À conversa com Armando Martins
À conversa com Armando Martins
A Artes&Letras já conheceu o mais recente museu de arte contemporânea de Lisboa, o MACAM, e esteve à conversa com Armando Martins, o colecionador que o sonhou e tornou realidade
É natural de Penamacor e não teve uma infância ligada às artes. Tirou Engenharia Mecânica no Técnico e acabou por se dedicar à promoção imobiliária e hotelaria. Como começou esta paixão pela arte?
Lembro-me que, aos 16 anos, visitei o Museu de Arte Antiga e não gostei, achei que aquilo era pintado bem de mais, era quase fotografia. Reconheço que tem um valor inestimável, mas eu gosto mais da arte contemporânea, que é o que se vê aqui no museu. Quando tinha 18 anos, eu e dois amigos juntávamo-nos para discutir os negócios da bolsa e que serigrafias íamos comprar. Foi assim que começou. Até aos 23 anos, sensivelmente, fui comprando serigrafias e, quando fiz 25 anos, resolvi parar com “o papel”, como lhe chamava, e comprei a primeira obra de arte original, um José Ribeiro, que está exposto na Sala do Colecionador, na Galeria 1. A partir daí optei sempre por comprar originais. Até meados dos anos 90 só comprei século XX português. A partir dessa data, comecei a pensar em preparar a coleção para abrir um espaço ao público – na altura não sei se estava na minha cabeça ser mesmo um museu ou um outro espaço, como uma galeria – e comecei a comprar obras internacionais e de outras dimensões. As obras do século XX português eram peças que podia colocar na minha casa, para poder olhar para elas, mas a partir de certa altura isso deixou de ser possível, porque eram peças com outra dimensão, e porque também passei a comprar escultura, instalações e, mais tarde, fotografia e vídeo. Nestas duas últimas áreas não foi fácil entrar, demorou algum tempo até entendê-las, mas esta ala [Galeria 2] tem uma carga de fotografia interessante e estou muito contente por isso.
O que é que o moveu, ao longo de 50 anos? Foi comprando por instinto, por impulso, por gosto?
Sim, todas as obras foram compradas sem conselheiros, comprava porque gostava. É evidente que tinha três ou quatro galeristas que me apresentavam obras e, entre elas, eu selecionava as que mais gostava. Foi assim que criei a coleção. Costumo dizer que estas obras falam mais por mim do que aquilo que eu possa dizer, está aqui um pouco da minha alma. E tenho recebido muitas notas positivas de todas as pessoas que nos têm visitado. No sábado da inauguração tivemos 5200 pessoas e no domingo cerca de 5500, foi uma surpresa para mim, não estava, francamente, a contar com tanta gente. Esperemos que se mantenha assim no futuro, porque é nossa intenção partilhar este espólio com a cidade de Lisboa e todas as pessoas que nos queiram visitar, para que possam usufruir dele. O que está exposto agora, nas Galerias 1 e 2, representa cerca de 25% da coleção. É evidente que, de vez em quando, trocaremos algumas peças. Depois, nas Galerias 3 e 4, no edifício novo, são exposições temporárias. Registámos uma brand, digamos assim, que é “The House of the Private Collections”, para que aqueles pisos possam receber coleções privadas de pessoas que não têm onde mostrar as suas coleções, desde que as mesmas justifiquem. A ideia é ter uma coleção nacional e uma internacional. Já tínhamos uma internacional selecionada para a inauguração, de um dos maiores colecionadores de arte de Espanha, mas como não havia segurança na data de entrega da obra, resolvemos abrir com duas exposições da nossa própria coleção. Mas daqui a 6 meses, certamente, colocaremos essa coleção espanhola.
A sua coleção tem de cerca de 600 obras. Tem uma preferida?
Uma das obras que mais gosto é do Eduardo Viana, “A mulher da laranja”, porque está lá Lisboa toda, uma vendedeira muito bonita com uma laranja na mão, depois outras vendedeiras mais pobres e um rufia a fumar por trás da vendedeira bonita… O povo está ali representado, gosto muito dessa peça. Ao lado está a peça mais emblemática dele que é o “Rapaz das louças”, que teve uma grande influência de Sonia Delaunay, que viveu em Portugal, muito próximo do Eduardo Viana. Depois há o “Maio de 68”, de Maria Helena Vieira da Silva, que também é muito interessante. Foi o ano que entrei para o Técnico. Em Paris havia aqueles tumultos com os estudantes, influência que chegou também a Portugal, e todos nós andámos a correr à frente da polícia… Era o que se vivia na altura.
O que é que o levou a querer partilhar a sua coleção com o mundo? E o que é que sentiu quando finalmente viu a sua coleção exposta?
Sempre achei que seria um egoísmo muito grande da minha parte se tivesse as obras guardadas, sem as mostrar a ninguém, nem a mim próprio, há obras aqui que eu não via há 25 ou 30 anos. Na verdade, eu nem expus muitas obras em casa, tinha vários armazéns, adequados para a conservação das peças, algumas guardei em cofres. A possibilidade de as expor ao público, para que possam ser vistas, para que as pessoas possam usufruir, é o meu contributo para a cidade. Por exemplo, eu acho que a Arqueologia comete, às vezes, o erro de deixar enterradas peças interessantes, onde ninguém as pode ver… Eu quis que a minha coleção fosse exposta para que toda a gente pudesse beneficiar dela. Tive algum orgulho em fazê-lo, naturalmente, e tenho tido imensas pessoas a elogiar e a agradecer. Foi, em parte, a concretização de um sonho, que não acaba aqui, vamos continuar a adquirir peças, iremos renovar, é um legado que quero deixar para que os meus filhos e netos o possam continuar.
A criação do hotel foi pensada para ser o motor de financiamento e de sustentação do projeto, correto?
Sim, quando decidi criar um espaço de exposição ao público, pensei logo que teria de arranjar uma atividade que suportasse os custos porque, infelizmente, um museu não é lucrativo. Temos um hotel com 64 quartos, um restaurante, cafetaria e a capela também será um local de concertos e poesia, um pouco a recuperação das antigas tertúlias que, em tempos, existiram em Lisboa. Acreditamos que assim conseguiremos suportar os custos e libertar algum dinheiro para continuar a adquirir obras.
Mas com várias obras expostas, o hotel acabou por ficar imbuído no mesmo espírito artístico. É mais uma forma de divulgar a arte portuguesa e de proporcionar aos hospedes uma experiência única?
O hotel também tem obras originais, assim como os jardins, o acesso à garagem e a própria garagem… A ideia é que todo o espaço seja ligado à cultura, que todos os espaços disponíveis possam divulgar a arte, e que os hospedes possam usufruir do museu.
E em relação ao espaço escolhido… optou por reabilitar um Palácio do século XVIII, repleto de história, ao qua acrescentou a modernidade com edifícios novos…
Sim, a reabilitação do palácio foi outro grande trabalho e o projeto final ficou incrível. Este projeto esteve pensado para o Cais do Sodré, houve um concurso público para atribuição da exploração de um espaço que eu ganhei. Na altura, o arquiteto Ricard Bofill fez um projeto maravilhoso para o espaço mas, por razões que até hoje nunca entendi, foi-me retirada a concessão. Enfim, nessa altura decidi que iria comprar um espaço próprio, para não depender de ninguém. Aqui não estou dependente nem da Câmara, nem do Governo, nem da Banca, foi tudo feito com capitais próprios e o projeto foi ótimo. Temos também o Palácio do Correio-Mor, em Loures, e ainda vou tentar replicar este projeto lá. Vou ver se ainda tenho coragem para fazer isso.
Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #175, de abril de 2025
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