À conversa com Arq.º Andreas Mörschel
À conversa com Arq.º Andreas Mörschel
'Os meus projetos são todos diferentes, deixo-me influenciar pelo lugar, pelo enquadramento, pelo programa, pelas necessidades e objetivos. Fazer coisas diferentes não é aborrecido'
É alemão, mas a sua prática está enraizada em Lisboa. Como é que isso aconteceu?
A minha formação começou em Stuttgart, num ambiente muito marcado pela ligação clássica entre a conceção do projeto e o sistema construtivo. Depois tive um período determinante na FAUP, no Porto, onde a linguagem essencial do projecto era o desenho. Portugal tornou-se a minha base profissional no final dos anos 1990 e, em 2009, fundei a Mörschel Arquitectos em Lisboa. Essa combinação, método e precisão, com inteligência urbana e cultura de contexto, continua a ser a base do nosso trabalho.
Como define a forma de pensar e fazer arquitetura?
Fazemos arquitetura para contextos exigentes e muito diversificados, tanto em termos de tipologia como na linguagem arquitetónica: um hospital, um pavilhão desportivo, uma casa em paisagem sensível, uma reabilitação em edifício classificado, um hotel com requisitos de marca internacional.
A nossa abordagem depende tanto do desenho como do controlo do processo. Estamos focados em combinar ambição arquitetónica, disciplina técnica e capacidade de coordenação até ao detalhe de obra.
Hoje fala-se muito de “conceito”. Qual é, na prática, o vosso ponto de partida?
A nossa obsessão é clareza: espacial, construtiva e de decisão. Um conceito que não resiste a estas diferentes camadas e condicionantes não é arquitetura, é apenas um conceito. O nosso trabalho é transformar essas restrições numa solução clara, coerente e executável, e garantir que o edifício construído mantém a intenção e a qualidade que estavam no início.
O nosso “estilo” é método: ler bem o problema, tomar decisões cedo e coordenar com rigor para que o resultado construído esteja à altura do que foi prometido: desde a estruturação das decisões, quem decide o quê e quando; passando pela articulação dos diferentes intervenientes, arquitetura/engenharias/interiores/operador; até à documentação e revisão com disciplina.
Não é glamour, é gestão técnica. Mas é isso que protege a arquitetura.
Dê um exemplo concreto de uma decisão de projeto que muda tudo.
No Pavilhão João Rocha, a decisão foi reduzir ruído e focar o essencial: o jogo como espetáculo. Isso conduziu a uma estratégia espacial e material muito controlada, menos distração visual, mais concentração na experiência do campo e das bancadas. Esse tipo de decisão simples, mas radical, cria coerência e reduz erro ao longo de todo o desenvolvimento.
Pode dar um exemplo de uma decisão “pouco visível” que tem impacto enorme, sobretudo em hotelaria?
A estratégia de distribuição técnica e a lógica de operação. Como se resolvem os percursos principais, como se asseguram as infraestruturas sem “esmagar” o pé-direito, o isolamento sonoro, os acessos para manutenção sem entrar em áreas sensíveis, a organização do back-of-house. São temas pouco fotogénicos, mas são o que define a experiência do hóspede, a eficiência do operador e a durabilidade do investimento. A arquitetura séria começa aí.
Antes dos projetos hoteleiros, esteve envolvido em grandes PPP hospitalares. Como surgiu essa oportunidade e que impacto teve no seu percurso em Lisboa?
Em 2004 recebi um convite para integrar um consórcio no âmbito das PPP hospitalares (Cascais, Braga, Vila Franca de Xira e Loures) e com consultoria da HOK. O promotor tinha uma ambição clara de desenvolver projetos de referência e o processo foi conduzido com uma forte componente de investigação, envolvendo uma equipa multidisciplinar, médicos, engenheiros, arquitetos e especialistas: Design follows function. Vencemos dois concursos, o Hospital de Braga e o Hospital de Vila Franca de Xira.
Trabalham com equipas internacionais muito orientadas para o design, sobretudo em interiores. O que é exigente nesse tipo de colaboração?
Exigente é transformar visão em realidade sem perda e sem conflito entre disciplinas. Quando colaboramos com estúdios como Patricia Urquiola, Lázaro Rosa-Violán ou Jacques Grange, o nosso papel é proteger a intenção do design e, ao mesmo tempo, torná-la compatível com estrutura, MEP, incêndio, acústica, requisitos do operador e condicionantes do edifício existente. No fim, o cliente não avalia “o conceito”: avalia o resultado construído, a operação diária e a qualidade que se mantém ao longo do tempo.
Qual é o papel da engenharia naquilo que chama “arquitetura com controlo”?
A engenharia é parte do resultado arquitetónico. Em contextos densos e em reabilitação, o que parece detalhe, cargas, reforços, passagens técnicas, compatibilização com elementos existentes, faseamento de obra, determina o que é possível. Uma boa relação entre arquitetura e engenharia cria liberdade, porque reduz incerteza e aumenta controlo. Quando a coordenação é rigorosa, a arquitetura consegue ser mais clara e mais ambiciosa, precisamente porque assenta numa base técnica sólida.
Como olha para o futuro do atelier?
Não crescemos para parecer maiores. Crescemos quando há pipeline e quando conseguimos manter qualidade e controlo. Preferimos crescimento orgânico e sustentável: mais capacidade, mais método e melhores projetos, sem perder disciplina.
Esta entrevista é parte integrante da revista Artes&Letras #185, de fevereiro de 2026
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