01.03.2025

À conversa com o Engº Rui Guimarães

01.03.2025

À conversa com o Engº Rui Guimarães

'Certamente que iremos fazer um ótimo trabalho com a Alta Velocidade (…) São empresas portuguesas de engenharia e de construção que vão desenvolver o projeto e que, com certeza, (…) têm todos os ingredientes necessários para levar um projeto destes avante'

Por forma a conhecê-lo melhor, fale-nos de como iniciou o seu percurso profissional.

Comecei a trabalhar na Mota-Engil, na altura Mota & Companhia, em 1992, na área de Planeamento. Tive contacto com todas as obras da empresa, uma vez que a minha função era preparar o orçamento interno com cada um dos diretores de obra. Foi uma espécie de curso, com diversas especialidades, com as pessoas que sabiam o máximo possível sobre cada tema. Estradas, túneis, hidroelétricas, edifícios, portos, enfim, foi muito enriquecedor. Estive também, num curto período, na construção da autoestrada A3, no troço Cruz-Braga. Em 1997, convidaram-me para ir para uma área nova de projetos especiais: as Concessões Rodoviárias. Foi aí que conheci os engenheiros Paulo Gomes e Tiago Mendonça. Foi-nos adjudicada a Concessão Norte. Na altura, apareci em Lisboa, vindo do Norte, com umas folhinhas, para falar com o Eng. Paulo Gomes, que já era um grande especialista rodoviário, e disse “tenho aqui umas ideias”. Ele deve ter pensado “de onde é que este tipo saiu?”. Depois percebemos que alguns desenhos até faziam algum sentido. Desde então temos uma relação profissional de muita qualidade, para além de uma grande amizade. Foram 13 anos muito intensos, várias Concessões, onde conseguimos sempre soluções que permitiam otimizar. A conceção-construção é muito importante nas infraestruturas, sobretudo para quem paga, porque permite aportar, desde logo, uma lógica de custo-benefício.

Depois disso, foi CEO da Mota-Engil Perú. Como foi a experiência?

Em 2009, a Mota-Engil convidou-me para ser Country Manager no Perú. Quando lá cheguei a empresa, chamada Translei, fazia trabalhos para companhias mineiras, numa lógica de aluguer de equipamentos. Estive lá 4 anos. O mercado do Perú era muito forte, em termos de construção, tinham pessoas muito qualificadas e fornecedores de qualidade, mas tinham um problema na capacidade de execução. A dada altura, mudámos o nome Translei para Mota-Engil Perú, para vender a marca, e passámos de uma empresa que faturava 30 milhões para, no último ano, faturar mais de 400 milhões. Foi um crescimento muito forte, concorríamos a tudo e mais alguma coisa, passámos a ser uma construtora na sua plenitude. Ao fim de 4 anos, numa lógica de rotação de quadros, a Mota-Engil pediu-me para voltar para Portugal, mas a minha família estava a gostar muito de viver no Perú e decidimos ficar. Nunca tinha trabalhado para outra empresa, mas fui para uma empresa argentina especializada em aeroportos. Acabei por criar uma empresa construtora, para colaborar com eles, designadamente no aeroporto de Cusco, o que foi uma experiência também muito enriquecedora. Depois, na sequência de umas loucuras políticas, a concessão foi retirada aos investidores e eu tive de fechar a empresa. Continuei a trabalhar no Perú, para uma empresa líder mundial em teleféricos, até achar que era altura de voltar a Portugal. Regressei à Mota-Engil na altura da Concessão do Douro Interior e aqui me mantenho até hoje. Sou administrador, entre outras, da Lusoponte e da Mota-Engil Concessões.

Falemos da Alta Velocidade, um dos maiores projetos ferroviários que Portugal já viu. Qual a importância para o país de ter sido um consórcio nacional a vencer o primeiro concurso?

Vencemos o primeiro troço, Porto-Oiã, o Oiã-Soure não correu tão bem, fomos excluídos porque entregámos uma proposta que, na nossa perspetiva, responde ao objeto do concurso, mas a avaliação foi outra. Na verdade, para nos encaixamos no preço máximo, tivemos de “puxar pela cabeça”, seguindo a lógica da conceção-construção, e encontrámos uma solução que, na nossa opinião, cumpria as exigências do concurso. Aliás, fomos os únicos a apresentar proposta porque os outros concorrentes, seguindo exatamente a solução de referência, chegaram à conclusão que excedia largamente o preço base. Nós apresentámos porque arranjámos uma solução técnica que cumpria o limite do preço e que, em termos funcionais, era até melhor. Agora vai haver novo concurso, o que é uma pena porque, com os prazos que se arrastam, o Estado vai perder várias centenas de milhares de euros em fundos comunitários. São vicissitudes de quem anda nesta vida, mas nós estamos de consciência tranquila, temos a sensação de missão cumprida, de tentativa de colaborar com o Estado e poupar-lhe muitos milhares de euros, é essa a função do engenheiro, otimizar, arranjar a melhor solução preço-qualidade.

Agora vamos dedicar-nos ao primeiro troço, são empresas portuguesas de engenharia e de construção que vão desenvolver o projeto e que, com certeza – até porque temos essa experiência das concessões rodoviárias – têm todos os ingredientes necessários para levar um projeto destes avante, do financiamento ao projeto, da capacidade negocial com as autarquias e populações à capacidade de construção… Estamos como peixe na água, desde aquela altura, e certamente que iremos fazer um ótimo trabalho com a Alta Velocidade.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #174, de março de 2025

Notícias & Entrevistas

15.12.2025

À conversa com a Engª Maria João Lordelo Marques

'O nosso trabalho vai muito além da simples manutenção das vias. Envolve garantir a segurança, a disponibilidade e a qualidade do serviço para milhares de utilizadores diariamente' Ler mais

17.07.2024

Betar é um dos membros da “Fundação da Construção”

A Ordem dos Engenheiros, a Ordem dos Arquitectos e a Ordem dos Economistas, juntaram-se a 14 empresas relacionadas com construção para criar uma fundação que dê resposta aos desafios do setor Ler mais

01.06.2015

À conversa com o Arq.º Bak Gordon

‘A arquitetura precisa de tempo. Estamos a transformar um lugar e parece que não se compreende que é preciso tempo para pensar. A arquitetura requer serenidade, não pode ser eufórica.’ Ler mais

Topo

Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência de navegação. Ao continuar a aceder a este website está a concordar com a utilização das mesmas. Para mais informações veja a nossa política de cookies.

Portugal 2020 / Compete 2020 / União Europeia - Fundo Europeu do Desenvolvimento Regional