01.11.2020

À conversa com Arq.º Fernando Bagulho

01.11.2020

À conversa com Arq.º Fernando Bagulho

‘[É necessário resolver as] novas necessidades do habitar, (…) os desafios do teletrabalho. (…) Continuamos a ter, como paradigma da habitação urbana, modelos com mais de cem anos (…) que será necessário conjugar com a habitação utensílio, alternativa ao local de trabalho.’

Em 2014 deu uma primeira entrevista à Artes&Letras. O que mudou desde então?

Em 6 anos tudo mudou, mas o projecto de arquitectura mantém a mesma estrutura desde que o desenho é suporte para desenvolvimento das ideias arquitectónicas. Com a pandemia, passámos do esquisso a quatro ou seis mãos para o esquisso a dois ou três ratos (ou placas digitalizadoras); do vegetal e das costas do sobrescrito de correio para o ecrã partilhado (embora goste de usar o sobrescrito onde desenho com a mão esquerda, que fotografo e depois viaja para o ecrã. Faço-o com a mão esquerda que é mais cerebral e menos afeitada a maneirismos, como nos aconselhava o arq. Manuel Tainha).

Falámos da sua posição em relação ao RGEU, aos interesses imobiliários, aos erros de organismos do estado. Como descreve a situação actual?

Há oportunidades de mudança com as novas exigências regulamentares da UE (Eurocódigos) no projecto estrutural de novas edificações e de alteração do existente. Conforme então referi, o licenciamento é desleixado, em relação à delapidação estrutural das edificações, tornando-as menos aptas a resistir ao sismo, e centrado em conceitos vagos, como de “partido estético”, em desfavor de grandezas quantificáveis para tabela Excel. A preferência dos clientes por projectos de decoradores espelha o atraso em relação à cultura de projecto que urge alterar em muitas frentes. Nestas inclui-se a do financiamento bancário, no qual a qualidade e rigor do projecto ainda não são garantia para a operação a financiar. Nem as classes sociais com maior poder económico são sensíveis a isso. Veja-se os grandes envidraçados, na promoção de luxo, mesmo em zonas de ruído extremo. Será difícil encontrar um único que cumpra a lei do ruído. Em casas para seniores aconselho o uso de energia eléctrica em vez de gás. Esquecer um tacho ao lume tem riscos que não ocorrem na placa eléctrica, mas a lei do Estado impõe a existência de projecto de gás até em habitações que nunca o poderão usar.

O conceito de “arquitectura social” ficou-se pelo projecto SAAL ou tem havido preocupações ao longo dos anos?

A arquitectura participada pelos moradores, e os movimentos sociais reivindicativos do direito à habitação em solos urbanos qualificados, foi absorvida pela oferta de habitação social de produção e gestão municipal, que terá sempre que existir, mas não deve constituir via única para o acesso à habitação a famílias de baixos recursos. Há estratos sociais com capacidades e recursos (como referia o Decreto de criação do SAAL), que podem ser mobilizados para resolução das novas necessidades do habitar, enfrentando os novos desafios do teletrabalho. Não esqueçamos que continuamos a ter, como paradigma da habitação urbana, modelos com mais de cem anos, que abarcam as funções básicas do habitat (comer/estar/conviver/dormir), que será necessário conjugar com a habitação utensílio, alternativa ao local de trabalho. 

Como vê o futuro da gestão do Património Arquitectónico?

Preocupado com as consequências do teletrabalho, com cada um a fazer o seu melhor, escondido por trás do monitor e sem dispor do convívio de gerações, com acumulação e transmissão do saber e conhecimento. Estamos à porta da intervenção de programas de Inteligência Artificial, que fará o trabalho de análise de cumprimento de normas e regulamentos sem intervenção humana, com vantagem para quem administra, que passará a lidar com tabelas de desvios, em vez da subjectividade dos pareceres, e maior clareza e transparência das decisões para quem é administrado. A revisão do CCP, para admitir a escolha com base na qualidade e não no preço, e o regresso à cultura da boa formação de decisores públicos, que ponha fim ao medo, à indecisão e ao empurrar para a frente, juntamente com a refundação do sistema de Justiça, constituem os elementos chave para o sucesso das transformações da década que se inicia.

Assumindo que existe uma visão global da arquitectura e uma visão especializada das engenharias, como tem sido trabalhar com a BETAR?

Um engenheiro disse que nada pior do que a má engenharia, pois a má arquitectura ficará patente e à vista de todos, enquanto a má engenharia se esconde. Infelizmente, temos assistido à sua proliferação, com o princípio da responsabilidade técnica, deixando os serviços sem verificação nem escrutínio. Qualquer actividade humana só terá garantia de qualidade se for escrutinada. Assiste-se pelo país fora, em todas as áreas da engenharia – seja por ignorância dos privados, que ignoram a natureza e relevância dos serviços, seja pela inoperância dos organismos profissionais, que tutelam o exercício das profissões, seja pela natural endogamia das regiões e municípios – ao degradar continuado dos serviços, a que teremos de colocar ponto final. Deste quadro pessimista resulta que constitui, hoje em dia, um privilégio trabalhar lado a lado com equipas de engenheiros como a BETAR, que partilham uma cultura de projecto e de rigor do serviço a prestar, indispensável para um atelier artesanal de arquitectura como o nosso.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #124, de Novembro de 2020

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