À conversa com o Arq. João Pedras
À conversa com o Arq. João Pedras
'O projeto de arquitetura acolheu muito bem as obras de arte do museu, há uma simbiose, o projeto não se sobrepõe (…) mas proporciona zonas de contemplação muito agradáveis. No exterior, o Palácio tem (…) uma presença forte, e depois existe a explosão de modernidade do novo edifício'
Tivemos o prazer de o entrevistar em 2020. Cinco anos depois, a Metro Urbe mudou muito?
Naturalmente que sim, nestes 5 anos evoluímos, porque o mundo também evoluiu, e a arquitetura é uma das áreas que tem de se adaptar às novas realidades, os espaços têm de se adaptar às novas vivências, aos estilos de vida, e perspetivar o que pode vir a ser o futuro. Além da abordagem espacial, dos conceitos e da tentativa de estarmos sempre a par de todas as novas técnicas e regulamentos, interessa-nos sempre inovar, até porque o mercado é muito concorrencial e queremos dar um contributo específico e especial, em termos arquitetónicos. A Arquitetura, para todos os efeitos, é uma arte e como tal deve criar emoções, que nem sempre se encontram no dia a dia.
Naquela altura, estávamos a terminar o projeto do Museu/Hotel MACAM, agora inaugurado. Projetou 13 mil m2 de edifício, incluindo a reabilitação de um Palácio do século XVIII. Como foi o processo de aliar os encantos de um edifício histórico ao conforto e design da arquitetura contemporânea?
Foi um desafio diferente porque juntou reabilitação, a parte histórica e patrimonial, com dois programas, o hoteleiro – no qual estamos mais à vontade, porque já desenvolvemos vários projetos de hotéis – e o museológico que foi uma novidade, porque um museu não é um programa tão recorrente. E juntar estes dois programas num edifício existente, com a criação de um edifício novo, revelou-se um desafio de enorme complexidade. Envolveu as questões patrimoniais, todo o respeito pelo edifício, que tinha um enorme valor, embora com uma história longa. É um edifício do século XVIII, que começou como um Palácio, mas que depois foi usado como escola. Foram feitas grandes transformações interiores e subtrações do património original, o que alterou muito o edifício mantendo, no entanto, algumas características que nos adotámos para o projeto. A fachada principal da Rua da Junqueira foi mantida e conservou-se um núcleo de escadas e salas, tanto para uso do museu como do hotel. O estado de degradação era muito grande e foi necessário fazer uma análise técnica e de especialidades muito exaustiva que começou, naturalmente, pela estrutura, à qual foram aplicados requisitos de segurança. Houve reforços de lajes e recurso a estruturas mistas de metal, betão e madeira, e foram adotadas as melhores técnicas para garantir a qualidade térmica e acústica. Em relação aos novos edifícios, no logradouro, são em betão armado, com recurso às novas tecnologias, envidraçados, e criam um contraste arquitetónico entre o patrimonial e o contemporâneo. Isto tudo com a complexidade de introduzir as áreas técnicas, de serviço e funcionais, e ainda a interligação com as zonas de jardim, que criaram espaços muito diferenciados e com um impacto visual muito grande. Ficámos muito satisfeitos com o resultado porque há um contraste claro entre o antigo e o novo, que cria sensações de surpresa nos visitantes.
Para além do museu e do hotel, ainda converteu uma capela num café-concerto e recuperou uma biblioteca. Este foi mesmo um projeto único?
Todos os projetos são únicos, mas a dimensão e complexidade fazem com que alguns se tornem menos ou mais desafiantes e este tem de tudo, devido ao processo de junção de vários usos, em diferentes edifícios. A capela, um dos elementos patrimoniais mais bem conservados, é também um momento diferenciador porque, estando dessacralizada, vai servir para eventos culturais e é um espaço magnífico porque conservou todo o caráter, triplo pé direito, tetos abobadados, vitrais, estuques pintados… Todo o programa tem ainda a presença de criações artísticas, pinturas, esculturas, instalações. A arte está em todos os espaços. Creio que posso dizer que o projeto de arquitetura acolheu muito bem as obras de arte do museu, há uma simbiose, o projeto não se sobrepõe às obras de arte, que são analisadas individualmente, mas proporciona zonas de contemplação muito agradáveis. No exterior, o Palácio tem uma linguagem muito própria, com uma presença forte, e depois existe a explosão de modernidade do novo edifício, que teve um feliz casamento com a ceramista Maria Ana Vasco Costa, que convidámos para aplicar as suas peças na fachada, o que permitiu compor o objeto arquitetónico e transmitir ainda mais emoções ao visitante. É um espaço muito impactante.
Para onde caminha a Metro Urbe?
Chegámos a um ponto de maturidade e queremos dar condições às pessoas para crescerem no atelier. Este é um trabalho de equipa, há aqui pessoas que têm um papel determinante e contribuem definitivamente para o sucesso do atelier. Mesmo as pessoas mais novas são muito importantes porque trazem novas ideias. O atelier vive disso, da experiência do passado aliada aquilo que o futuro nos pode trazer. Este é um trabalho profundo, de equipa, que depois se nota neste tipo de projetos. É a Betar que nos tem acompanhado nestes grandes projetos, o que também mostra a dimensão e evolução da empresa, com um futuro que se espera auspicioso. Tem sido uma colaboração feliz, com ótimos profissionais e bons amigos.
Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #175, de abril de 2025
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