01.02.2025

À conversa com o Arqº Pedro Matos Gameiro

01.02.2025

À conversa com o Arqº Pedro Matos Gameiro

'Tenho tido muita sorte com os interlocutores, que tendem a compreender que existe um bem maior que a sua vontade momentânea em relação à obra. É muito importante que se abra espaço para que se faça arquitetura'

Fale-nos um pouco do seu percurso inicial. Porquê arquitetura?

Não tenho nenhum tipo de herança, ninguém que me tenha trazido para a arquitetura. Hoje talvez reconheça que as memórias que tenho dos vários sítios que fui habitando, tiveram algum impacto, mas é uma pós-memória. Foi uma coisa construída por mim e foi só no fim do curso que houve um verdadeiro encantamento. Também nunca passei por aquela maravilhosa experiência de aprender com uma espécie de tutoria, num escritório grande. Acabei por desenvolver sistemas próprios e, claro, a proximidade e amizade com outros colegas fez-me aprender imenso. Nos primeiros 8 anos, tive uma sociedade com o Arq. Carlos Crespo, depois cada um seguiu o seu caminho e desde 2006 que o escritório é gerido por mim.

No entanto, continua a realizar parcerias com diversos arquitetos. Qual é a vantagem?

Esse foi o meu processo de aprendizagem. Atualmente, os jovens arquitetos começam em coletivos. Quando eu comecei ainda era comum formarmos duplas ou começar sozinho. Mas quem trabalha como autor individual, muitas vezes, tem necessidade e interesse em trabalhar com outras pessoas. Já tive várias oportunidades para trabalhar com pessoas que muito admiro e isso traz a possibilidade de fazer projetos melhores, porque a experiência acumulada de trabalho autónomo permite trazer para a mesa de discussão visões que se complementam, variações que nos interessam, e isso é uma riqueza imprescindível.

Com uma experiência de 25 anos, quais os fatores que distinguem o seu trabalho?

Fundamentalmente, tentamos atuar de forma consciente da nossa limitação, não há génios, tudo decorre de um trabalho intenso, embora muito prazeroso. Aqui no escritório tentamos sempre ver o que permaneceu ao longo dos anos, o que tem sido permanente em determinado tipo de edifícios. Olhar para a história com humildade e aprender com o que já foi feito. Somos um dos elos que continua a corrente, temos de ter um olhar vivo e enérgico e perceber que na história temos os exemplos. O segundo aspeto tem a ver com o lugar, e essa é uma característica muito presente na arquitetura portuguesa, há uma certa sensibilidade às expressões de cada sítio. Temos de conhecer e interpretar as características do lugar, ainda que possa ser para nos opormos de alguma forma.

Foi nomeado e venceu vários prémios de arquitetura… Como encara esses reconhecimentos?

Não vou mentir, é agradável, é uma validação externa. Quando fazemos arquitetura temos de ter uma certa autoconfiança, temos de ter dúvidas, não temor. E é importantíssima a validação que vem da satisfação das pessoas que habitam os espaços. Mas quando outras pessoas, de fora, validam o nosso trabalho, melhor. Tenho tido muita sorte com os interlocutores, que tendem a compreender que existe um bem maior que a sua vontade momentânea em relação à obra. É muito importante que se abra espaço para que se faça arquitetura. Quando se faz uma casa para um cliente privado é muito fácil perceber se está satisfeito, na obra pública é mais difícil, é preciso perceber como alastra para os utilizadores e aí há um aspeto que é fundamental para saber se o edifício é bem recebido, que é a forma como ele é tratado. A Biblioteca de Grândola, por exemplo, já está construída há uns anos e está como no dia da inauguração e qualquer coisa que querem fazer telefonam, pedem para eu desenhar…

Doutorado em Arquitetura, leciona na Universidade de Évora, desde 2004. O que é que retira dessa experiência?

Eu aprendo imenso. Dar aulas de projeto é estar a colaborar, à vez, com cada aluno, em 30 projetos diferentes. Dou aulas ao 2º ano e eles vêm num momento de maturidade que ainda é baixo e isso é desafiante, permite uma frescura incrível porque partir das ideias mais ou menos ingénuas deles abre campo para explorar hipóteses que, à partida, eu não iria explorar. Depois é orientar. É uma experiência absolutamente fundamental, que me põe à prova. Há alunos brilhantes que me colocam numa posição muito exigente. A aprendizagem é mútua, são 6 horas em alta rotação.

Como olha para o futuro do atelier?

Vamos ano a ano. Isto tem é de ser bom, no fim o resultado tem de nos descansar e fazer pensar “ainda bem que cá estava para fazer isto”. Se não houver trabalho daqui a 5 anos, eu não fiz nada para que isso acontecesse. Tirando 3 ou 4 exceções, ninguém tem a garantia de que daqui a 10 anos tem o atelier em funcionamento porque a arquitetura, como eu gosto de a entender, não sei se é muito popular, hoje. Acho que a arquitetura, cada vez mais, é um trabalho de nicho. Existe outra perspetiva sobre a arquitetura que está a alimentar, com grande sucesso, uma encomenda cujo principal objetivo não é produzir arquitetura, é construir metros quadrados e aí há escritórios que respondem muito melhor que nós, de forma menos apaixonada, mais para responder ao presente que a pensar no futuro. Mas eu acredito na autodeterminação das pessoas.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #173, de fevereiro de 2025

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