01.06.2012

À conversa com Arq.º Jorge Silva

01.06.2012

À conversa com Arq.º Jorge Silva

‘Atribuo à arquitectura a função de intervenção social e responsabilidade pública, não é um ato só entre arquitecto e proprietário, tem de dar resposta à cidade’

Como foi criar um atelier de arquitectura na época instável que sucedeu ao 25 de Abril?

O atelier foi criado numa altura em que tive a consciência de que muito havia a fazer no campo da arquitectura e do urbanismo em Portugal. A minha experiência nos Gabinetes de Apoio Técnico, que colocavam os arquitectos no interior do país, deu-me noção dos grandes problemas que existiam. Portanto, o atelier foi criado muito à medida daquilo que sabíamos que eram as necessidades reais, desde o planeamento, ao urbanismo, à comunicação…
Conhecendo muito bem esses problemas sociais e culturais, o processo urbano pouco desenvolvido e as construções clandestinas, quando começámos a trabalhar fomos atraídos para tentar resolver problemas de crescimento urbano e isso motivou-nos e levou-nos a estudar e a desenvolver metodologias para saber qual a melhor forma de intervir. Desde a criação do atelier que temos vindo a trabalhar nessa área e especializámo-nos. Esse tornou-se o nosso maior contributo para a arquitectura e para o país.

Com que recursos é que a Oficina de Arquitectura desenvolvia projectos em 1980, quando foi criada? E quais os avanços tecnológicos que mais contribuíram para o desenvolvimento do atelier?

Nessa altura, para montar o atelier, éramos quatro sócios e mais um ou dois arquitectos, e precisámos de cadeiras e estiradores, réguas e esquadros, candeeiros e papel vegetal, depois máquinas de desenho e uma máquina de fazer cópias heliográficas. Com isso fazia-se arquitectura.

Hoje não se faz arquitectura sem um computador…

Se for preciso faz-se, enquanto houver pessoas que, como eu, têm essa experiência. Mas os arquitectos de hoje têm uma forma de trabalhar completamente diferente, não digo que seja melhor ou pior mas, para mim, a arquitectura faz-se com papel e lápis. Sou capaz de pegar num qualquer desenho e saber em que escala está e quem trabalha só com computador não é capaz porque perde a noção de dimensão. Outra diferença é a forma de reprodução dos desenhos. Na altura utilizávamos o papel vegetal, que era um documento único porque as fotocópias eram quase um luxo. Depois há a questão da transmissão da informação. Hoje temos o e-mail e quando o atelier foi criado ainda nem sequer havia fax, tínhamos de enviar os desenhos por carta. Tudo isto se traduziu noutra forma de trabalhar, como em qualquer profissão.

Como é que define o atelier e a sua forma de pensar e fazer arquitectura?

Eu sempre atribuí à arquitectura a função de intervenção social. Considero que tem uma responsabilidade pública porque não é um ato que se resolva só entre o arquitecto e o proprietário. Tem de dar uma resposta à cidade. A arquitectura não são os projectos de excepção, é com os que não se destacam tanto que se resolvem os detalhes entre o espaço público e o privado. E a nossa linha tem muito a ver com este interesse público da arquitectura, o de formar cidade de qualidade. Uma arquitectura de princípios, calma, não de excessos e de evidências.

O arq. Jorge Silva teve vários cargos “políticos” ligados à arquitectura. É importante ter uma participação activa do lado das decisões?

É muito importante, e acho que os arquitectos, durante muito tempo, se demitiram de ter uma função social, tanto enquanto políticos ou gestores autárquicos, como nas entidades capazes de influenciar as políticas que têm a ver com a arquitectura. Em Portugal, nunca foi definida claramente uma política de arquitectura e os arquitectos sempre se abstiveram um pouco de participar nessa questão. Deixaram-se acantonar na procura da expressão da sua obra de arte, o que é legítimo, mas muitas vezes não cuidando de a enquadrar numa resposta global à vida da cidade. Eu tentei influenciar, do ponto de vista dos princípios que defendo, o papel do arquitecto na sociedade. Nunca me demiti de ser arquitecto, mesmo quando exerci esses cargos. Penso que até fui mais arquitecto em alguns desses casos.

Considera que temos vindo a salvaguardar ou a destruir o património arquitectónico?

O conceito de património arquitectónico não está consolidado o suficiente para termos a noção do que é que deve ser preservado, mantido ou alterado. Penso que isso se deve a um enfoque que parte do património para a cidade em vez do contrário. Se partirmos do existente, e lhe dermos o adequado uso, estamos a valorizar património. Se partirmos do património, porque lhe reconhecemos um valor histórico, mas o impomos à margem das existências, estamos a matar património. E temos morto muito património porque não soubemos dar-lhe capacidade de responder à cidade. Todos nós identificamos edifícios que foram destruídos ou desestruturados por ausência de uma visão integradora do património, por não conseguirmos, em tempo útil, retomar os usos dos edifícios, ou dar-lhes novos usos. Critica-se o exército porque utilizou muito património para fazer quartéis… mas eu pergunto: se não tivesse sido encontrado um uso para aqueles edifícios, existiriam ainda? E em que estado?

Se pudesse tomar uma decisão vinculativa para mudar alguma coisa nas questões que regem a arquitectura em Portugal, o que é que mudaria?

A arquitectura está a viver momentos difíceis, por força da conjuntura, mas acho que isso se deve, ainda mais, ao facto de ser posta no mesmo patamar de concorrência, em termos de serviços, que o fornecimento de cadernos… Estabeleceu-se que o concurso para os projectos de arquitectura se faz no patamar do preço e do prazo e não da qualidade. Isso torna a arquitectura impossível. Estão a ser destruídas muitas possibilidades de se construir uma arquitectura capaz e estamos a desvalorizar a formação dos arquitectos e a transformá-los em prestadores de serviços nas piores condições. É muito importante, para a arquitectura e para o país, que esta situação seja transformada. A arquitectura não deve estar totalmente subordinada à ditadura da economia de mercado ou da própria administração, que impõe regras que não valorizam a produção de qualidade. Esse seria um dos assuntos que eu teria de alterar profundamente.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #32, de Junho de 2012

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