01.04.2022

À conversa com os Arqs. Mário Serrano e Margarida Fonseca

01.04.2022

À conversa com os Arqs. Mário Serrano e Margarida Fonseca

'Procuramos oferecer uma resposta pragmática [...] mas poética. A poética é aquilo que é supérfluo, mas também o que eleva a mera construção a arte! Esperamos vir a construir arquitetura com “A” grande'

Mário Serrano e Margarida Fonseca cruzaram-se no 1º ano da faculdade, depois estagiaram em ateliers diferentes. O que retiraram dessas “escolas”?

Fizemos o mesmo percurso académico. Após a faculdade, o Mário foi estagiar para o atelier do Francisco Aires Mateus e a Margarida para o atelier do Pedro Sousa. Apesar de trabalharem em ateliers diferentes, a “escola” era a mesma, a do arquiteto Gonçalo Byrne, cuja influência nos métodos de trabalho destes, era inegável. Começar a trabalhar em ateliers ajudou-nos a perceber a verdadeira consequência daquilo que desenhávamos e os diferentes níveis de comunicação pelo desenho: comunicar para um concurso é completamente diferente de comunicar para um cliente investidor ou para uma Câmara.

Entre 2013 e 2018 tiveram experiências internacionais em Zurique. Quais as principais diferenças?

Termos tido a possibilidade de trabalhar fora do país foi crucial para o nosso crescimento profissional. Em Zurique procurávamos, e conseguimos, envolver-nos e aprender com a grande escala e em estruturas empresariais de grande dimensão. Tivemos a possibilidade de desenhar coisas que não conseguiríamos fazer noutro contexto. Estivemos envolvidos no projeto e obra do edifício de habitação coletiva multi-geracional de 250 apartamentos, em Letzibach (Margarida nos Gut & Schoep Architekten) e a sede do banco UBS na Bahnofstrasse (Mário nos EM2N Architekten), ambos em Zurique. Genericamente falando, a arquitetura Suíça é incrível do ponto de vista técnico e da execução, tendo sido essa a nossa grande aprendizagem; do ponto de vista conceptual, não inventa a roda. O equilíbrio será algo a meio caminho.

O arq. Mário escreveu artigos de opinião para a revista online Exquisite, e para a Arq/a. Como se sentiu enquanto crítico de arquitetura?

Sempre gostei de escrever e o facto de estar fora do país ajudou a sentir-me livre para criticar ou elogiar sem ter de prestar vassalagem a ninguém. Nacionalmente, sinto que temos um problema grave de relação com a crítica. Saber elaborar um pensamento crítico é fundamental e devia ser motivado, desde cedo, no ensino.

Participaram no concurso para o novo Pólo de Saúde de Carcavelos, em co-autoria com outros 2 arquitetos. E venceram o 1º prémio! Querem comentar?

Sempre fizemos concursos com amigos e colegas. É sempre bom para testar parcerias, confrontar pontos de vista diferentes e encontrar consensos. Desenhar a 4 mãos não é fácil, mas é possível, claro. Foi um processo longo e burocrático. Ao todo, será um processo de 5 anos até ao fim da obra, estimada para Março de 2023. Estamos em crer que irá ficar uma obra muito interessante, do ponto de vista arquitetónico e da população que irá usar o edifício. Estamos ansiosos para a ver concluída, principalmente como irão resultar as palas orgânicas e o jardim, que são elementos chave. Todo o processo tem sido uma aprendizagem enorme, principalmente por estarmos na frente de todos os assuntos, desde os primeiros esquissos até à obra que está agora a decorrer.

Em 2018 fundaram o atelier DUOMA, em Lisboa. Era uma parceria óbvia? Querem comentar a vossa frase de que o “DUOMA representa a poética do pragmatismo na arquitetura”?

Sempre foi uma parceria evidente. Para além de parceiros no trabalho somos parceiros na vida, e isso gera cumplicidade. O universo de referências é similar, o que torna o processo criativo muito fluido e orgânico.A nossa identidade vai-se construindo, em função dos trabalhos e oportunidades que aparecem.Procuramos sempre atingir uma certa simplicidade dos conceitos, onde somos capazes de explicar os nossos projetos numa frase ou num princípio organizacional, muito racional e pragmático. Sobre a nossa máxima, os clientes que chegam até nós procuram alguém que lhes resolva um problema prático, não nos procuram pelo nome ou currículo, e muito menos pelo cunho artístico.Por isso, a nossa postura é a de oferecer uma resposta altamente pragmática a um problema concreto. Mas acreditamos que, se esta resolução for formulada da forma certa, a resposta consegue ser poética, ou até sublime. A poética é aquilo que é supérfluo, mas é também aquilo que eleva a mera construção a arte! Esperamos vir a construir arquitetura com “A” grande, e acrescentar mais uma “layer” na evolução da profissão.

Qual a vossa opinião sobre o estado da arquitetura contemporânea, a legislação e a sustentabilidade?

É com enorme prazer que vemos colegas nossos a explorar novos materiais, formas e cores, sem grande preconceito de romper com o estabelecido. É o emergir de uma nova geração que irá trazer novas formas de pensamento e de projetar, uma geração com experiência fora e sem a figura tutelar, que definiu as práticas de outros tempos. A legislação é anedótica, pouco clara e por vezes contraditória. A Ordem deveria tentar tornar o licenciamento num processo simples, claro e transparente; submetido on-line; e acessível para consulta a qualquer pessoa. A sustentabilidade preocupa-nos. É preciso criar formas de construção alternativas. Não basta forrar a painéis solares e a coberturas verdes para parecer mais “eco-green-friendly”. Sustentabilidade é também reaproveitar o património construído, destruí-lo quando necessário, e construir de forma durável e adaptável a novas possibilidades de ocupação.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #140, de Abril de 2022 

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