01.06.2021

À conversa com Arq.º Miguel Câncio Martins

01.06.2021

À conversa com Arq.º Miguel Câncio Martins

'A inspiração não se encomenda, vem da observação das coisas, de ouvir os outros, das viagens, das lições, das más experiências e do disco duro que está na minha cabeça, com a acumulação de informação que fui juntando'

Nasceu em Lisboa, licenciou-se em Bruxelas, iniciou a vida profissional em Paris. Fale-nos um pouco do seu percurso.

Tenho um percurso menos convencional mas que me deu muita experiência e satisfação. Nasci e vivi em Lisboa até aos 15 anos, estudei na escola alemã, fui para Paris sem falar francês, fui para Bruxelas estudar arquitetura e voltei para Paris para começar a minha vida profissional. E foi aí que tudo começou ao contrário. Estávamos em plena crise económica e não consegui nenhum estágio num gabinete de arquitetura. Tive a sorte de abrir um bar, com uns amigos, decorado por mim, e depois começaram os convites para fazer bares, restaurantes e discotecas pelo mundo fora. Tinha pouca experiência de escritório mas lá comecei a desenhar os novos projetos em casa, na cozinha. Depois precisei de ajuda e comecei a pedir a amigos para virem dar uma mão. De repente já dirigia 12 pessoas. Tive que aprender por mim mas tive muita sorte em trabalhar com artesãos extraordinários. Foi nas obras que aprendi mais. Quando comecei a fazer alguns projetos em Portugal, e vendo tantas oportunidades e potencial, decidi voltar e, em 2016, abri o meu escritório. Para realizar o projeto dos meus sonhos, o hotel Quinta da Comporta, tinha que estar cá. Recebo muitos projetos em Portugal, através dos meus contactos lá fora.

Em 2005, fez-se sócio do seu pai, também arquiteto. O que mais retirou dessa experiência?

O meu pai, arquiteto de formação, seguiu outros caminhos não ligados à arquitetura. Em 2005 voltou à sua atividade inicial, juntamente comigo. Foi uma satisfação poder trabalhar com o meu pai e partilhar a mesma paixão. Foi enriquecedor aproveitar a sua experiência. Sem julgamentos, deu-me serenidade no tratamento dos projetos.

Quais as vantagens em ser um cidadão de uma europa onde é fácil trabalhar, sem restrições?

Somos todos cidadãos do mundo e nós temos a sorte de pertencer a uma Europa extraordinária, com os seus pontos fortes e algumas falhas, mas com uma riqueza e variedade de culturas, com tantas oportunidades e facilidade de circular. Somos um exemplo, um modelo. Não somos perfeitos, há ainda muito para fazer. Quando vemos todas as restrições e  interdições nos outros continentes, bem podemos estar contentes.

Por vezes tem 20 projetos ao mesmo tempo. Como se divide para conseguir coordenar tantos trabalhos em simultâneo?

Tive a sorte de ter propostas para fazer projetos pelo mundo fora e é como uma bola de neve. Para gerir vários projetos ao mesmo tempo tem que se ter muita paixão pelo trabalho, inspiração, estar bem rodeado de colaboradores que partilham a mesma paixão, observar e ouvir os outros e não contar o tempo. A inspiração não se encomenda, vem da observação das coisas mais variadas, e às vezes inesperadas, de ouvir os outros, das viagens, das lições, das más experiências e do disco duro que está na minha cabeça, com a acumulação de informação que fui juntando desde criança. Inconscientemente, toda esta informação aparece no momento da criação e, com o tempo, vai amadurecendo até chegar ao resultado desejado.

Quais as principais diferenças entre os países, no que respeita a burocracias, exigências, regras…?

Ainda se verificam grandes diferenças entre países para tratar os mesmos assuntos. Devia haver mais comunicação e intercâmbio para melhorar a burocracia. O tempo é o factor mais vital na nossa vida e é triste quando a administração arrasta processos, quando não há esforço para encontrar soluções. Devia haver mais contacto entre os projetistas e as entidades decisoras e responsabilizar mais o promotor e os projetistas para desafogar as entidades públicas. Em Portugal tem que se entregar o projeto de arquitetura, esperar pela aprovação, para depois entregar o projeto de especialidades, e só depois serem aprovados pelas entidades públicas. Todo este processo é muito lento. Em França o promotor é responsável e tem que contratar um organismo de controlo para os projetos de especialidades, que são entregues no final da obra. Esse organismo não assina se os projetos e a realização não estão conformes. Não são precisas equipas das entidades públicas submersas em análises de projetos e assim ganha-se tempo.

O que é que mais gosta de fazer e o que é que ainda não teve oportunidade?

Gosto muito de realizar espaços públicos pela liberdade que me dão. A complexidade de pensar como as pessoas vão viver o nosso trabalho, do impacto que temos na sociedade, da inovação constante, de questionar em permanência e da visibilidade que nos dá. Tudo isto estimula-me.
O que mais gostava era de realizar um projeto de outra dimensão, como tratar da zona da Comporta, para participar na definição e na evolução desta região, que tanto gostava de preservar.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #131, de Junho de 2021

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