01.02.2012

À conversa com Arq.º Tomás Rebelo de Andrade e Arq.º Jorge Garcia Simões

01.02.2012

À conversa com Arq.º Tomás Rebelo de Andrade e Arq.º Jorge Garcia Simões

‘A palavra complicar não faz parte do nosso léxico porque queremos que aquilo que fazemos seja percetível e que se deixe ler’

O que é que os fascina mais na vossa profissão?

Essa pergunta é fácil de responder porque a arquitectura é fascinante desde o banco do jardim e do quiosque das flores, à escola ou ao hotel. Tudo isso é possível fazer bem em arquitectura. E o que é fascinante na profissão é isso, é que qualquer objecto se pode tornar utilizável ou vivível. É muito gratificante porque é uma profissão onde vemos obra feita. E nós temos tido a sorte de conseguir traduzir em obra muitos dos nossos projectos. Outra coisa fantástica é o reconhecimento das pessoas. Há uns tempos, recebi um e-mail de um amigo a agradecer o prazer de estar a viver numa casa que eu projectei. Esse reconhecimento das pessoas que vivem naquilo que inicialmente foi um desenho nosso é muito gratificante e felizmente já tivemos alguns.

Li, a respeito do vosso atelier, que rejeitam a palavra “complicar”. Como é que adjectivam o vosso trabalho?

Nós trabalhamos numa base de simplificação dos procedimentos e na simplificação do projecto e da própria obra. Hoje em dia não há espaço para obras complicadas. Já fizemos algumas, no início, mas actualmente não há espaço para se fazer obras de difícil execução, não há dinheiro, nem mercado, nem tempo para isso. Há que simplificar em tudo. Baseamo-nos na estandardização e na normalização das soluções. Muitas vezes aparece-nos um programa complicado e nós tentamos descomplicar, desmistificar, torná-lo mais simples. De facto, a palavra complicar não faz parte do nosso léxico porque queremos que aquilo que fazemos seja perceptível e que se deixe ler. E, depois, temos também de nos colocar no nosso lugar, não temos, muitas vezes, a capacidade de ir tão a fundo, não estamos apetrechados para isso, nem a conjuntura nos permite. Adaptámo-nos aos nossos clientes e aos desafios que temos.

Que tipo de propostas mais vos cativam?

Estivemos, há pouco tempo, a fazer um projecto que mexe com as pessoas, que está muito ligado à vivência das pessoas, ao aspecto social da arquitectura, e esse é um desafio muito interessante. Estamos a falar de um centro paroquial, uma igreja, um centro social. Essa vertente da arquitectura é muito importante e é um desafio muito grande. A habitação também é uma coisa que mexe muito com as pessoas, mas a questão social ainda mais. Nos tempos que correm, as pessoas esquecem-se das regalias sociais. Atravessamos um período difícil mas temos de continuar a fazer coisas. A acção social, neste contexto, é dos maiores desafios. Se me perguntasse o que é que eu gostava de fazer, eu diria uma escola, um liceu, uma faculdade.

Gostam de seguir processos ou mudar muito a cada desafio?

Nós temos coisas muito díspares, o que tem a ver com a fase em que foram feitas. A década de 90 foi experimental, trabalhávamos muito para o ramo automóvel e aí as coisas eram estandardizadas, mas em tudo o que estava fora deste ramo fazíamos experiências. O nosso maior desafio terá sido um condomínio na Alta de Lisboa, com cerca de 350 apartamentos, onde utilizámos alguns sistemas construtivos pouco usuais em Portugal. O que resultou melhor foi a racionalização do projecto, foram os sistemas construtivos que minoraram os custos e garantiram a rapidez e a eficiência da execução da obra. Neste momento temos uma linha muito mais definida, temos uma arquitectura muito mais nossa, temos processos mais concretizados, mais esquematizados, e que nos permitem enfrentar os desafios com maior segurança. Criámos uma imagem.

É mais difícil ou mais fácil ser arquitecto hoje em dia?

É cada vez mais fácil ser arquitecto mas é muito mais difícil fazer arquitectura hoje em dia. Há falta de meios, nomeadamente financeiros; há falta de tempo, os clientes são mais exigentes, dão-nos prazos apertadíssimos; as decisões tomam-se de dia para dia, estamos a fazer um projecto que de repente pára e depois arranca com outras premissas. É dificílimo. Os contratos a que somos obrigados são duros, a globalização faz com que as empresas estrangeiras, que estão cá a investir, apliquem critérios muito diferentes, o que faz com que, de repente, passemos de um sistema que é nosso, para um outro que nos obriga a reestruturar tudo. Para não falar da legislação que está cada vez mais restritiva e é contraditória em muitas coisas. Por exemplo, uma coisa que é quase uma contradição: há enormes exigências acústicas e enormes exigências térmicas. A térmica faz barulho e a acústica não deixa que a térmica cumpra os seus objectivos. Então a térmica tem de entrar com mais equipamento para insonorizar, o que fica mais caro e entra tudo em conflito.

Construíram uma casa para vocês próprios?

Arq. Jorge: Não. Eu projectei mas nunca cheguei a construir. Tenho o projecto da minha casa, porque o papel não custa quase nada, agora falta-me dinheiro para a fazer. Tenho uma espécie de ruína no Alentejo, que estou há imenso tempo para recuperar, sei perfeitamente como o quero fazer, mas como não invisto na bolsa, não tenho meios para isso.

Arq. Tomás: Já eu tenho um terreno para o qual fiz alguns 30 projectos. Não construí porque não sou capaz, é muito difícil fazer uma casa para mim. Nós temos imensos caminhos a seguir, porquê seguir um e não outro? Eu decido ir por um caminho, mas depois chego a meio e penso que se tivesse ido pelo outro ficava melhor. Então guardo esse projecto e vou para o outro. Conheço muitos arquitectos a quem acontece o mesmo. E mais, cada risco que se faz tem um custo associado. Eu faço um risco e penso: “Não, para isto já não tenho dinheiro” e apago. Se tivesse uma pré-existência saberia o que fazer, mas fazer a partir do zero não consigo. O meu sentido crítico é muito maior quando é para mim e como cada risco tem um preço, chego a um limite e penso: “Vou ter de encolher. Mas não dá para encolher. Então tenho de mudar alguma coisa. Mas assim já não é o que eu quero”, e acabo por guardar na gaveta.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #28, de Fevereiro de 2012

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