01.06.2026

À conversa com Guilherme Godinho

01.06.2026

À conversa com Guilherme Godinho

'A diversidade foi um dos aspetos mais importantes desta exposição. (…) trouxe uma grande riqueza de linguagens e sensibilidades. (…) Os artistas jovens trazem uma energia, uma liberdade e uma verdade muito contagiantes'

Depois de ter sido o curador da primeira Exposição Jovens Artistas, organizada pela Betar em 2023, voltou a ser desafiado para escolher 15 jovens artistas para participarem no Prémio José Mendonça. Como foi o processo de seleção dos artistas?

Mantivemos os critérios essenciais: selecionar 15 jovens pintores portugueses com menos de 33 anos, mas procurámos agora artistas com um grau de maior maturidade e experiência expositiva. O processo de escolha partiu de uma lista alargada de cerca de 40 a 45 artistas, complementada pelas sugestões de colecionadores, artistas, curadores e galeristas. Aos poucos, foram-se destacando nomes que apareciam recorrentemente nessas conversas, até chegarmos aos 15 artistas finais apresentados no Grémio Literário. Esta maturidade refletiu-se claramente na qualidade da exposição, algo reconhecido tanto pelo público como pelo júri e até pelos participantes da primeira edição presentes.

Quais as principais diferenças que encontra entre as duas mostras?

A principal diferença desta edição é que, mantendo toda a juventude e energia dos artistas, conseguimos reunir um conjunto mais sólido do ponto de vista técnico, conceptual e formal. Há também uma maior diversidade de linguagens e abordagens, o que vai ao encontro de um dos grandes objetivos desta exposição: apresentar diferentes sensibilidades e diferentes formas de construir a contemporaneidade.

O que é que o entusiasma na descoberta de novos artistas?

O que mais me entusiasma é descobrir novas linguagens, novas técnicas e novas maneiras de olhar o mundo. A arte tem essa capacidade extraordinária de nos surpreender e de nos obrigar a repensar. Os artistas jovens trazem uma energia, uma liberdade e uma verdade muito contagiantes. Existe uma troca permanente, embora eu sinta muitas vezes que recebemos mais do que aquilo que transmitimos. Uma das maiores satisfações é precisamente acompanhar o crescimento e o percurso destes artistas e vê-los afirmarem-se na pintura contemporânea portuguesa.

As obras apresentadas foram muito diferentes entre si. Considera que isso valorizou a exposição?

A diversidade foi um dos aspetos mais importantes desta exposição. Reunimos artistas provenientes de diferentes escolas, cidades e percursos — como a Escola do Porto, Lisboa ou Caldas — o que trouxe uma grande riqueza de linguagens e sensibilidades. Essa pluralidade permitiu construir uma mostra mais abrangente e mais aberta ao público, capaz de dialogar com gostos e formas de colecionismo muito distintos.

Sente que existem preocupações ou temas que marcam esta nova geração de artistas? Encontrou algum padrão nas obras apresentadas?

Curiosamente, não encontrei preocupações comuns nem padrões redundantes entre os artistas. Pelo contrário: as diferenças de formação e de experiência de vida acabaram por gerar uma enorme multiplicidade técnica, estética e conceptual. E isso valoriza profundamente a exposição, porque nos obriga a confrontarmo-nos com diferentes visões e diferentes maneiras de pensar a pintura contemporânea.

Se tivesse de resumir a exposição numa palavra ou imagem, qual seria?

Se tivesse de resumir esta exposição em três palavras (numa é muito difícil) diria: liberdade, diversidade e qualidade.

Talvez sem nomear, há algum artista que considere importante acompanhar daqui para a frente?

Vejo estes 15 artistas quase como 15 filhos ou afilhados. Naturalmente podemos sentir afinidades diferentes com determinadas obras, mas nunca quis assumir o papel de escolher favoritos. Esse papel pertenceu justamente ao júri, composto por profissionais com diferentes sensibilidades e critérios. Julgo que essa separação foi importante para a credibilidade do prémio. Talvez daqui a dez anos possamos perceber com maior clareza quais destes artistas terão conseguido afirmar-se de forma mais consistente no panorama artístico português.

Que perspetivas tem para a residência?

Foi com alegria que recebemos a decisão do júri de selecionar um quinto artista para a residência na Guarda, ultrapassando o previsto inicialmente no regulamento. Creio que isso enriquecerá muito a experiência coletiva. Durante essa semana, os artistas irão trabalhar, conviver e trocar ideias entre si, partilhando referências, experiências e diferentes maneiras de pensar a pintura; dessa convivência poderão nascer estímulos criativos muito interessantes, que se refletirão nas obras apresentadas na Galeria Municipal da Guarda.

Um apontamento final sobre a importância deste tipo de iniciativas…

Todas as iniciativas que contribuam para promover as artes plásticas são profundamente bem-vindas. A Betar e o engenheiro Tiago Mendonça tiveram a coragem de lançar praticamente do zero um prémio e uma exposição que hoje já revelam continuidade e consistência. Isso demonstra um compromisso sério com o apoio à arte contemporânea portuguesa e aos jovens artistas. Estou profundamente convicto de que este projeto continuará a crescer. E acredito que, muito em breve, teremos não apenas uma terceira edição do Prémio José Mendonça Betar, mas também o anúncio da futura Coleção de Arte Betar, que poderá ter um papel muito relevante no apoio à arte contemporânea nacional.

Esta entrevista é parte integrante da revista Artes&Letras #189, de junho de 2026

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