01.11.2022

À conversa com Arqº Carlos Ribas

01.11.2022

À conversa com Arqº Carlos Ribas

'Os princípios da sustentabilidade são os da arquitetura paisagista desde sempre [...] A circunstância nacional de termos profissões “especialísticas” que nada compreendem de território faz com que tenhamos uma crescente desumanização da paisagem e uma dinâmica muito forte de insustentabilidade'

Fale-nos do seu percurso académico e profissional e do porquê da escolha da Arquitetura Paisagista.

O meu percurso é de grande simplicidade. A escolha foi motivada pela vontade de intervir no território, construir a paisagem (com obra), em vez de estudar-observar-descrever-interpretar sem a ação pragmática consequente. Confesso que, também, pelo fascínio que sentia (e ainda sinto) pelo Instituto Superior de Agronomia e pela Tapada da Ajuda. O curso de arquitetura paisagista, que este ano celebra 80 anos, estava naquele momento a sofrer uma transformação profunda, com a reestruturação do plano de estudos e a não renovação dos contratos com os velhos mestres paisagistas. Estar no meio desta mudança foi turbulento mas contornámos a deceção com o trabalho em atelier (a partir do 3º ano). Esse, na Proap, com o João Nunes, foi a minha verdadeira formação académica e profissional. Prossegui todos os passos da minha carreira na Proap, da qual fui sócio-gerente entre 2001 e 2014, até à minha saída em 2015. Desde aí voltei a dedicar-me ao mercado nacional e ao trabalho de projeto de arquitetura paisagista, em todos os seus âmbitos e escalas – da obra pública aos clientes particulares; do micro-pátio à intervenção de escala territorial. Trabalhar a todas as escalas e a relação entre elas são linhas basilares da arquitetura paisagista.

Qual a sua definição de arquitetura e arquiteto paisagista?

É a arquitetura do espaço exterior na sua total abrangência, da intervenção sistémica no espaço físico com a consciência técnico-científica e cultural de todas as variáveis em equação e, desde a sua origem, com uma missão marcadamente humanista e uma abordagem ecologista “antes de tempo”. Os princípios da sustentabilidade, agora universalmente enunciados por todos, são os princípios da arquitetura paisagista desde sempre. Quando falo da profissão mostro uma imagem de um homem primitivo com sendo o primeiro arquiteto paisagista: a leitura do espaço natural para a escolha do sítio para o assentamento, garantindo segurança e conforto, disponibilidade de água e alimento, e o que seria já uma sensibilidade não percebida para sentir a beleza dos lugares, era um trabalho de arquiteto paisagista. Nalguns países o arquiteto paisagista intervém a montante de qualquer processo de transformação para estudar o sítio e determinar a forma de ocupação. A ausência desta etapa e a circunstância nacional (crescente) de termos profissões “especialísticas” que nada compreendem de território faz com que tenhamos uma, também crescente, desumanização da paisagem e uma dinâmica muito forte de insustentabilidade. Ser arquiteto paisagista é um dos melhores trabalhos do mundo, pela contínua descoberta de novos sítios e sementeira progressiva de obras que são muito relevantes para quem as usa. É um dos piores trabalhos quando nos confrontamos com situações de ostensiva desconsideração institucional (é muito frequente um eleito decidir, unilateralmente e em obra, por alterações ou supressões como se fosse coisa perfeitamente natural) e navegamos num ambiente de fraca valorização do projeto de arquitetura paisagista.

Participou em alguns projetos marcantes e numa conferência sobre a importância da água no design. Quer falar de alguns desafios?

Destacaria a EXPO’98 porque foi um processo nacional, com uma exigência verdadeiramente internacional e, por isso, um enorme desafio, uma grande oportunidade de aprendizagem e um sentimento de orgulho coletivo. Participar foi uma experiência insubstituível. A Proap fez o concurso para o projeto do Parque do Tejo e Trancão, um parque metropolitano, ribeirinho, em associação com um grande atelier californiano, Hargreaves Associates. Da vitória no concurso resultou um projeto de enorme complexidade e, para nós, absolutas novidades. A minha participação na conferência acabou por incidir na discussão do Plano Geral de Drenagem de Lisboa. Falei de múltiplas intervenções concertadas como a construção de bacias de retenção, a transformação de coberturas planas em coberturas verdes, a intervenção nas superfícies dos arruamentos e praças no sentido de as tornar capazes de reter caudal, em vez de repelir rapidamente a precipitação, etc. Na gestão da cidade a água tem de aparecer como gerador/orientador do “desenho” e as diretrizes para intervenções pontuais devem corresponderem a objetivos estratégicos da grande escala. A resolução das cheias em Lisboa terá de passar por um Plano Geral da Água de Lisboa, a integração estratégica de “águas” e “esgotos”, que o mestre paisagista Gonçalo Ribeiro Telles defendeu durante décadas.

Tem lecionado em algumas universidades. O que ganha com o ensino? E o que pretende para o futuro?

O ensino obriga-nos sempre a estudar mais, a questionar sistematicamente o que fizemos, a procurar sustentar, sem ambiguidades, aquilo que afirmativamente procuramos ensinar, a sermos confrontados com raciocínios e espontaneidades que são, efetivamente, “limpos” e, muitas vezes, surpreendentes. Por isso, quando nos dedicamos verdadeiramente a essas oportunidades de ensinar, saímos delas, sempre, melhores técnicos e melhores pessoas. Tenho muitos objetivos bem definidos mas digo só que um deles é o de poder continuar a colaborar com os meus amigos da BETAR.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #146, de Novembro de 2022 

Notícias & Entrevistas

01.02.2022

À conversa com Marko Rosalline

'O design está ligado à personalidade, à voz, à definição daquilo que constitui e define uma marca. [...] Passa pelo equilíbrio de todas as ideias intangíveis associadas ao projeto, e pela forma como estas se compõem e existem no output [...] para atingir o máximo impacto, relevância e intemporalidade' Ler mais

01.03.2022

À conversa com Arq.º Paulo Perloiro

'A profissão de arquiteto começou no dia do primeiro trabalho da faculdade [...] O atelier era um lugar de convívio intelectual e de discussão... durante alguns anos, foi uma espécie de internato de arquitetura... uma casa-atelier' Ler mais

01.03.2021

À conversa com Arq.º Dunga Rebelo

'Trabalhar em Moçambique é estar envolvido em projectos estruturantes e poder ter impacto no desenvolvimento do país. As oportunidades mudam constantemente, obrigam a uma transformação, o que é muito aliciante' Ler mais

Topo

Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência de navegação. Ao continuar a aceder a este website está a concordar com a utilização das mesmas. Para mais informações veja a nossa política de cookies.

Portugal 2020 / Compete 2020 / União Europeia - Fundo Europeu do Desenvolvimento Regional