escola, que nos envolvia naquela arte de desenhar, como se fosse uma linguagem, que é de facto. O processo era louco, desenhávamos sem parar, dia e noite. Aí é que o desenho passou a ser muito importante no meu modo de trabalhar, de investigar o processo do projecto. Regressei a Lisboa, no fim do primeiro ano, e comecei a fazer desenhos de maior dimensão, mais expressionistas, como parte do meu trabalho. Foram esses trabalhos que estiveram agora expostos na Galeria João Esteves de Oliveira. Entretanto ainda passei pelo Politécnico de Milão. Naquela altura havia muito pouca informação em Portugal sobre arquitectura, não havia conferências, não passava por cá quase ninguém, havia poucas publicações. E por isso valeu sobretudo pelo que absorvi à volta das aulas, pelas pessoas que conheci e pelo facto de ter viajado muito.

Li algures que não considera que os arquitectos sejam artistas. Como define a sua forma de fazer arquitectura?

Nós, arquitectos, temos um conhecimento peculiar, no sentido em que vamos respondendo a equações, que têm normalmente um lugar e um programa, que são sempre muito distintos, e por isso a nossa preparação, técnica e pela forma de olhar o mundo, convoca o conhecimento e as pessoas indispensáveis para dar a resposta. É claro que temos uma sensibilidade particular, e talvez aí queiram confundir com o artista. Podemos aqui usar três palavras: arte, ciência e técnica; ou seja, uma visão poética do mundo, sem a qual é impossível fazer qualquer proposta de transformação dos lugares; o conhecimento técnico, para que as coisas possam acontecer; e a visão científica, o conjunto de saberes que devem ser convocados para responder às solicitações. É o que fazemos: lideramos equipas e tentamos contribuir para uma transformação em contínuo, muito mais do que a tentativa obstinada de ser diferente ou de querer “inventar o mundo todas as segundas-feiras de manhã”. O que é necessário é contribuir para um território que está sempre em transformação, num processo de indução.

Houve alguma reacção aos seus trabalhos que o tenha surpreendido muito?

Recordo principalmente os comentários nas comunidades em que se integram. Por exemplo, no Lagar Oliveira da Serra, no Alentejo, as pessoas disseram que nem parece uma fábrica, mas um centro cultural. Mas também me lembro quando fiz, com a BETAR, a Escola Secundária Garcia de Orta – que tem uma estrutura pré-esforçada extraordinária, da autoria do Eng. Miguel Villar – dizia-se que as pessoas tinham medo de ir para debaixo da praça coberta, porque era assustador estar debaixo de uma massa imensa sem apoios visíveis, até que perceberam que aquilo nunca lhes iria cair em cima…

É professor no Instituto Superior Técnico. O que lhe oferece essa experiência?

Obriga-me a estar activo no modo de olhar as hipóteses de transformação. Gosto de ajudar a conduzir processos interiores de investigação, mais do que impor uma forma de fazer. Prefiro que as pessoas encontrem uma motivação para a transformação, para depois as apoiar com a minha experiência. É muito estimulante, porque há abordagens muito distintas. Mas também tenho aulas fora. Este ano estive a fazer um semestre em Barcelona e no próximo vou para Harvard. É interessante encontrar alunos de várias geografias e poder perceber o que eles têm de comum e de diferente, o que me obriga a reagir ao que vou encontrando. Engraçado é que temos a tendência para dizer que não há uma arquitectura de Lisboa ou do Porto, mas não é bem verdade, porque as escolas ainda têm muito peso.

Sente que os arquitectos têm hoje de fazer mais com menos?

Sem dúvida. Hoje a encomenda é muito restrita e há muitos arquitectos. Depois, a arquitectura não conseguiu prestigiar-se para manter uma certa dignidade na sua prática e nos honorários. E ainda há a questão dos prazos. Talvez pelo pouco respeito pela actividade, acaba por ter de se tomar decisões muito depressa; ainda agora acabei de entregar um projecto para uma praça que, se calhar, quando for construída, vai lá ficar 100 anos, e para a qual tive de ter uma ideia numa semana. A arquitectura precisa de tempo; é preciso tempo para experimentar, para voltar atrás, para refazer. Estamos a transformar um lugar e parece que não se compreende que é preciso tempo para pensar, sob pena dos lugares ficarem descaracterizados. A arquitectura requer serenidade, não pode ser quase eufórica.

Em relação à Estratégia Nacional para Habitação. Concorda que é uma mais valia a forma como se propõe recuperar os prédios devolutos de Lisboa?

Acho que tem de haver legislação que impeça que os proprietários não cuidem do seu património. A posse de um edifício não se esgota aí, ele faz parte de um tecido urbano que é de todos, está numa cidade, num lugar público, e nesse sentido tem de haver regulação. Não sei se é ficando na posse da Câmara ou com outro sistema qualquer, mas arriscamo-nos a ter um dos centros históricos mais devolutos da Europa. Acho que as coisas estão aos poucos a modificar-se. Mas também não se pode só olhar aos prédios, mas às acessibilidades, aos transportes públicos, aos serviços. Não adianta fazer habitação nos centros e depois tirar os hospitais para a periferia, as universidades para os campus, esvaziando as cidades de actividades que sempre lhe deram significado. É preciso preservar o património edificado, mas que as outras virtudes e valências acompanhem. E isso parece-me estar a começar a ser feito. Percebi agora que há vontade de concentrar os transportes todos de Lisboa numa só autoridade, não pode ser cada um a tratar dos seus assuntos. Mas fico satisfeito por haver quem se preocupe com o nosso património.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #65, de Junho de 2015

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