01.07.2014

À conversa com Arq.º Pedro Campos Costa

01.07.2014

À conversa com Arq.º Pedro Campos Costa

‘É importante criar sinergias para ver se conseguimos viver aqui no rectângulo. É essa a mensagem que quero passar na Bienal de Veneza: cá dentro há muito para fazer!’

Antes de fundar o Campos Costa Arquitectos, em 2007, trabalhou no UN Studio – Van Berkel e Bos, em Amesterdão, e com Promontório Arquitectos, em Lisboa. Que recordações guarda desses tempos?

Tenho óptimas recordações, fazem parte das minhas memórias e da minha formação como arquitecto. São dois ateliers completamente diferentes, métodos de trabalho muito interessantes. Aprendi essencialmente metodologias, formas de organização e processos, aos quais, muitas vezes, não se dá o devido valor. Pensamos que o que importa é o desenho mas, mais que a forma, a inteligência do processo é muito importante. Curiosamente, hoje tenho uma metodologia muito diferente dos dois ateliers, mas tenho consciência que a experiência de ter passado por outros processos ajudou a encontrar o meu.

A sustentabilidade é uma grande preocupação do atelier. Pode falar-nos do conceito que procurou implementar no Campos Costa Arquitectos?

Os arquitectos foram “empurrados” para ser uma espécie de consultores, onde escolhem materiais, pormenores e soluções através de catálogos. A certa altura, a indústria passou a querer vender produtos standard e “matou” a ideia do arquitecto como valor acrescentado. Passámos a ser sufocados com regulamentações e burocracias. O atelier nasceu da ambição de procurar soluções à medida, independentemente da escala. O objetivo é responder a cada desafio de forma personalizada. A extensão do Oceanário de Lisboa, o CaCo ou a Casa não Casa são tentativas de fazer isso: criar valor com a indústria, através de materiais pobres ou tecnologia, ou até aspetos mais culturais. Não podemos é deixar de acrescentar valor. Eu acho que a arquitectura tem a obrigação de criar e transformar a realidade em futuro. Não percebo os arquitectos que defendem a especialização ou recusam a componente artística da profissão. Os arquitectos trabalham com intuições e sensibilidades, escolheram não ser meros prestadores de serviços. Negarmos a arte na arquitectura é negarmo-nos a nós mesmos.

O Edifício do Mar recebeu os prémio 40 Under 40, A.Prize Exposinergy e uma menção do Prémio Valmor. Que importância têm estes reconhecimentos?

No meio do nevoeiro, receber uma palmadinha nas costas dá uma sensação de conforto. Não indica o caminho, não evita os obstáculos, nem influencia o percurso que se traçou ou que se vai traçar. No percurso profissional de arquitetura o melhor prémio que se pode receber é um cliente ou um utente elogiarem a obra. Como o diretor do Oceanário que, há umas semanas, me disse que está muito satisfeito com o edifício, não consome praticamente energia, tal como eu tinha dito. Ouvir essa confirmação é uma enorme satisfação. Ver um cliente contente com o que se faz, isso é um enorme prémio.

É membro da redação do Jornal Arquitectos e lecciona na Universidade Autónoma de Lisboa. São projectos que complementam a sua actividade como arquitecto?

É um prazer e uma honra fazer parte da redação do JA, é um grupo extremamente entusiasmante, inovador e competente. Fiquei muito honrado quando me convidaram. É um excelente reconhecimento pelos outros colegas arquitectos. O ensino é uma experiência atípica, construi a carreira na prática, tenho feito especulações teóricas, algumas considerações em jornais ou revistas mas nunca no âmbito académico. Talvez por isso tenha organizado vários workshops na UAL. São uma boa ferramenta de aceleração do processo de desenho e de relacionamento com a realidade. O último chama-se INSITU e é um laboratório onde os estudantes constroem, em situações de urbanização espontânea ou clandestina, para que possam contactar com situações reais, e possam construir e sentir os materiais.

É Comissário da representação portuguesa na Bienal de Veneza. Como é que surgiu este desafio? E como está a correr a organização do evento, apesar das condicionantes orçamentais?

Fui convidado pela DGARTES, e desde o primeiro minuto percebi que seria um enorme desafio, não só pelo budget disponível, como também pela originalidade do desafio lançado pelo curador geral, o arq. Rem Koolhas, que pretende que se fale de arquitectura e não de arquitectos. O modelo é diferente este ano, obriga os países a fazer mais investigação, para além de ter passado de 3 para 6 meses de duração para a exposição. O financiamento é metade da última edição. Ninguém, no seu perfeito juízo, acha que o dinheiro chega. Mas estive mais preocupado em criar sinergias e capitalizar o pouco que tínhamos, e conseguimos que, neste projeto, trabalhem mais de 90 pessoas: investigadores, Universidades, Câmara Municipais, arquitectos convidados, para além da produção da Trienal de Arquitectura de Lisboa e da organização, a Direcção Geral das Artes. Fiquei impressionado com a dinâmica entre os municípios e as equipas, uma participação que espero que dê frutos. Ainda não calculámos o dinheiro que efectivamente angariámos, e sobretudo quanto vale o envolvimento destas 90 pessoas. No fim faremos as contas mas arriscaria a dizer que o que já criámos, em valor acrescentado, representa o dobro do dinheiro que recebemos.

A representação portuguesa não vai ter um pavilhão. Decidiu distribuir jornais… Fale-nos um pouco desse projeto.

Portugal, este ano, vai distribuir jornais num espaço cedido pela Bienal no Arsenal, no início dos países, que é uma localização excepcional, e que só foi possível pela gentileza da organização e por gostarem do projeto. Envolvi 6 cidades, e uma equipa de 6 arquitectos e 6 arquitectos editores que escreveram, para o Jornal, notícias sobre esses projetos. Fizemos 165 mil cópias, o que está muito próximo do número de visitantes do ano passado. É muito ambicioso. Com o dinheiro que temos, termos esta abrangência é fantástico. A organização da Bienal de Veneza já nos deu os parabéns pelo projecto e temos recebido comentários muito positivos pela ideia.

Como vê a arquitectura que se faz hoje em Portugal?

Temos a sorte de ter dois Pritzkers, vários prémios internacionais de gerações diferentes, imensas publicações em revistas internacionais que nos permitem ter prestígio lá fora. Mas, apesar disso, temos imensas dificuldades em internacionalizar: muitas debilidades internas, pouca organização, uma qualidade média baixa, sem trabalho dentro do país, sem uma lógica cooperativa ou empresarial. Sem energia interna, internacionalizar é sinónimo de emigração dos profissionais. Era importante criarmos sinergias, estruturas e gerirmos melhor, para ver se conseguimos viver aqui no retângulo de forma mais contínua. É um pouco essa a mensagem que queria passar com a Bienal de Veneza: cá dentro há muito para fazer, voltem por favor! Sem densidade e sem massa critica, não temos hipótese.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #55, de julho/agosto de 2014

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