01.08.2025

À conversa com o Arq. Luís Rebelo de Andrade

01.08.2025

À conversa com o Arq. Luís Rebelo de Andrade

'A Arquitetura não é um gesto, não é só desenhar o bonito, é desenhar o sólido (…) não fazemos edifícios porque estão na moda, (…) tentamos dar resposta para construir uma melhor paisagem que (…) contribui para uma melhor qualidade de vida das pessoas'

Antes de enveredar pela arquitetura quis ser escultor. Em 1989 abriu o seu atelier. Quais os princípios que têm orientado o seu trabalho?

Quis entrar para o curso de Escultura, mas fui convencido pelos meus pais que não tinha feitio para viver nas condições de um escultor. Segui então para Arquitetura, que era talvez o mais próximo. Abri o meu atelier depois de uma experiência de oito anos num outro gabinete, que me deu as ferramentas para poder arrancar com um projeto próprio.

A Arquitetura é uma disciplina muito complexa, abrange muitas áreas de conhecimento, muito para além do desenho. É uma profissão humanista. Costumo dizer que temos vários clientes, o que nos paga, as pessoas que habitam o lugar onde intervimos e todas as que acabam por ser afetadas, pela positiva ou pela negativa, por aquilo que nós fazemos. Isso dá-nos uma responsabilidade muito grande. Preocupámo-nos, desde sempre, com a sustentabilidade. Procuramos usar os materiais autóctones, fator que promove a identidade dos lugares, e preocupamo-nos com o envelope térmico, com a qualidade da construção e com o detalhe. Estas são coisas que sempre nortearam o nosso trabalho. A Arquitetura não é um gesto, não é só desenhar o bonito, é desenhar o sólido.

É curioso que hoje alguns projetos tornaram-se menos sustentáveis. Como é possível que se vejam edifícios pretos, quando o preto é talvez o revestimento menos sustentável que existe, ou edifícios quase exclusivamente em vidro? Nós não participamos nisso, não fazemos edifícios porque estão na moda, avaliamos o território, o programa, a identidade do lugar e tentamos dar resposta para construir uma melhor paisagem que, por sua vez, contribui para uma melhor qualidade de vida das pessoas. A Arquitetura é para ficar mas, infelizmente, assistimos a muitos projetos que são descartáveis, porque os programas não são sustentáveis ou a construção é de má qualidade. Isso tem razões, causas, origens, a começar pelos promotores que consideram o trabalho da Arquitetura e das Engenharias um custo e não um investimento.

Vários projetos seus foram premiados. O que é que estas distinções dizem do seu trabalho? E que caminho pretende seguir com o atelier?

São elogios simpáticos que muito agradecemos. Sentimos que não pensamos à toa e que as nossas reflexões e avaliações sobre a Arquitetura estão no bom caminho. Temos estado muito na área da reabilitação de património, comum e classificado, e também temos desenvolvido muitos projetos na área da hotelaria, sobretudo de luxo, onde temos sido reconhecidos. Três hotéis nossos receberam Chaves Michelin, um hotel foi considerado um dos 10 melhores hotéis de luxo do mundo, o que é um orgulho e representa a certeza que estamos a trabalhar bem e a fazer aquilo que está certo.

No atelier temos uma grande preocupação na escolha dos nossos clientes. Procuramos bons clientes, que têm respeito pelo nosso trabalho, que gostam de participar connosco numa discussão saudável sobre o projeto e as soluções e que olham para o nosso trabalho como um investimento. Cada desafio é uma equação a resolver, em conjunto. Procuramos também colaborar com bons gabinetes de Engenharia, que desenvolvam um trabalho responsável e sério. Cada projeto tem um ADN próprio, não existem respostas pré-fabricadas para os problemas, cada projeto tem de ser visto com as suas particularidades.

A Ordem dos Arquitetos não foi chamada para a discussão sobre a lei da habitação. Não teria feito sentido?

Lamentavelmente, na área da gestão das cidades, há muito a fazer. A Ordem dos Arquitetos não é chamada porque existe uma prepotência por parte dos políticos, acham que sabem tudo, mas o que temos visto é que as leis de gestão do território têm sido muito mal elaboradas e conduzidas. Há um rol monumental de queixas por parte dos Arquitetos, nomeadamente no modelo de licenciamentos dos projetos, que é um desastre. Somos uma parte muito importante do processo, é importante ouvir quem está no setor, quem vive o dia a dia com os problemas do setor. Assistimos a um Simplex cuja intenção era promover mais construção e só atrasou os processos. Os políticos, sozinhos, não conseguem. Falta-lhes, inclusivamente, a humildade e a inteligência de olhar para outros países, onde esses sistemas estão muito bem resolvidos e poderiam servir de modelo para os nossos.

Temos feito, aqui no atelier, algumas tertúlias com arquitetos, urbanistas, pessoas da Câmara e de outros locais, sobre a gestão urbanística. Acho que o Estado deveria licenciar empresas privadas para fazerem o licenciamento dos projetos. As Câmaras deveriam estar fora disso, deveriam dedicar-se, exclusivamente, ao planeamento, urbanismo e fiscalização. A ideia não é minha, assenta na ideia elementar de que um país atrasado tem a grande sorte de poder copiar os países mais evoluídos. Se noutros países as coisas funcionam bem, porque não adotar esses modelos?

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #179, de agosto de 2025

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