01.04.2026

À conversa com Arqº Pedro Appleton

01.04.2026

À conversa com Arqº Pedro Appleton

'Quando temos a possibilidade de desenhar podemos fazê-lo com algumas ‘chaves’, mais do que ‘chavões”, como o da ‘inclusão’ ou a ‘sustentabilidade’. A oportunidade de desenhar um espaço ou um uso que seja uma boa experiência para todos, acaba por ser um aspeto intrínseco ao pensamento'

Por forma a conhecê-lo melhor, fale-nos um pouco do seu percurso. Como começou o interesse pela arquitetura?

Não me consigo lembrar bem, mas quando era pequeno gostava muito de montar as brincadeiras – o lego, o comboio elétrico, uma quinta que o meu pai nos fez – depois perdia o interesse em brincar, gostava mais de montar…e destruir para montar outra vez, diferente.

Venho de uma família de engenheiros, mas sempre me interessou mais a arquitetura. Cedo, no liceu, fui optando por essa área e fiquei especialmente marcado pela história de arte. Havia ainda amigos que mandavam vir umas revistas de Londres com tendências de música, moda, design e arquitetura que folheávamos avidamente – aquilo sim, interessava-me muito.

Colaborou em alguns escritórios de design antes de se juntar ao PROMONTÓRIO. Pode falar um pouco dessas experiências e influências?

Aprendia-se na prática com os mestres nos ateliers, experimentei poucos. As influências, já é um assunto mais complexo e até misterioso. Antes ainda da faculdade de arquitetura, tinha estado interessado e trabalhei em cinema, do qual guardo a ilusão do espaço e o artifício da luz. Depois fiz layouts de bombas de gasolina para a ESSO, numas férias didáticas e muito práticas que organizavam. No meio do primeiro ano de faculdade, uma professora amiga encaminhou-me para ajudar no atelier do Luís Casal Ribeiro, onde conheci o Miguel Passos Almeida e o Miguel Aresta Branco, fazia de tudo um pouco – cópias heliográficas, desenhos à mão muito raspados com lâminas Gillette, depois interrompi. Mais tarde comecei no Promontório a fazer um concurso, fui ficando, voltei a interromper, fiz com uns amigos um atelier no Príncipe Real, sobretudo para terminarmos o curso…e depois voltei para o Promontório, onde temos feito tudo.

Atualmente tem-se dedicado ao design para pessoas com necessidades especiais e a estratégias de design ambiental. Fale-nos dessas áreas pelas quais tem particular interesse.

Interesse, necessidade ou responsabilidade, não sei bem. Quando temos a possibilidade de desenhar podemos fazê-lo com algumas “chaves”, mais do que “chavões”, como o da “inclusão” ou a “sustentabilidade”. A oportunidade de desenhar um espaço ou um uso que seja uma boa experiência para todos, acaba por ser um aspeto intrínseco ao pensamento. Como, pelo contrário, contornar a questão dos recursos, da adequação dos meios ou da vida longa dos edifícios, também não me parecem caminhos em boa consciência.

Como define a forma de pensar e fazer arquitetura no PROMONTÓRIO? Quais os princípios que estão na base do vosso trabalho? O que é que procuram em cada projeto?

Procuramos fazer cidades, edifícios e espaços excecionais baseados na ideia de significado, robustez e durabilidade. Para nós a linguagem dos edifícios não se dissocia da linguagem da construção que o sustenta, lhe dá expressão e perdura no tempo – qualquer uso pede estes princípios e a eles se conforma – por isso a natureza dos materiais é muito importante, na sua função como na sua expressão, e valida a coexistência num lugar.

Que momentos destacaria da atividade do PROMONTÓRIO ao longo da sua existência?

O atelier teve três momentos importantes: um primeiro, onde desenvolveu muitos projetos de habitação e habitação cooperativa. Aprendemos a dar muita importância ao controlo de custos e da qualidade da construção; um segundo momento, onde desenvolvemos e criámos princípios para o desenvolvimento de grandes centros comerciais. Aqui começou-se a desenhar a ambição de sermos um atelier internacional e termos procedimentos como os que reconhecíamos no mundo dos ateliers anglo-saxónicos, com quem trabalhámos muito. Um terceiro momento, que coincide também com a nossa internacionalização efetiva, em que desenhámos hotéis e resorts, grandes planos para usos mistos, para os quais agregámos à nossa equipa uma forte componente de paisagistas, designers de Interiores, gráficos e imagem. Ao longo desta história fomos sempre participando em concursos e fazendo edifícios especiais como aquários, museus, escolas, universidades, e implementando um projeto de qualidade na prestação de serviços e organização interna.

O que é que espera para o futuro do atelier? Existe algum desafio que gostassem de experimentar?

A atividade de um arquiteto está sempre focada no próximo projeto. A ambição é sobretudo em relação ao conhecimento e aquilo que podemos proporcionar nesse âmbito: qualquer programa, contexto ou problema fá-lo percorrer um tema em profundidade e especialização. Ambiciono que o atelier foque o seu talento, os seus conhecimentos e o seu trabalho a enfrentar cada desafio com a integridade exigida neste processo, cumprindo o que distingue o Promontório no panorama da arquitetura.

Esta entrevista é parte integrante da revista Artes&Letras #187, de abril de 2026

Notícias & Entrevistas

01.11.2022

À conversa com Arqº Carlos Ribas

'Os princípios da sustentabilidade são os da arquitetura paisagista desde sempre [...] A circunstância nacional de termos profissões “especialísticas” que nada compreendem de território faz com que tenhamos uma crescente desumanização da paisagem e uma dinâmica muito forte de insustentabilidade' Ler mais

01.06.2025

À conversa com o Arq. Paulo Martins Barata

'Sempre entendi como essencial uma dimensão crítica e reflexiva (...) A arquitetura só tem relevância para a história se tiver um propósito crítico de transformação da sociedade, da cidade e da paisagem' Ler mais

01.06.2012

À conversa com Arq.º Jorge Silva

‘Atribuo à arquitectura a função de intervenção social e responsabilidade pública, não é um ato só entre arquitecto e proprietário, tem de dar resposta à cidade’ Ler mais

Topo

Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência de navegação. Ao continuar a aceder a este website está a concordar com a utilização das mesmas. Para mais informações veja a nossa política de cookies.

Portugal 2020 / Compete 2020 / União Europeia - Fundo Europeu do Desenvolvimento Regional