01.03.2012

À conversa com Arq.º José Forjaz

01.03.2012

À conversa com Arq.º José Forjaz

‘Sou internacionalista. Só assim se pode ser coerente com uma sociedade que se quer integrada entre si. Sinto-me arquiteto. Acho que a nossa pátria é onde trabalhamos.’

Estudou em Lourenço Marques, Porto e Nova Iorque e trabalhou na Suazilândia e Botswana, antes de se instalar de vez em Moçambique. O que é que este percurso lhe deu e quais as principais diferenças entre Portugal e África?

Quando estava em Nova Iorque a tirar o master, o meu amigo Pancho Guedes entusiasmou-me a ficar com um escritório na Suazilândia. Então fui de Nova Iorque para Mbabane, uma cidade que tinha menos gente que o quarteirão onde eu morava. Mas isso só me deu a noção de que o mundo é todo igual, as pessoas são muito parecidas e as necessidades e os problemas são os mesmos. Não há diferença entre trabalhar em Mbabane ou em Nova Iorque a não ser para quem quer fazer uma carreira pública. Entre Portugal e África as diferenças são basicamente o momento histórico-cultural. Portugal é um país perfeitamente integrado na cultura universal. Não precisa de se afirmar, tem a sua identidade bem definida, joga nas esferas culturais, políticas, sociais e tecnológicas. África ainda não chegou lá. As pessoas precisam de fazer a chamada cultura da auto-estima, como se precisassem de partir da auto-estima para conseguir valores, em vez do contrário. E ainda há a questão da negritude, dos complexos. Portugal não vive esses complexos, não precisa de se auto-estimar e já se sabe autocriticar. África há-de lá chegar.

Moçambique tem muita arquitectura portuguesa mas, desde a independência, os edifícios têm sido pouco recuperados. Sabe porquê?

Sei, não há dinheiro. Não é que as pessoas não tenham vontade disso mas não há dinheiro para ter água ou electricidade, logo, a classe média moçambicana não tem condições económicas que lhe permitam recuperar essas estruturas. Não há dinheiro para tapar os buracos das ruas, nem para pôr os elevadores a funcionar, para as pessoas não terem de subir 15 andares de escadas para ir trabalhar, quanto mais para reparar uma janela. O país é um dos mais pobres do mundo. O orçamento per capita de Moçambique é incomparavelmente menor que o de Lisboa. Maputo tem um orçamento de cerca de quatro dólares por habitante, para gerir a cidade, enquanto Lisboa terá mais de mil. O seu percurso é indissociável do exercício de uma cidadania interveniente.

Como foi trabalhar para o Governo de Moçambique?

Ao viver num regime colonial fascista, desde muito jovem que senti que as coisas não estavam bem e as minhas associações emocionais e políticas eram, quase inevitavelmente, de esquerda. Havia três possibilidades: ser fascista, comunista ou católico progressista. Eu era, e sou, ateu, portanto não me pareceu que fosse encontrar as respostas aí. A opção da esquerda era quase imposta porque era a única que lutava contra um regime injusto e totalitário. Por razões várias, fiz algum trabalho que foi apreciado em África e a certa altura juntei-me ao movimento de libertação de Moçambique. Já depois do 25 de Abril, fui convidado a voltar para Moçambique para ajudar a construir o país. Era um convite irrecusável porque havia ligações emocionais muito fortes e acabou por ser um trabalho de espantosa compensação que continua a deixar-me dormir bem todas as noites.

O que tem a dizer acerca do convite de Kofi Annan para realizar o projecto da sua casa em Accra, no Gana?

Não há muito a dizer. Quando ele veio a Moçambique, pela primeira vez, ficou alojado numa casa que eu tinha desenhado. O Governo tinha-me pedido que desenhasse umas casas para alojar os presidentes dos países visitantes que se reuniam cá de vez em quando. Eu desenhei e foram construídas quatro casas para esse efeito. O Kofi Annan ficou numa e, como gostou muito, quando pensou em fazer uma casa para ele mandou dizer que queria aquele arquitecto para a projectar. Foi assim que aconteceu. Tive hipóteses de estar com ele várias vezes, é uma pessoa de grandes qualidades humanas e por isso foi um prazer trabalhar para ele.

José Mendonça escreveu na Artes&Letras, a propósito da sua exposição “Ideias e Projetos”, que o arq. José Forjaz “é considerado, por muitos, um marco da arquitectura portuguesa”. Sente-se reconhecido em Portugal?

Acho que sim. Tenho sido convidado para fazer exposições e conferências; este mês foi publicado um livro sobre uma conferência que dei para a Universidade do Minho; a Ordem dos Arquitectos fez-me membro honorário; e ainda semana passada um amigo enviou-me um e-mail a dizer que tinha feito uma palestra sobre mim na Universidade de Aveiro. Portanto, não tenho a sensação de estar esquecido, pelo menos pelas pessoas que interessam. Tenho pena de nunca ter feito uma palestra na Escola de Belas Artes do Porto, onde me formei, mas percebo que são aspectos circunstanciais. Sinto-me reconfortado com tudo o que me têm feito em Portugal. E espero não ser tomado como um heroizinho da moda, que é um mal que afecta a arquitectura mundial. É um culto perigoso porque os arquitectos mais jovens só querem ser conhecidos. Pensa-se que se é muito conhecido é porque é bom arquitecto, mas eu desconfio que se é muito conhecido deve ser mau arquitecto.

Sente-se mais português ou moçambicano?

Eu não sou patriota, sou cada vez mais internacionalista. Acho que só assim se pode ser coerente com uma sociedade que se quer integrada entre si e que tem de eliminar as barreiras de ordem política, económica e social. Os ecossistemas não respeitam estas fronteiras portanto não há razão para separar os homens. Eu sou anti-nacionalista e estou convencido de que essas divisões são artifícios negativos, contraproducentes e estão fora de época. Desde a evolução tecnológica, sobretudo, são cada vez mais erradas. Sou capaz de cantar o hino nacional mas não me sinto ligado a isso. Sinto-me cada vez mais arquitecto. Trabalhei em vários países e depois de lá estar, nem que fossem só três semanas, achava que podia perfeitamente lá viver. Eu acho que a nossa pátria é onde trabalhamos. Sou um cidadão do mundo.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #29, de Março de 2012

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