01.06.2014

À conversa com Arq.º Pedro Domingos

01.06.2014

À conversa com Arq.º Pedro Domingos

‘Historicamente, a arquitectura portuguesa teve sempre uma condição de escassez. Aprendemos a fazer bem com pouco. Neste momento de crise, sabemos reposicionar-nos. Gosto desta dimensão.’

Trabalhou com o Arquitecto João Luís Carrilho da Graça, entre 1988 e 1997, depois partilhou um atelier com a Arquitecta Inês Lobo, entre 1997 e 2002. O que é que o fez partir para um projeto em nome próprio?

Foi um percurso relativamente natural. Comecei a trabalhar cedo, no atelier do Arq. Carrilho da Graça, a convite dele, porque tinha sido meu professor. Essa relação de trabalho durou cerca de dez anos e foi um privilégio, aprendi imenso com ele, é uma pessoa muito generosa para com os colaboradores. Ainda hoje sinto que há muitas coisas da minha postura como arquitecto que vêm do convívio com ele. Foi, e continua a ser, uma figura determinante no meu percurso, é um arquitecto notável. Depois desta etapa de aprendizagem, num ambiente onde a arquitectura se faz com muita intensidade, veio a vontade arriscar um caminho autónomo. Tive um atelier com a Inês Lobo, que durou cinco anos. Foi um período igualmente muito importante, foi um teste à possibilidade de termos um espaço próprio. Mais tarde chegou o momento em que estávamos mais confiantes, mais esclarecidos sobre o que queríamos experimentar, sobre o que nos interessava e decidimos cada um seguir um caminho próprio. Continuo pontualmente a fazer trabalhos em parceria com outros arquitectos.

Fale-nos um pouco da forma como encara a Arquitectura.

No nosso atelier temos uma prática muito dedicada, somos muito rigorosos, interessa-nos desenvolver projectos onde exista espaço para a investigação. Procuramos fazer projectos que resolvam os problemas que nos são colocados da forma mais completa possível. Gosto de fazer projetos onde se juntam pessoas que estão realmente interessadas em arquitectura. Gosto da ideia de multidisciplinaridade, onde o arquitecto é uma espécie de “maestro”– no caso da BETAR, o Eng. Miguel Villar é o tipo de “músico” que está sempre afinado, colocando durante o desenvolvimento dos projectos questões sempre muito pertinentes, que vão muito para além da área da engenharia. Não estamos focados numa especialização, a diversidade de assuntos e trabalhos é um dos aspectos mais fascinantes da profissão. Em Portugal, a formação em arquitectura faz com que o arquitecto fique apto a resolver qualquer problema que lhe seja colocado.

Venceu o concurso para a reabilitação do “Parque das Camélias”, em co-autoria com a Arq. Inês Lobo. Acha que os concursos são uma forma justa de avaliar o trabalho dos arquitectos?

Tenho feito muitos concursos, e continuo a fazer todos os anos, e não tenho razões de queixa. Em todos os que participei, achei sempre que se ganhámos foi porque o nosso projecto tinha qualidade e esta foi reconhecida; quando perdemos foi para um trabalho que era melhor. Senti sempre que o júri estava habilitado e que é um processo válido e justo de avaliar e fazer arquitectura. Gosto do formato. O concurso é um modelo muito particular de pensar a arquitetura, é um ensaio num prazo muito curto, há um lado muito forte de intuição… Este ano já participámos num concurso para uma torre em Lisboa, com os arq. João Favila e João Simões, e com o eng. Miguel Villar. Foi muito interessante porque nunca tínhamos reflectido sobre o que é construir um edifício em altura em Lisboa. Ficámos muito contentes com o resultado.

O projeto da Escola Básica e Secundária de Sever do Vouga esteve nomeado para o Archdaily Building of the Year 2014 e venceu o prémio internacional FAD 2013. Qual foi a importância destes reconhecimentos para a sua atividade profissional? Os prémios tiveram efeitos práticos no atelier?

A importância dos prémios está muito ligada ao reconhecimento do trabalho que temos feito. Os projectos são sempre corridas de fundo, muitas vezes temos dúvidas se estamos a fazer um bom trabalho, porque há muitas resistências e é muito difícil fazer um bom projecto e uma boa obra, e os prémios permitem-nos confirmar que estamos no caminho certo. Na nossa área não se sente de imediato o resultado dos prémios. Sinto que ajudam um pouco no caso de clientes novos, a fazer com que sintam mais confiança. E ajudam a construir um certo espaço para podermos continuar a fazer projectos.

Foi professor na Universidade Lusíada, entre 1999 e 2008, e na Universidade de Évora, de 2006 a 2012. Este tipo de projectos paralelos são um bom complemento da sua actividade como arquitecto? E o que é que procurava transmitir aos seus alunos?

Os projetos de docência são muito importantes para a prática, porque a partilha com os alunos é muito estimulante, obriga-nos a fazer sínteses permanentemente daquilo que pensamos, da forma como olhamos para a arquitectura. É um  espaço muito rico onde o compromisso é a partilha de conhecimento com os alunos. Criamos condições para se fazerem reflexões e ensaios sobre arquitectura, que muitas vezes tem consequências para a nossa prática. Fui sempre bastante sincero com os alunos, às vezes até demais, mas sobretudo muito otimista, digo sempre aos alunos que, acima de tudo, é necessário ter o desejo de fazer. Existindo isso, as coisas acontecem naturalmente.

Como vê a arquitectura que se faz hoje em Portugal?

Penso que cada vez há melhores arquitectos e se faz melhor arquitectura. Temos o problema de Portugal ser um país periférico e relativamente pequeno, o que nos coloca questões muito particulares. A arquitetura portuguesa tem uma vantagem: historicamente, tivemos sempre uma condição de escassez, de falta de meios, o que criou uma forma de fazer arquitectura que não advém de uma sofisticação construtiva. Aprendemos a fazer bem com pouco, procuramos a essência da arquitectura: construir a partir do território, refletir sobre as qualidades e a organização do espaço, sobre a importância da luz… Penso que a arquitectura portuguesa é singular por isso e, neste momento de crise, sabemos reposicionar-nos e focar-nos no que é mesmo fundamental. Em Portugal há muito para fazer em relação ao espaço público, à reabilitação, às cidades. Este período de crise deve ser visto como uma oportunidade única para pensar os problemas com tempo.

E em relação ao futuro do atelier, que desafios estão em cima da mesa?

Neste momento estamos muito entusiasmados, estamos a fazer trabalhos muito diferentes que vão desde casas, que têm um lado laboratorial que eu gosto muito – temos vários clientes estrangeiros a querer construir casas em Portugal o que é ótimo; – estamos também a desenhar um jardim de uma casa particular – um tema que nunca tinha feito e que me fascina; – a reutilização de um mosteiro em Lisboa; a reflectir sobre um conjunto de acessos ao Castelo de São Jorge… Estamos em muitas frentes, e neste momento o grande desafio é conseguir ter condições para continuar a fazer bons projectos.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #54, de junho de 2014

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