À conversa com Armando Martins
À conversa com Armando Martins
'A aposta em jovens artistas é muito importante porque o caminho inicial é difícil. (…) Acho que tudo o que se fizer pela arte (…) é sempre positivo. Este tipo de iniciativas da Betar pode ajudar os artistas a seguir um percurso mais a sério'
Para quem não teve oportunidade de ler a entrevista que a Artes&Letras lhe fez no âmbito da inauguração do Museu MACAM, explique-nos como começou esta sua paixão pela arte contemporânea?
Teve início há 52 anos. Comecei por comprar serigrafias, sobretudo do Manuel Cargaleiro. Quando fiz 25 anos, comprei o meu primeiro original, uma peça do Rogério Ribeiro. Durante vários anos comprei essencialmente século XX português, por razões financeiras e porque havia poucas obras de artistas internacionais, e foi a partir dai que comecei a constituir a coleção, sem uma orientação do que iria fazer com o que estava a adquirir. Em 1988 fiz, com dois amigos, uma exposição em Penamacor. Contávamos que aparecessem 20, 50 pessoas, tinha sido divulgado só numa rádio, a Rádio Monsanto, e apareceram mais de 400. Foi surpreendente.
Foi a partir daí que percebeu que podia fazer algo mais com a coleção?
Sim, aquela exposição foi o rastilho. A partir dos anos 90 abri a coleção aos internacionais, adquiri obras maiores, entrei noutros temas, como a fotografia, e mais tarde o vídeo. Comecei a concretizar a ideia de que teria de abrir um espaço ao público em 2003. Ganhei um concurso para um espaço no Cais do Sodré mas depois, por questões políticas, acabei por perdê-lo. Por um lado, ainda bem, porque acabei por adquirir, em 2006, o palácio onde agora está instalado o MACAM. O projeto demorou a avançar por causa da crise financeira do subprime; as obras começaram em 2018, e, entretanto, veio a Covid… Inaugurámos, finalmente, no dia 21 de março de 2025 e, até agora, tivemos mais de 80 mil visitantes. Entretanto, já recebi a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique e a Medalha de Mérito Cultural, que muito me honram; e o Museu recebeu o Prémio Vilalva, da Gulbenkian. Estamos muito satisfeitos com o trabalho feito e muito agradecidos a quem nos tem visitado e reconhecido. Agora gostava de repetir tudo isto no Palácio Correio Mor, talvez mais aberto a circuitos de escultura, para aproveitar o espaço da propriedade.
É fácil expor em Portugal? Considera que os jovens artistas têm o apoio que precisam para iniciar o seu percurso?
Para os colecionadores é difícil expor em Portugal. Eu senti dificuldade em expor a coleção antes de ter o museu, as condições para o empréstimo de peças nunca se afiguraram as melhores. Por isso, aqui no MACAM, temos um espaço só para coleções externas. Em relação aos jovens artistas, infelizmente, o artista tem de se entregar a uma galeria para conseguir ser promovido e mesmo para ir afinando a qualidade, porque o galerista não só comercializa como também recomenda o caminho a seguir. Existem ainda duas ou três galarias portuguesas que mostram as obras dos seus artistas em feiras internacionais e, para entrarem neste circuito os artistas têm de ir por este caminho, sozinhos muito dificilmente lá vão.
E o que acha deste tipo de iniciativas da BETAR? É importante que outros players se envolvam na promoção da arte de jovens artistas?
Acho ótimo, é um bom começo, uma excelente iniciativa. A aposta em jovens artistas é muito importante porque, como disse, o caminho inicial é difícil. O arquiteto Guilherme Godinho lá saberá como descobre os jovens que apresentam as suas obras na exposição, mas eu acho que tudo o que se fizer pela arte, seja em que grau de grandeza for, é sempre positivo. Este tipo de iniciativas da Betar, que acontece pela segunda vez, pode ajudar os artistas a seguir um percurso mais “a sério”. Há pessoas a visitar, há divulgação, há críticas… é um caminho muito inicial, mas acho que a Betar está a fazer um bom trabalho. Na edição passada, eu entrei na sala e vi logo que havia ali potencial. Não tive dúvidas em relação ao que se destacava. E este ano é, certamente, o que vai acontecer, vou ver o que estiver exposto e perceber onde pode haver caminho, ou não. Ser júri não é fácil, é um trabalho muito delicado, mas necessário, e o meu espírito será este: quando estivermos na exposição, vou ver os trabalhos que me parecerem poder a vir a ter um caminho, assim depois os artistas o queiram seguir. Portanto, uma exposição deste género, que promove o trabalho de artistas em início de carreira, pode, de facto, ser um impulso importante no seu percurso. E eu até recomendaria ao meu amigo Tiago que a Betar constitua uma coleção. A ligação da empresa às artes é conhecida, portanto, a Betar já podia pensar em constituir uma coleção, quem sabe ainda a tempo de a expormos aqui no MACAM.
Esta entrevista é parte integrante da revista Artes&Letras #188, de maio de 2026
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