01.03.2019

À conversa com Eng.º Rui Coutinho

01.03.2019

À conversa com Eng.º Rui Coutinho

‘A base das nossas decisões de conservação e manutenção reside na actividade de inspecção e monitorização que perspectiva a identificação do momento mais vantajoso para intervir nas obras de arte’

A Infraestruturas de Portugal (IP) é a entidade responsável pela gestão de mais de sete mil obras de arte em Portugal. Como é que se gere um parque tão vasto?

A gestão de um vasto grupo de obras de arte, tão diversas entre si, desde passagens hidráulicas até pontes e túneis de grandes dimensões, como a Ponte 25 de Abril ou o Túnel do Marão, envolve um conjunto de factores, desde pessoas com fortes competências de engenharia, à sistematização da abordagem e à gestão das obras de arte; e, também, uma forte aposta na colaboração com outras entidades que complementam a IP nesta actividade. Um dos aspectos fundadores da qualidade das estruturas está na sua origem, isto é, no projecto e na construção. A IP dispõe de competências nestas áreas, mas também contratamos serviços no exterior sempre que necessário. Depois, a base das nossas decisões de conservação e manutenção reside na actividade de inspecção e monitorização que perspectiva a identificação do momento mais vantajoso para intervir nas obras de arte. A IP instituiu também um conjunto de práticas de gestão de activos que asseguram a coerência e alinhamento entre a estratégia da empresa e a nossa actividade no terreno. A avaliação do estado da infraestrutura ferroviária e rodoviária é realizada numa perspectiva qualitativa do desempenho, utilizando-se modelos de degradação para inferir o comportamento futuro e prever o melhor momento para intervir. A IP assegura também que a actividade de inspecção às suas pontes é realizada segundo parâmetros técnicos normalizados internacionalmente e, em determinados casos, com limites concretos definidos contratualmente com o Estado Português. A execução em permanência desta actividade é um contributo determinante para a abordagem preventiva à ocorrência de falhas nos activos e também numa abordagem preditiva quanto ao momento economicamente mais vantajoso para realização de intervenções de manutenção ou beneficiação das infraestruturas.

Em que medida é que a BETAR tem contribuído para superar os desafios das vossas necessidades?

A BETAR integra um alargado conjunto de parceiros especializados, de natureza pública e privada, que têm colaborado com a IP no sentido de complementar as nossas capacidades e competências. Para a IP é essencial que o mercado esteja capacitado com várias empresas detentoras de know-how e que as mesmas operem no âmbito de um salutar regime de concorrência. A base que fundamenta as melhores soluções para os problemas das infra-estruturas decorre da conjunção de dois factores: o conhecimento profundo dos activos, do ponto de vista técnico e da sua função, assim como, a competência e experiência dos engenheiros envolvidos. É nestes factores que está centrada a aposta da IP. A nossa actividade é centrada em actos de engenharia.

Num contexto de importantes limitações no financiamento público, como é que se priorizam os investimentos?

As infraestruturas representam um encargo financeiro muito significativo para os contribuintes, sendo a Gestão de Activos uma ferramenta central para a fundamentação das melhores opções de investimento. O princípio de que as infraestruturas actuais se manterão com elevados níveis de serviço a custos controlados é uma armadilha que deve ser evitada. Por outro lado, nas economias mais desenvolvidas como as europeias, dispondo de infraestruturas envelhecidas, deverá ser explorada a oportunidade de optimização dessas mesmas infraestruturas, com investimentos a custos mais razoáveis. Está em causa o balanceamento entre custos e desempenho dos activos ao longo de um determinado horizonte temporal, sendo que o risco é a medida balanceadora dos diferentes cenários. É uma obrigação de quem gere infraestruturas, sobretudo no sector público em que o dinheiro é fornecido pelos contribuintes, assegurar que cada euro que nos é entregue seja colocado no local e actividade em que mais falta faz, ou que gera maior retorno económico.

A qualidade das infraestruturas é também um factor de competitividade internacional e de crescimento económico. Quais são os desafios para o futuro?

Isso está de facto bastante documentado. Em Portugal, é reconhecida a relevância da IP para a salvaguarda das condições de segurança das suas infraestruturas. A nível geral, os principais desafios centram-se no financiamento, na qualidade da informação de gestão e numa política de incentivos e responsabilização que fomentem uma maior agilidade, uma visão de longo prazo e uma simplicidade de processos.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #106, de Março de 2019

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