01.10.2023

À conversa com o Arqueólogo Nuno Neto

01.10.2023

À conversa com o Arqueólogo Nuno Neto

'Todo o material que sai do terreno - o espólio - é etiquetado, conforme a camada onde foi encontrado, que é o que permite dar o contexto e as pistas para reconstruir o passado do que estamos a escavar'

Como surgiu o seu interesse pela Arqueologia e depois a Neoépica?

É uma coisa de miúdo, sempre gostei de tudo o que é antigo. Acabei por não seguir essa área, inicialmente, porque não havia saídas profissionais, segui ciências. Era um infeliz. Quando voltei a estudar segui arqueologia. Atualmente já não faço só aquilo que gosto mais, que é ir para o terreno, porque a partir do momento que criei a empresa comecei a ter outras responsabilidades, coordeno as equipas, estou umas horas no terreno, mas depois vou para outro local e para reuniões…, assim como os outros dois sócios, o Paulo Rebelo e a Raquel Santos. Nós éramos colegas na Nova e ficámos amigos. Fundámos a Neoépica em 2005, inicialmente até éramos cinco sócios. Tivemos bastantes dificuldades, no início, mas acabámos por conseguir entrar no mercado nos canais de rega da barragem do Alqueva e a equipa cresceu. Hoje somos uma empresa estável, com um bom leque de clientes.

Como se processa uma intervenção arqueológica?

O nosso trabalho é obrigatório conforme as zonas do PDM. Na cidade de Lisboa existem 3 níveis de sensibilidade arqueológica. Para fazer um trabalho de arqueologia somos obrigados a fazer um pedido à DGPC – Direção Geral do Património Cultural, com elementos de projeto e um plano de trabalhos.
O caderno de campo é essencial numa intervenção arqueológica, toda a informação que recolhemos é registada de forma escrita, em fichas próprias, e fotografada. Depois temos de fazer um relatório, que é muito complexo, tem parte gráfica, registo de cronologias, uma parte descritiva e outra interpretativa. Hoje, a fotogrametria ajuda-nos a fazer os registos de forma mais rigorosa e expedita.
Todo o material que sai do terreno – o espólio – seja cerâmico, vidro, osso… é numerado e etiquetado, conforme a camada onde foi encontrado, que é o que permite dar o contexto e as pistas para reconstruir o passado do que estamos a escavar. Esse material é depois lavado, inventariado e estudado. O que data o estrato é sempre o espólio mais recente, fazemos datações relativas. Existe espólio muito sensível, como o metálico e o osteológico, que temos de acondicionar em locais com luz e humidade controladas. O espólio, neste momento, é um problema, porque somos os fiéis depositários do material que recolhemos até ser entregue aos organismos próprios. Tudo o que temos armazenado só está a aguardar a aprovação do relatório por parte da DGPC, que tem protocolos com autarquias para o receber. Temos material guardado há mais de três anos. No relatório vai evidenciado o material que tem condições de poder ser exposto, mas cerca de 90% fica em reservas.

E quando as peças não podem ser removidas?

Nós aplicamos o Princípio da Conservação pelo Registo. Se é um vestígio importante do ponto de vista científico, mas patrimonialmente não tem relevância que justifique ficar in sito, aplicamos esse princípio legal: anotamos toda a informação possível, através do registo arqueológico, e retiramos o espólio materialmente transportável. Os vestígios que têm um bom estado de conservação, que são raros, ou têm uma cronologia menos comum na cidade, procuramos que fiquem no local. Mas não têm de ficar a descoberto nem visitáveis, têm de ficar protegidos e preservados. Claro que se tiverem interesse e puderem ser integrados no projeto, se houver um projeto de musealização, tanto melhor, mas quando se deixa um vestígio a descoberto temos de pensar na sua manutenção. É muito mais difícil preservar um vestígio visível, porque fica sujeito à ação humana e às condições climatéricas.

Tudo isso tem implicações nos projetos. A BETAR só intervém depois da vossa avaliação…

Trabalhamos sempre em conjunto. Nós fazemos o estudo arqueológico e transmitimos às equipas de arquitetura e projetista. Neste momento, temos um edifício com o Eng. Miguel Villar onde identificámos zonas com maior sensibilidade e ele foi tentar encontrar forma de não as afetar. O objetivo é chegar a um acordo que permita fazer os reforços estruturais necessários protegendo o património, o mais possível. É preciso bom senso. Nem sempre uma coisa é compatível com a outra. Nos edifícios que necessitam de reforço estrutural, como vários em que a BETAR já teve de intervir, às vezes, não é possível manter o azulejo na parede, por exemplo, e temos de mapear, remover, restaurar e voltar a colocar.
A arqueologia não é só de solo, também há arqueologia nas paredes – que nós chamamos de arqueologia da arquitetura – que permite avaliar se aquele edifício encerra em si outras pré-existências. Quando começamos a descascar os revestimentos podemos encontrar um edifício mais antigo engolido pelo outro. Esta é uma atividade que impacta nas equipas de projeto, as dificuldades crescem à medida que encontramos mais vestígios, por isso é fundamental que seja uma equipa experiente, como é o caso da BETAR. Trabalho com o Miguel Villar há vários anos e reconheço-lhe competências para encontrar soluções. E conhecimento, muitas vezes ajuda-nos a perceber como é que o edifício foi evoluindo, e vice-versa. É um trabalho de equipa fundamental.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #157, de Outubro de 2023 

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