01.03.2018

À conversa com Arq.º Tiago Saraiva

01.03.2018

À conversa com Arq.º Tiago Saraiva

‘É um problema quando a casa deixa de ser associada a um direito humano e se torna admissível despejar pessoas para dar lugar a um Airbnb. Tudo foi mercantilizado’

Há cinco anos, quando falámos pela primeira vez, o Ateliermob procurava alternativas à prática pura da arquitectura. Continuaram nessa vertente?

Continuámos e foi assim que, nos últimos anos, progredimos e aumentámos o volume global de trabalho. Transferimos muito do nosso trabalho para essa lógica de angariação de financiamento para projectos que queríamos fazer e foi isso que nos permitiu encontrar uma resposta à crise, embora tenhamos tido sempre encomenda normal. Este tipo de trabalhos, que tem um carácter social, está agora mais organizado porque criámos, há cerca de dois anos, uma cooperativa: “Trabalhar com 99%”, e é ela que gere esses trabalhos, mais de apoio à população. As associações de moradores, por exemplo, podem fazer parte da cooperativa que, como lhe presta um serviço, não há lugar a IVA. Temos muitos pedidos de adesão de entidades sem fins lucrativos. A cooperativa permitiu-nos também acrescentar valências ao atelier. Temos uma paisagista e uma antropóloga que nos ajudam a prestar um conjunto de serviços mais alargado.

Foi através da cooperativa que se envolveram em projectos de recuperação de casas afectadas pelos incêndios, no centro do país?

Sim. Temos a componente clássica da reabilitação do edifício, onde há muita interacção com as pessoas, mas também, através do fundo gerido pela Fundação Calouste Gulbenkian – o que até motivou a abertura de um atelier em Figueiró dos Vinhos – temos uma proposta para ajudar na recuperação de outro tipo de construções, como a rede de bibliotecas, porque não foram só habitações que foram afectadas. Infelizmente há a questão do chico-espertismo, a falta de projectos, a ideia de que tudo pode ser dado aos empreiteiros. Está tudo centrado na questão do tempo e do dinheiro. Mas a verdade é que, se não for o arquitecto, ninguém pensa em coisas tão importantes como as fossas, por exemplo. Nós, nos projectos que fazemos com a BETAR, substituímos as fossas permeáveis. Os painéis solares também não estão a ser sempre aplicados, parece que voltámos atrás no tempo. Sinceramente faltam arquitectos a trabalhar no terreno, para nós era muito importante ter outros arquitectos lá. Os arquitectos, muitas vezes, são vistos como um empecilho, “fazem mais caro e demoram mais tempo”. Demorar mais tempo é verdade, porque temos de pensar, desenhar, fazer. Ainda assim, estes projectos foram feitos muito mais rapidamente, o atelier cresceu e arranjámos processos de emergência. E os projectos não são mais caros. Fizemos questão de estar muito próximo dos empreiteiros e de lhes explicar tudo para que não dessem valores muito altos. Conseguimos valores muito abaixo, a construção nova está entre 450 e 650 €/m2, o que é absolutamente extraordinário. E as pessoas percebem que houve um upgrade em relação às casas que tinham.

A crise passou e o atelier está numa fase estável?

Como atelier, nós sempre vivemos em crise. Sempre tivemos o stress da contenção. De 2008 a 2010 fomos mais afectados porque a encomenda pública foi quase toda para a Parque Escolar onde a nova geração de arquitectos ficou de fora. Foi aí que nos virámos para os financiamentos, que foi sempre uma coisa muito bem programada e estabilizou o nosso volume de negócio e o quadro de pessoal. Nunca foi nosso objectivo retirar os lucros da empresa, tiramos salários. Quando temos mais lucro, colocamos mais uma pessoa ou redistribuímos pelas que cá estão, isso motiva as pessoas, faz com que vistam a camisola. Temos muito mais mulheres do que homens e isso tem a ver com uma valorização da questão contratual.

O que tem a dizer sobre a nova Lisboa?

Está a produzir-se uma força no interior de Lisboa que está a mandar as pessoas para fora. Tudo foi mercantilizado, para cada casa encontrou-se um valor de mercado, e isso está a prevalecer sobre qualquer outra coisa. É um problema quando a casa deixa de ser associada a um direito humano. A determinada altura tornou-se admissível despejar um casal de idosos, que paga uma renda baixa, para ser substituído por um Airbnb que dá um lucro maior. Os preços aumentaram de tal forma que os portugueses, com os salários médios que têm, não conseguem suportar e têm de ir para fora do centro. Portugal até tem o direito à habitação na Constituição de uma forma bastante avançada, ao nível dos direitos humanos, mas isso depois não se aplica. A habitação deixou de ser vista como um direito fundamental. Por exemplo, existe o direito à energia, mas ainda hoje há bairros que não têm electricidade, cerca de 12 mil pessoas a viver nessas condições. Através da cooperativa, fomos chamados pela Comissão Parlamentar, que está a preparar Lei de Bases da Habitação, para mostrar um conjunto de propostas de bairros onde estamos a trabalhar, com condições díspares, de modo a que chegue aos deputados uma visão técnica, para que eles possam produzir legislação adequada à realidade.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #95, de marco de 2018

 

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