À conversa com Arq.º José Veludo
À conversa com Arq.º José Veludo
'É urgente intensificar o trabalho de mediação entre o sistema cultural e o sistema natural onde a arquitetura paisagista se situa. (…) É urgente retirar pavimento, replantar logradouros, (…) pedonalizar mais, estabelecer mais e maiores continuidades naturais no coração das cidades'
Fale-nos do seu percurso académico e profissional e do porquê da escolha da Arquitetura Paisagista.
Existe uma certa influência familiar: o meu pai tinha o gosto de me mostrar jardins e paisagens organizadas. Durante a minha juventude, as nossas viagens pela Europa nas férias de verão tinham precisamente esse objetivo. De resto, fui fazendo o percurso académico com muitas mudanças e incertezas até ao terceiro ano do curso de Arquitetura Paisagista no Instituto Superior de Agronomia, momento a partir do qual fixei a convicção e descobri a paixão.
Um arquiteto paisagista tem imensas atribuições na gestão da paisagem, tanto de espaços públicos como privados.
No planeamento, no desenho e na gestão da paisagem. Sim, a atuação da arquitetura paisagista é bastante ampla: ordenamento, requalificação e regeneração da paisagem e dos elementos primordiais (ar, água e solo), Jardins, Parques, Espaço Público, Integração de edifícios e infraestruturas, conceção de todo o tipo de espaços exteriores.
Quais as principais estratégias de planeamento, métodos e técnicas, que a NPK utiliza para responder às questões ambientais, de sustentabilidade, de reconversão ou conservação da paisagem e do património natural?
As estratégias são diversas de acordo com o contexto social, ecológico, económico e temporal em que o planeamento ou o projeto ocorre. Contudo, existem princípios que estão sempre presentes como: o imperativo da conservação do solo e da água, a promoção da biodiversidade e da espontaneidade natural, o entendimento da evolução histórica e cultural da paisagem, a procura de continuidades e do potencial do lugar, da sua aptidão morfológica, biológica, estética ou espiritual.
Têm preferência por projetos de pequena escala, mais pessoais, ou pelas intervenções maiores, em espaços públicos?
Gosto de trabalhar em todas as escalas, é no seu contraste que encontramos as certezas para calibrar cada uma delas. Contudo, o trabalho da NPK centra-se mais em escalas de paisagem maiores, nomeadamente em espaço público.
Que objetivos tem para o seu atelier? Existe algum projeto desafiante que gostasse de trabalhar? Algum que lamente que não se tenha concretizado?
Gosto de fazer parques, são muitos os projetos que lamentei não concretizar, mas esqueço-me rapidamente deles para me concentrar no próximo.
Atualmente prefiro pensar projetos de maior escala, como exemplo gostava de trabalhar na concretização de um novo pulmão para a cidade de Lisboa, o corredor verde oriental, ao longo do vale de Chelas, do aeroporto até ao Tejo.
É sempre difícil fazer previsões, mas que tendências vê a acontecer? Considera que a Arquitetura Paisagista tem uma boa escola e um futuro promissor?
A arquitetura paisagista tem boas escolas em Portugal, a prova disso são os inúmeros arquitetos paisagistas, de reconhecido valor em atividade, a produzir trabalho, em ateliers e em instituições.
Sim, o futuro para a Arquitetura Paisagista é promissor, quanto à quantidade de desafios e trabalho que temos pela frente, as paisagens, os lugares em que habitamos, tal como os nossos sonhos estão em constante transformação. Por outro lado, a nossa capacidade de destruição, da natureza que nos sustenta, tem sido crescente e nesse sentido é urgente intensificar o trabalho de mediação entre o sistema cultural e o sistema natural onde a arquitetura paisagista se situa.
Caminhamos para cidades mais inclusivas, com espaços verdes, onde haja uma comunhão sustentável entre a natureza e o urbanismo, ou estamos longe de cumprir esses objetivos?
Se o caminho tem a ver com maior inclusão do sistema natural no nosso espaço de habitar, estamos muito longe desse objetivo, é urgente retirar pavimento, replantar logradouros, libertar ribeiras (trazer as linhas de água para a superfície), aumentar os espaços de produção hortícola na proximidade, pedonalizar mais, estabelecer mais e maiores continuidades naturais no coração das cidades. É urgente renaturalizar mais para ter maior espontaneidade natural ao pé de nós.
Disse uma vez que “faltam-nos muito mais árvores em Lisboa do que estradas”. Considera que falta “vontade política” para que as grandes cidades possam ver nascer mais projetos de arquitetura paisagista em grande escala?
Sim, parece-me uma observação factual, poucas são as ruas que não são viárias e muitas são as ruas que não são arborizadas ou condignamente arborizadas.
Por outro lado, o esforço de alteração das paisagens das cidades, no sentido de aumentar a coexistência com o sistema natural, só será útil se encontrarmos novos modelos de gestão que permitam a sua manutenção. Tem menos que ver com projetos e mais com políticas e procura de novas realidades culturais que aproximem a população da natureza no quotidiano – não só como observadora, mas como participante ativa no cuidado, na produção e na sua proteção.
Esta entrevista é parte integrante da revista Artes&Letras #184, de janeiro de 2026
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