01.09.2019

À conversa com Arq.º João Luís Ferreira

01.09.2019

À conversa com Arq.º João Luís Ferreira

O potencial do país é muito superior ao partido que dele se tira. É fundamental atrairmos novos residentes. Que Portugal seja um destino de fixação e não de férias.

Foi um dos primeiros entrevistados da Artes&Letras, em Janeiro de 2012. Passados 7 anos, o que é que mudou no panorama da arquitectura em Portugal?

O mundo não muda assim tão depressa.
A partir de 2013 percebeu-se que a Europa iria preservar o seu bloco político e económico afastando o risco de saída de países como a Grécia ou Portugal; em simultâneo, a Europa descobriu Portugal, descobriu a qualidade do país, a qualidade dos arquitectos, dos engenheiros, dos serviços em geral, e isso criou uma corrente que, associada ao turismo e aos baixos preços do imobiliário e da vida corrente, gerou uma oportunidade de investimento com bastante segurança e margem de progressão. Esses factores determinaram a confiança dos investidores estrangeiros em Portugal e isso conduziu a um aumento de encomenda.

Desde essa altura, o Promontório superou com sucesso uma profunda crise da construção a nível nacional. A internacionalização foi decisiva?

Pela sua dimensão, o Promontório sempre precisou de olhar o mercado global como o seu destino. Houve uma combinação de factores que levaram a uma focagem mais intensa no mercado externo a partir de 2010, mas esse terá sempre de ser o nosso mercado. Gerar actividade num novo destino, conquistar a confiança de novos clientes, procurar e estabelecer parcerias e adaptar-se a todas as condições locais é trabalhoso e exigente e é, por isso, um bem que não se pode depois desperdiçar. Não há razão para uma empresa portuguesa se confinar ao trabalho gerado internamente porque a natureza da nossa actividade apela por essa internacionalização.

O que é que falta para Portugal ser suficiente para a vossa actividade?

Em Portugal temos um problema de honorários que arrasta uma actividade e um grupo profissional para os limites da sobrevivência, quando poderia ser proveitosa, sobretudo, num momento propício e atraente para o investimento estrageiro. Era importante que os arquitectos se valorizassem pelo benefício que a sua acção aporta à actividade do mercado imobiliário. E aqui o Estado poderia e deveria dar um sinal inequívoco não permitindo que a adjudicação de projectos da esfera pública se fizesse pela regra do preço mais baixo e, muito menos, permitir que os descontos, quando há preços de referência, possam chegar, no limite, a metade mais 1 euro. É inaceitável que, se o Estado reconhece que um preço referência está certo, actue como se fosse um privado no mercado livre, e assim, não dê o exemplo desprestigiando e infringindo prejuízos a um grupo profissional. O que se poupa com os arquitectos é benefício directo para os promotores e um prejuízo directo para os arquitectos baixando margens e salários e reduzindo a moral e a relevância do arquitecto.

Vê o investimento estrangeiro em Portugal como uma aposta para se manter por muito tempo, ou é apenas um período especulativo?

Não creio que atravessemos um período especulativo. Até diria que uma certa fase que aproveitou a descoberta do nosso mercado e realizou mais-valias de curto prazo já terá passado. O que verificamos é que, em Lisboa ou no Porto, por exemplo, é necessário encontrar soluções residenciais para os lisboetas ou para os portuenses, e aí há uma aposta do investimento estrangeiro que é consistente e responde a necessidades concretas. No quadro europeu a oferta em Portugal é ainda muito atractiva e ainda somos um país onde há margem de crescimento com baixo risco. O potencial do país é muito superior ao partido que dele se tira. O que me parece fundamental é atrairmos novos residentes que estimulem a competitividade. Que Portugal seja um destino de fixação e não de férias. Seria também importante encontrar soluções para atrair os novos residentes para o interior do país seja através da indústria, do ensino ou de outros focos geradores de centralidades. Portugal tem de perceber que é o centro e não se resignar com a visão habitual de ser uma periferia.

O atelier lançou um livro, realizou uma instalação de arquitectura no CCB… Que resposta têm tido deste tipo de iniciativas?

Têm sido positivas. A instalação no CCB de 2018 foi uma oportunidade de reflectir sobre temas de arquitectura de uma forma, quase diria, lúdica, e trabalhar e investigar essa dimensão lúdica e intelectual directamente, sem outra finalidade que não a de desfrutar ou de recriar-se num espaço. Foi, como disse, uma oportunidade de pôr em evidência o que em muitas obras marcadas por programas e funcionalidades se esconde e às vezes até parece não existir.

Qual é a vossa visão para o futuro do atelier Promontório?

A nossa visão enquanto Promontório, por ser uma partilha de expectativas, assenta numa convicção de que a liberdade individual combinada com a aceitação do outro, conduz aos melhores resultados. Assim, organizamos e controlamos o que há de material e físico numa estrutura funcional que tem de produzir com qualidade e rigor, e procuramos manter em aberto a iniciativa e a inspiração que cada um possa trazer ao enquadramento, ao debate e à decisão sobre o projecto.
A confiança mútua é o valor principal e acaba por ser um gene estruturante.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #111, de Setembro de 2019

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