01.06.2019

À conversa com Arq.º Flávio Tirone

01.06.2019

À conversa com Arq.º Flávio Tirone

Temos um triângulo de prioridades: o público, os artistas e os técnicos. Tomámos por missão garantir que nenhum colega, artista ou técnico de cena tivesse de pisar um palco em más condições

O palco existiu no vosso percurso antes da arquitectura. Fale-nos dessa experiência.

O Orlando Worm (pai da Isabel) foi quem nos desafiou para as artes cénicas. O desenho de luz como profissão e como arte em Portugal foi introduzido e desenvolvido por ele e tornou-se a referência em todos os domínios técnicos de cena. A Isabel já fazia montagem de espectáculos e eu segui-lhe as pisadas. Ainda enquanto estudante de arquitectura em Florença, participei num curso de iniciação para actores que transformou a minha forma de ver a vida e o mundo e isso mostrou-me o rumo que depois transportei para a arquitectura.
Às vezes assistíamos o Orlando quando lhe pediam para dar ideias na fase de projecto de locais para eventos. Como eu era Arquitecto conseguia transpor as ideias do Orlando e da Isabel para uma linguagem que servia os colegas que estavam a desenvolver o projecto. Esta parceria durou muitos anos e foi assim que, um belo dia em 1995, quando o Arq.º José Lamas nos convidou para o apoiar no projecto de remodelação do Teatro Faialense, tivemos a oportunidade de elaborar o nosso primeiro Projecto Cénico de forma sistematizada e criámos um Atelier/Empresa: a Arsuna.
A Isabel, que entretanto decidiu tirar o curso de Arquitectura, e eu somos os sócios-gerentes, mas colaboram em permanência connosco há muitos anos o Arq.º Pedro Silva e a Arq.ª Maria Rodrigues, sem os quais a equipa seria incapaz de dar seguimento à nossa arte final.

Foi fácil criar um atelier focado, sobretudo, nas artes cénicas?

Descobrimos que a nossa experiência prática, unida aos conhecimentos universitários, poderiam ser úteis para um campo que não existia por cá, e mesmo lá fora é uma especialização rara de encontrar. Começámos a ser chamados quando Portugal estava a implementar as infraestruturas essenciais do pós-25 de Abril e ia ser palco de alguns eventos como Lisboa Capital Europeia da Cultura 1994, a Expo’98, Porto Capital Europeia da Cultura 2001. Também estava a ser construído o Centro Cultural de Belém, o Teatro Nacional São João, no Porto, ia ser remodelado, e todas as capitais de distrito queriam remodelar ou construir o seu novo Centro de Eventos. Tivemos oportunidade de colaborar com os ateliês mais prestigiados como os do Álvaro Siza, Eduardo Souto de Moura, João Luís Carrilho da Graça, Gonçalo Byrne, Promontório e começaram a surgir oportunidades fora do país.
Por vezes também temos o privilégio de criar a nossa Arquitectura. O Centro de Espectáculos de Tróia e o Teatro Maria Matos tiveram a nossa intervenção na Arquitectura de Interiores e Cénica.

A vossa experiência de palco é fundamental para o desenvolvimento dos projectos?

As ideias surgem em boa parte como solução a uma questão que nós já experienciámos. Eu vejo o assunto cénico como uma cadeia de produção. Temos um triângulo de prioridades: o público, para o qual o espectáculo é idealizado; os artistas, que o representam; os técnicos e administrativos, que o proporcionam. Todas estas áreas são fundamentais. Recordo-me que, quando começámos, o panorama das salas de espectáculo no país era arrepiante. Existiam salas sem condições para quaisquer dos três grupos de intervenientes. Existiam edifícios que iam ser remodelados ou construídos de raiz sem projectos. Então tomámos por missão dar a conhecer o nosso manifesto para garantir que nenhum colega, artista ou técnico de cena tivesse de pisar um palco em más condições.

Fale-nos do desafio do Teatro Tivoli e do que estão a fazer agora.

Estou em crer que o Raúl Lino respeitou as três áreas do nosso manifesto, nos anos ’50, quando a torre cénica foi reconstruída, tornando-o num dos melhores palcos do país. Tentámos proporcionar de novo ao público, artistas e técnicos o que, em tempos, já tinham tido e ampliar as potencialidades do edifício, sem adulterar os conceitos base do Mestre Raúl Lino. Neste momento, a Isabel está a dirigir a programação do Convento de São Francisco em Coimbra e temos projectos em elaboração, como o Cinema Mundial, o Teatro do Bairro Alto, a remodelação do Teatro Nacional de São João, e obras a decorrer, como o palco do Cine-teatro de Arraiolos, e a remodelação do Teatro Maria Matos.

A BETAR já realizou convosco vários projectos de auditórios e teatros. Tem sido uma boa parceria?

Temos tido o privilégio de sermos apoiados por uma equipa de engenharia de inquestionável profissionalismo e criatividade técnica dirigida pelo Eng.º José Pedro Venâncio (Engenharia Civil – Betar) e pelo Eng.º Fernando Fonseca (Energia Técnica) que nos guia nas instalações especiais. O labirinto que temos percorrido juntos vai encontrando obstáculos e becos que só se contornam graças ao espírito de equipa e à qualidade humana de cada um. Uma experiência que se vem repetindo há já alguns anos com sucesso. Assim dá prazer trabalhar e estar neste meio.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #108, de Maio de 2019

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