01.02.2013

À conversa com Arq.ª Catarina Sousa e Arq.º Gilberto Oliveira

01.02.2013

À conversa com Arq.ª Catarina Sousa e Arq.º Gilberto Oliveira

‘Com a redução demográfica a que estamos a assistir, o que não é sustentável é a dimensão do território construído. Há centenas de milhar de edifícios vazios em Portugal e vamos perder quase 10% da população.’

Ambos iniciaram a actividade profissional no Atelier do Chiado. Como surgiu a ideia de se juntarem para formar um atelier próprio?

Arq. Gilberto – Conhecemo-nos na faculdade e reencontrámo-nos no Atelier do Chiado onde trabalhámos com os arquitectos Cristina Salvador e Fernando Bagulho. Neste atelier, onde estavam também outros colegas da nossa geração, tivemos oportunidade de trabalhar numa equipa que funcionava muito bem, correspondendo a um extraordinário período de experimentação e aprendizagem. Foi um tempo fantástico onde se ganharam concursos e se puderam fazer propostas muito estimulantes. A saída deste atelier correspondeu a uma vontade de criar a nossa própria estrutura, um processo natural de amadurecimento entre os arquitectos. O nome CAL proposto pela Catarina sugeria a ideia de nos constituirmos como Cooperativa de Arquitectos de Lisboa. Alguns anos mais tarde voltámos a colaborar pontualmente com o Atelier do Chiado nos seus projectos, em parcerias que nos dão a possibilidade de alargar o nosso campo de trabalho.

A sustentabilidade é uma das vossas maiores preocupações. É absolutamente fundamental hoje?

Arq. Gilberto – A sustentabilidade é e tem sido absolutamente fundamental no arco temporal de milhares de anos que nos trouxe aqui. A transformação da natureza em artifício sempre foi relativamente sustentável até à aceleração do tempo no século XX. Por exemplo, olhando para Portugal agora, com a redução demográfica a que estamos a assistir, os problemas de sustentabilidade irão ser outros: o que não é sustentável é a dimensão do território construído. Tem de haver racionalidade sobre a operação de transformar. Neste momento coloca-se o problema de como renaturalizar os territórios que vão deixar de ter quem os ocupe.

Os problemas económicos actuais podem trazer algo positivo neste sentido, como a recuperação de edifícios em vez de construção nova, e a poupança energética e de recursos?

Arq. Gilberto – Sim, teremos que ser mais pragmáticos como sociedade. Há centenas de milhar de edifícios vazios em Portugal e vamos perder quase 10 % da população em 2 ou 3 décadas, o que ainda agravará mais a situação. Isto pode ser trágico. Esta crise brutal e que é estrutural mas não vai pôr em causa, imediatamente, o nosso modelo de sociedade. Daqui a 20 anos as pessoas ainda virão de Loures a Lisboa de carro porque a dispersão da cidade é tão grande que não é viável os transportes públicos chegarem a todo o lado. A concentração de população não é em si uma coisa boa, mas a dispersão é em si uma coisa má. Nesse sentido, com esta crise, é imperativo pensar-se na reorganização do território, salvar o que ainda é salvável e transformar o que é desperdício em coisa útil. Não devemos continuar a expandir as cidades pequenas ou grandes. É uma questão de planeamento sustentável. Esta nossa mega cidade, de Setúbal a Torres Vedras, está mal resolvida. O tecido urbano é gigantesco e disperso… talvez pudéssemos viver melhor concentrados em cidades e deixando os campos para plantar alfaces…

E é caro ter uma atitude sustentável?

Arq. Catarina – Uma boa construção normalmente é mais cara mas também é possível gastar muito dinheiro em coisas que não contribuem em nada para a boa construção. O nosso trabalho passa muito pela gestão dos recursos financeiros disponíveis e estamos sempre a confrontar-nos com opções de projecto que têm de ser pesadas… por exemplo, não faz sentido utilizarmos materiais de revestimento caríssimos e negligenciar a qualidade das caixilharias e a sua eficiência.

Arq. Gilberto – Olhemos para o património maravilhoso que já se acumulou. Por exemplo, estes edifícios da Baixa ou do Chiado que resistem há mais de 200 anos sem um input tecnológico que os transforme radicalmente, edifícios que resistiram aos agentes naturais e ao uso, que tiveram capacidade de ser resilientes. Ou ainda aqui a Rua Garrett que permanece a mesma rua bem orientada… Existe um equilíbrio natural garantido com os meios disponíveis à data e que se perpetua. Os Romanos, quando ocuparam Lisboa, tiveram em conta as exposições solares, os ventos e os declives na ocupação dos seus arrabaldes… um bairro muito bom ergue-se por norma sobre uma natureza generosa. São estes saberes que ainda nos inquietam quando construímos.

Arq. Catarina – Preocupamo-nos com a ideia de que o edifício tem de resistir ao tempo em termos materiais, funcionais e também estéticos e emocionais. É importante perceber como é que as pessoas vão olhar para os edifícios ao longo do tempo. Pensar se daqui a 10 anos ainda vamos estar confortáveis naquela casa ou, se for necessário vender, se terá mercado. O património construído resiste para além do seu proprietário…

Por altura do 10º aniversário do atelier lançaram a iniciativa “Arquitectura para todos”. De onde partiu esta ideia de promover oficinas de carácter pedagógico?

Arq. Catarina – Entendemos que qualquer profissional deve ter a preocupação de transmitir o seu saber. Nesse sentido, considerámos que um conjunto de oficinas dirigidas aos mais novos podia ser uma experiência interessante e gratificante. Uma pessoa que conhece o seu ecossistema é uma pessoa mais capaz de decidir sobre o que lhe diz respeito. Saber escolher o sítio para viver é fundamental, saber como a casa deve estar orientada é muito importante. Por exemplo, chegado o momento da escolha de uma casa, o critério para a compra não pode ser apenas o ser nova… aliás, uma casa antiga já mostrou do que é capaz e, por norma, tem uma situação geográfica mais favorável, terá ocupado o melhor terreno…

Como é trabalhar com a BETAR?

Arq. Catarina – A BETAR tem sido o principal parceiro no desenvolvimento dos projectos do atelier. Temos aprendido muito com os nossos amigos engenheiros… Trazem-nos sempre um saber novo e muito profissional. Sem este trabalho de equipa não seria possível a concretização de muitas das ideias que perseguimos.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #39, de Fevereiro de 2013

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