01.02.2018

À conversa com Arq.º Manuel Aires Mateus

01.02.2018

À conversa com Arq.º Manuel Aires Mateus

‘O cliente não desenha connosco mas nós desenhamos com a ambição dele, traduzindo a individualidade dele, e isso afasta-nos da banalidade da resposta’

O que significa receber o Prémio Pessoa?

Temos de entender a selecção do Prémio Pessoa num enquadramento lato. Há vontade de reconhecer a arquitectura portuguesa e interesse em reconhecer uma geração. Fico muito contente que tenha sido eu, fui professor de muitos destes novos arquitectos, mas é preciso enquadrar desta maneira. Depois há outra questão, o trabalho de um arquitecto não é individual, envolve muita gente. Há a relação estreitíssima com o meu irmão, quer no ensino, quer na investigação de projectos, e este é também um atelier muito estável ao nível das pessoas; algumas estão cá há 20 anos e fazem parte desta construção. E também há muita gente para além dessa, desde logo a engenharia, de quem estamos muito próximos. Interessa-nos imenso o problema do limite, porque a arquitectura alimenta-se de dificuldades e precisa de limites pois são eles que, de alguma maneira, constroem as possibilidades de resposta. Eu fui o rosto de tudo isto.

A nossa última conversa foi em 2011. O que mudou nestes 7 anos?

Quando, agora, me mostrou essa agenda recordei-me que nessa altura estávamos a atravessar uma crise grave. Éramos um atelier pequeno, ficámos sem trabalho uns meses, foi uma crise de identidade também, e isso obrigou-nos a repensar tudo e duas coisas mudaram. Uma foi a consciência da possibilidade da manipulação do projecto, do programa, da relação do utente com o espaço e da necessidade de pensar a forma como se habita. E o outro factor foi o tempo. Percebemos que não trabalhamos para um tempo, mas para o início de um tempo, o que fazemos não é para um momento finito, mas para uma vida. Foi isso que se tornou mais claro para nós nestes anos que separam as nossas duas conversas. Depois atravessámos a outra crise, a que afectou toda a gente. Aí definimos muito bem que o nosso território era aqui e na europa, decidimos que nos amarrávamos todos e tivemos sorte. Apareceu o projecto da EDP, que foi uma âncora, e marcámos o fim da crise no dia em que ganhámos Lausanne.

Continua a gostar de desenhar em papel e construir casas…

Desenhar é o meu trabalho, é o que eu faço, tenho sempre um caderno no bolso, outro na mala, vários sobre as mesas. Critico os trabalhos ou as maquetes desenhando por cima de plantas e cortes. Por outro lado, sempre houve no escritório um gosto por projectos pequenos, no caso da casa é por ser “a” casa, uma coisa muito vital. As pessoas apresentam o que precisam e isso é interessante de manipular. Gosto da ideia de uma coisa muito próxima, real. Depois há a discussão com o cliente com quem falamos 10 vezes mais e isso torna o projecto muito mais único. Temos sempre de ir à raiz da pergunta, o mais despojados possível, o que é difícil. O cliente da casa ajuda-nos nisso, torna o projecto mais independente e preciso. Não desenha connosco, mas nós desenhamos com a ambição dele, traduzindo a individualidade dele, e isso afasta-nos da banalidade da resposta. A casa é o programa mais aliciante, somos um atelier com muitas casinhas e, na realidade, se me telefonarem a dizer que querem um edifício, marcamos hora, se for uma casinha é muito mais rápido marcar essa hora.

Dá aulas e quer-me parecer que tem um atelier escola…

Sem dúvida. Aliás, uma coisa que começámos a fazer foi dar formação dentro do atelier, a quem cá trabalha. Cursos de história, filosofia, desenho, fotografia, cinema… enfim, é uma forma de união. Pretendemos criar um universo de interpretação cultural do mundo. Outra coisa que queremos é ter alunos no atelier. É diferente de ter estagiários, são pessoas que não vêm trabalhar em nada do atelier, vêm fazer os trabalhos da faculdade de arquitectura beneficiando da experiência de quem cá trabalha. Mas também porque ensino há 30 anos e sempre tive consciência que aprendemos imenso a ensinar. E como não posso dizer a todos os meus colaboradores para irem ensinar, porque alguém tem de trabalhar, trazemos a experiência do ensino para cá, para quem cá trabalha beneficiar também da experiência dos alunos. É uma relação nos dois sentidos.

Gostava que comentasse as transformações que estão a ocorrer na sua cidade.

Temos de olhar para o que está a acontecer em Lisboa pelo lado positivo do turismo, da renovação e do dinamismo da cidade; e pelo negativo que é a exclusão, de grande parte dos cidadãos, da possibilidade de viver em Lisboa.
Caminhamos para transformar Lisboa numa cidade sem habitantes, ou com habitantes fantasma. Lisboa, como a conhecemos, já desapareceu e a cidade devia ser o lugar de todos, mas principalmente dos que são nossos. Temos de legislar seriamente para controlar este lado negativo sob o risco da identidade da cidade se perder. É necessária uma intervenção urgente por parte do poder público. Não chega dizer que Lisboa está nas bocas do mundo, Veneza também está, não tem é venezianos. É preciso ir de forma energética à procura de soluções porque está a acontecer a uma velocidade enorme.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #94, de Fevereiro de 2018

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