01.04.2012

À conversa com Arq.º Paulo David

01.04.2012

À conversa com Arq.º Paulo David

‘Pode ser mais entusiasmante fazer uma casa para um amigo na minha localidade do que fazer uma torre na 5ª avenida em Nova Iorque para utilizadores desconhecidos’

A sua arquitectura está totalmente enraizada na geografia do território da Madeira. De onde vem essa saudável obsessão pelo arquipélago?

De certa forma sim, especialmente a construída. A dita “saudável obsessão” parte de uma condição simples e clara: nasci e vivo no arquipélago. Este exercício de uma presença continuada num determinado lugar convoca desde logo uma relação de magnetismo a esse próprio lugar. Estrutura sistemas de afectos e, como não vivemos sem estes sistemas, enraizamos num lugar, num sentido que desencadeia o assombro. Tal como uma grande árvore, que se fixa num suporte, com raízes que mergulham no terreno, com esbeltos e extensos ramos espalhados em todas as orientações. Assim nasce a árvore da vida.

O júri do prémio Alvar Aalto disse que “os edifícios projectados por Paulo David podem ser considerados tanto paisagem como arquitectura”. Como é que consegue essa fusão perfeita entre a obra e a natureza?

Não sei se consigo, estou sempre na incerteza apaixonante de encontrar suporte na plataforma paisagística. O arquitecto Paulo Mendes da Rocha afirma que “a geografia é a primeira arquitectura”. Cristalizar essa geografia, num exercício da arquitectura que, por si só, é revelador de uma acção de grande transformação, sem dosear uma sobre a outra, pode ser um propósito. Isto é, a arquitectura não precisa ser mais protagonista do que a própria natureza. A paisagem é esse todo, artifício e natureza. Se o meu exercício da arquitectura responder a esta equação, fico naturalmente satisfeito.

Sente uma responsabilidade acrescida para com a sua região sabendo que a arquitectura na Madeira tem um papel importante na economia do turismo?

A arquitectura deve ter sempre um papel importante em todas as economias, senão não justifica fazê-la. Logo à partida, a grande importância da arquitectura é estruturar uma economia de vida para as pessoas, o seu propósito é propor vida. O turismo, sendo aqui a primeira expressão da economia, revela-se de uma grande importância. É uma economia “parasita”, vive da excelência dos lugares, logo cabe-nos prolongar e não danificar esses lugares. A arquitectura tem um papel crucial porque está constantemente a responder a esse propósito, estruturando novas existentes paisagens, não danificando esses lugares motivadores de visita.

Quais são as maiores dificuldades que encontra por fazer arquitectura num local periférico? Neste contexto de crise em que vivemos, está a ser mais difícil ter encomenda local?

É ultra-periférico. Fazer arquitectura aqui é estar na periferia da ultra-periferia. Mas a geografia não condiciona o pensamento. Pode condicionar a construção, no limite, mas esta contingência pode ser uma locomotiva para fazer. George Perec escreve um livro sem usar uma vogal. Esta é uma boa referência, como todas as contrapartidas podem levar para uma arquitectura onde as condicionalidades se convertem em oportunidades. Isto leva-nos a que o pensamento nos conduza para uma riqueza criativa inesperada. A crise é mais uma contingência. E a arquitectura sempre resistiu a todas.

Os arquitectos mais novos conseguem subsistir sem ter de procurar trabalho fora do arquipélago? Preocupa-o que saiam da região?

O arquipélago é um ponto geográfico como outro qualquer. É possível estar aqui e trabalhar para outro lugar, hoje esse problema não se coloca. Há todo um conjunto de condições técnicas para residir num lugar e executar trabalho noutra parte do mundo. Estamos perante um território vasto de conexões e mobilidades. Viver numa ilha não é propriamente ser uma ilha. Deixe-me contar uma relação interessante: na história da música local, com a emigração dos Madeirenses para várias partes do mundo, uns deslocaram-se para o Havai, onde transportaram um instrumento musical típico, o rajão, que acabou por influenciar a música dessa região. No regresso, esse instrumento veio com mais uma corda, que acabou também por influenciar a música tradicional da ilha. Não me preocupa a saída dos arquitectos da região. Pode causar transtornos, quanto muito, o não regresso.

O último arquitecto que entrevistei, José Forjaz, disse que se sente em casa trabalhando em qualquer parte do mundo. O arq. Paulo David não está, ou esteve, interessado em fazer projectos no continente ou no estrangeiro?

Pode ser mais entusiasmante fazer uma casa para um amigo na minha localidade do que fazer uma torre na 5ª avenida em Nova Iorque para utilizadores desconhecidos. Contudo, estou sempre a sair da região de diferentes formas em contextos de exposições, publicações, conversas ou viagens.

Depois de várias distinções, recebeu, este ano, a Medalha Alvar Aalto. Independentemente da importância dos prémios, que significado tem para si saber que é reconhecido pelo seu contributo para a arquitectura?

Já tive a oportunidade de afirmar que não contabilizo essa importância até porque é vaga ao remeter para uma só pessoa. Existe um grande contributo de uma orquestra maior. Costumo dizer que não existem bons arquitectos sem bons donos de obra. O reconhecimento tem, desde logo, esse contributo de transmitir uma determinada consideração para uma obra, no limite, para um percurso. Estou convencido que qualquer arquitecto consegue fazer uma excelente obra pelo menos uma vez na vida. O grande desafio é fazer continuadamente. Ter duas grandes obras é extraordinário. Mas um grande contributo pode passar também por decidir não fazer. No momento actual, onde existe desesperadamente a necessidade de construir, decidir não fazer é tão importante como fazer bem. Se um arquitecto acha que não vai acrescentar valor, pode e deve dizer não. Estou mais entusiasmado neste contributo da arquitectura, a capacidade de valor acrescentado a um lugar. Instalar generosidade e sapiência no processo ético da intervenção é uma obrigação maior.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #30, de Abril de 2012

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