01.05.2012

À conversa com Arq.º Carlos Tojal e Arq.º Miguel Passos

01.05.2012

À conversa com Arq.º Carlos Tojal e Arq.º Miguel Passos

‘Tudo o que fazemos é discutido. Este é fundamentalmente um trabalho de equipa onde todas as pessoas acrescentam.’

Que características da vossa personalidade, e da forma de trabalhar de cada um, mais contribuíram para fundar a pmc/arquitectos?

Nada! Nada nos une, somos totalmente diferentes, mas existe entre nós um grande sentido de complementaridade. Temos características completamente distintas, em termos de personalidade, de trabalho e no próprio modo de estar na vida. O Carlos é mais “rato de atelier”, não gosta de sair. O Miguel é o contrário, gosta é de andar lá por fora a laurear. Daí o complemento das personalidades. Já nos estilos de arquitectura encontramo-nos, gostamos das mesmas coisas. Aí não há conflitos, há em tudo o resto mas pensamos que essa é uma das vantagens da nossa sociedade. Nos tempos que correm, são coisas muito difíceis de levar para a frente e connosco funciona, também pelo facto do nosso trabalho ser para a sociedade e não para cada um individualmente.

Qual é a mecânica de funcionamento da pmc/arquitectos?

Tudo o que fazemos é discutido. Este é fundamentalmente um trabalho de equipa onde todas as pessoas acrescentam. Um arquitecto júnior tem um papel tão importante como os outros. Não acontece um de nós fazer um trabalho e mostrar ao sócio, só no final, para ele assinar por baixo. Todos os dias nós interrompemos o trabalho do outro para dividir ideias. E há ainda um terceiro elemento que é a Leo (mulher do Miguel que faleceu há uns meses) que era como se fosse nossa sócia porque, pelo trabalho que desenvolvia e pela maneira como o fazia, fez-nos ver a arquitectura de uma maneira completamente diferente. A Leo é a alma deste atelier. Era a nossa mentora, nada se fazia sem ela ver, havia um cuidado enorme de ouvir a opinião dela. Tem uma importância enorme na vida deste atelier e está cá sempre, de tal maneira que vamos ter uma publicação sobre alguns trabalhos do atelier que se vai chamar “Leonor Duarte Ferreira, pmc/arquitectos”.

Concorreram com um projecto para o futuro hospital de Todos os Santos, mas não venceram. Sentem que os concursos são uma forma justa de avaliar o trabalho dos arquitectos?

O hospital de Todos os Santos não vai ser feito por nós, apesar de ter sido uma luta de três anos, e um grande investimento. Três anos é muito tempo para uma não vitória, são centenas de horas de trabalho, mas foi um projecto muito aliciante. Aquilo que aprendemos não tem classificação, foi imenso. Sonhámos muito com o projecto mas no final foi uma questão de números. É uma área que nos interessa muito, é muito específica, muito difícil, mas muito aliciante. Se os concursos são justos? Não sei. Nos concursos por concepção/construção, ao fim da primeira ou segunda fase, a qualidade do projecto não pesa, só se pergunta “quanto custa?”. Nos concursos públicos ou por convite, quando perdemos sentimo-nos sempre injustiçados, até porque concorrer custa muito dinheiro, gastam-se fortunas, e o rácio de aproveitamento é muito baixo, mas só faz isto quem tem vocação e nada dá mais gozo do que a liberdade que nos é permitida nos concursos. Nas fases finais, esquecemos por completo a vida que há para além do
concurso, vivemos para aquilo, vamos a jogo por paixão.

Sentem-se livres ou há muitas condicionantes externas no desempenho da vossa actividade?

O pior é a legislação. As coisas quase que perdem a graça de tão regradas que têm de ser. Estabeleceram-se metas tão elevadas, que nem distinguem os edifícios existentes dos novos, e que dificultam brutalmente os processos para reabilitação dos edifícios. Posso dar um exemplo de um edifício em Lisboa, que tivemos de reabilitar, numa rua com inclinação, onde não conseguimos respeitar todos os decretos lei e tivemos de assinar um termo de responsabilidade. Na realidade não conseguimos garantir as acessibilidades todas a pessoas deficientes quando a rua para se chegar a essa casa também não tem essas condições. Ou seja, mesmo que nós conseguíssemos fazê-lo, as pessoas ficavam prisioneiras no espaço. Não há flexibilidade, a lei é cega e encareceu a construção de uma forma quase incomportável. Depois há situações caricatas, por exemplo, quando abriu concurso para a Casa da Música no Porto era obrigatório ter experiência em coisas do género. Assim ninguém avança. O arquitecto Siza Vieira terá dito “Eu não posso concorrer?!”

Há algum projecto que considerem especial?

Miguel – Eu tenho um, que é o projecto de uma adega que foi construída no Alentejo. Sempre achei que era um edifício que nunca tinha sido visto ou nunca tinha sido amado, até haver um fotógrafo que fez um trabalho com ele e o retorno tem sido enorme. Considero-o importante por ser um edifício industrial, que normalmente é um tipo de edifício que tem de ter uma contenção de custos muito grande porque tem de ser funcional. Neste caso, decidimos revesti-lo de cortiça e o resultado foi um projecto de arquitectura de que gosto muito. Como é um material natural, evolui, era castanho e agora está cinzento.

Carlos – Eu gostei particularmente do projecto de uma creche, que ficou na gaveta. Era para ser construído num jardim em Cascais, foi um concurso que ganhámos, a Câmara de Cascais pagou-nos tudo mas acabou por não ir para a frente, não sei bem porquê. O jardim era uma jóia e o projecto é, ainda hoje, actual, e essa é uma característica que gostamos na arquitectura.

O que é que gostavam de fazer que ainda não tiveram hipótese?

Miguel – Gostava de fazer um museu. Porque me daria a possibilidade de fazer uma coisa para ser vivida por muita gente. É um espaço cuja ocupação vai mudando e tem de ser desenhado a pensar que vai ser visitado por pessoas de todas as características. E desenhar um espaço cuja função é dar destaque a outras coisas é uma espécie subversão da arquitectura, porque o edifício não se deve destacar demasiado, não pode haver um excesso de arquitectura, não é esse o intuito do museu.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #31, de Maio de 2012

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