01.07.2018

À conversa com Arq.º Paulo Pereira

01.07.2018

À conversa com Arq.º Paulo Pereira

“Seria muito importante o arquitecto paisagista ter uma voz mais activa e [deixasse de persistir] a ideia de que só vem a seguir ‘pôr as flores’”

Em que consiste o seu trabalho, em termos de processo?

O trabalho do arquitecto paisagista tem sempre de ser visto como um trabalho de equipa, e nesse aspecto, ter integrado uma equipa como o Promontório trouxe-me facilidade no processo de trabalho, porque estou presente desde a génese de cada projecto e em contacto permanente com a equipa de arquitectura. Foi-me dada a oportunidade de construir uma equipa sólida de arquitectos paisagistas e qualquer projecto é resultado de uma interacção muito interessante entre nós e os arquitectos. Por outro lado, trabalhar numa estrutura multidisciplinar permite uma fluidez de comunicação que se reflecte no desenvolvimento do projecto e que é diferente de estar cada um a trabalhar no seu espaço individual. Ainda que eu tenha um interesse enorme por arquitectura e perceba o ponto de vista dos meus colegas arquitectos, a minha visão enquanto arquitecto paisagista acaba, muitas vezes, por ser diferente e isso gera discussão, que é sempre uma mais valia para o desenvolvimento de cada projecto.

De que forma a arquitectura paisagista permite obter soluções de sustentabilidade e equilíbrio entre homem e meio ambiente?

A formação do arquitecto paisagista é muito abrangente o que nos permite desenvolver uma visão e sensibilidade sobre o território, que em conjunto com os aspectos técnicos que vão desde a geografia, hidrologia, ecologia, botânica, construção civil, etc., a par de uma visão arquitectónica, mais relacionada com o desenho do espaço, nos dá uma perspectiva muito abrangente e uma visão que contemple todos os conceitos de sustentabilidade e de equilíbrio do homem com o meio ambiente. Infelizmente no mercado de trabalho nem sempre nos é dada a possibilidade de participar desde a génese do projecto e persiste ainda, em muitos meios decisores e corpos técnicos, a ideia de que o arquitecto paisagista vem a seguir “pôr as flores”. Lembro-me de um dos primeiros projectos em que colaborei, que foi um misto de indignação e revolta. Era um projecto para uma linha de água na Ilha da Madeira, onde a equipa de arquitectura paisagista foi chamada para fazer as plantações, como se de uma operação de cosmética se tratasse. O projecto de arquitectura já estava desenvolvido, os edifícios implantados em sítios completamente errados e lembro-me que discordava em absoluto das opções do projecto hidráulico… enfim, já não havia nada a fazer. Ao arquitecto paisagista só se pedia um plano de plantação para ficar bonito no dia da inauguração. Poucos anos depois, ocorreram umas cheias na Madeira e as construções desse projecto foram fortemente afectadas. É a segurança pública que é posta em causa, para não falar do dinheiro público gasto. Seria muito importante o arquitecto paisagista ter uma voz mais activa e ser ouvido de antemão.

A arquitectura paisagista é cada vez mais reconhecida pelas entidades que dirigem as cidades ou ainda há muito a fazer a esse nível?

Um longo caminho foi já percorrido desde a primeira geração de arquitectos paisagistas. Muito devemos a profissionais como o Prof. Francisco Caldeira Cabral, Álvaro Ponce Dentinho, António Viana Barreto, Gonçalo Ribeiro Telles, entre outros. Apesar disso, temos ainda um longo caminho a percorrer nesse reconhecimento. O arquitecto paisagista tem de ser chamado por se perceber a real importância da disciplina enquanto especialidade que concentra um saber que diz respeito à inter-relação das diferentes partes do projecto com a paisagem e não para cumprir mais um requisito imposto pela legislação. O facto de não termos uma ordem profissional é uma luta que a APAP (Associação Portuguesa de Arquitectos Paisagistas) tem há anos. Há uma petição aberta para que se corrija esta situação e a Assembleia da República tome a iniciativa legislativa de aprovar a criação da Ordem dos Arquitectos Paisagistas ou autorize o governo a legislar sobre esta matéria. Caso algum dos leitores esteja interessado poderá assiná-la no site da APAP.

Que diferença encontra no modo de fazer o seu trabalho entre Portugal e os outros países onde já desenvolveu projectos?

Para além das características biofísicas especificas de cada sítio, que determinam a matriz do nosso trabalho, o maior desafio é compreender as especificidades culturais de cada sítio; em primeiro para perceber o modo de como fazer, mas sobretudo para perceber como é que a sociedade para que estamos a trabalhar se relaciona e vive o espaço exterior e consequentemente os espaços que vamos criar. Desenvolver um projecto para Moçambique é completamente diferente de fazer o mesmo tipo de projecto para a Arábia Saudita, para a Rússia ou para o Vietname, e não tem só a ver com o facto de um ficar no deserto, o outro na sibéria e o outro nos trópicos, vai muito para além disso, pois há todo um legado socioeconómico/ cultural que terá de ser previamente analisado e contextualizado.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #99, de Julho/Agosto de 2018

 

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