01.11.2019

À conversa com Arq.º Miguel Arruda

01.11.2019

À conversa com Arq.º Miguel Arruda

‘O aumento do turismo é uma mais-valia na recuperação do edificado, mas seria também uma boa oportunidade para a implementação de novas habitações para os antigos moradores’

Na entrevista que concedeu à Betar para a Artes&Letras em Fevereiro de 2014, explicou que “nunca tinha pensado fazer escultura”, no entanto foi por aí que começou a sua formação. Depois da escultura seguiu-se o design e só depois o curso de arquitectura, aos 50 anos. Como é que conseguiu conjugar estas três áreas distintas, mas ao mesmo tempo complementares? Desenvolveu um gosto especial por alguma delas?

As sinergias existentes entre as três áreas que refere (escultura, design e arquitectura), estão de certa forma na base do meu processo criativo, interferindo-se e compensando-se de uma forma contínua. São muito diferentes quer pela escala quer pelas complexidade inerente ao seu processo criativo, quer ainda pelas diferenças de materialização física de cada uma delas.

No âmbito da arquitectura dispensa apresentações tendo publicado em vários artigos da especialidade e, sobretudo, sido premiado em diversos concursos e nomeado para o Mies Van Der Rohe Award. Que momentos destacaria da sua actividade enquanto arquitecto?

Posso apontar três construções, o Centro de Informação da Expo98 (1996), que foi o meu primeiro projecto com alguma dimensão após terminar o curso de arquitectura; a Praça D. Diogo de Menezes em Cascais (2008), que teve a nomeação para o prémio Mies Van Der Rhoe e que efectivamente se constitui como uma proposta na altura controversa, dado que substituiu a envolvente verde da fortaleza por uma praça em betão branco com um intencional traçado lumínico, mas que após a sua nomeação para o prémio Mies Van Der Rhoe se pacificou; e finalmente a Biblioteca Fábrica das Palavras em Vila Franca de Xira (2016), um projecto com um conceito formal e de organização do seu espaço interno como uma geometria muito intencional, mas com um programa de utilização cultural e etário transversal por parte dos seus utentes o que, para além da sua fantástica localização junto ao rio Tejo, contribuiu decisivamente para a sua aceitação junto da população.

Ao nível da recuperação de património, área onde também desenvolveu vários projectos, sente que tem sido feito um bom trabalho em Portugal? É preservado o valor histórico e feita uma correta relação com a contemporaneidade?

Sim, de uma maneira geral julgo que se pode afirmar que tem sido feito um trabalho com qualidade. Quanto a relação com a contemporaneidade é uma situação mais complexa e que eventualmente necessitaria de uma política cultural com objectivos programados e com outra envolvência.

O que pensa sobre a crescente exposição de Portugal ao turismo que conduziu a uma grande vaga de recuperação de edifícios para esse fim, sobretudo em Lisboa e Porto? Pode vir a ser um problema ou é uma mais valia a todos os níveis?

É efectivamente uma mais valia, nomeadamente no que diz respeito a recuperação do edificado, mas que devia ser acompanhado de uma política mais exigente no que diz respeito a ocupação efectiva dessas zonas da cidade. Seria também uma boa oportunidade para a implementação condigna de novas habitações para os antigos moradores, mais adequadas ao seu nível etário e de todas as funcionalidades daí decorrentes.

No campo do design, o seu reconhecimento internacional tem tido um crescendo, com a atribuição, nos últimos anos, dos mais importantes prémios internacionais. Falamos da cadeira Spherical e do candeeiro SUN TILE, ambos produzidos por empresas portuguesas. Fale-nos desses projectos.

São projectos efectivamente reconhecidos internacionalmente, mas onde a dimensão reduzida do nosso mercado interno e algumas dificuldades de expansão nos mercados externos dificultam a sua comercialização efectiva.
Desenho actualmente um projecto de iluminação com a firma italiana Slamp, que pela sua dimensão e estruturação dos seus quadros, nomeadamente ao nível do Marketing, lhes permite, em Itália e no estrangeiro, uma grande dinâmica.

Como encara os reconhecimentos?

Os reconhecimentos a nível internacional são sempre simpáticos e deixam-me na expectativa que possam vir a ser positivos, quer para os produtos que, entretanto, desenhei, quer para a criação de oportunidades de trabalho para os designers portugueses.

Entretanto, a par de tudo o resto, ainda desenvolveu actividade docente. Quais são as vantagens e dificuldades que os novos arquitectos encontram actualmente?

A maior dificuldade talvez seja a compaginação daquilo que Corbusier designava como “Lá manuabilitá” e todo o processo informático, nomeadamente os mais recentes desenvolvimentos. O aumento de escala decorrente do fenómeno da globalização levanta questões relativamente à viagem criativa individual, o que pode obrigar a um reposicionamento de todo o processo criativo. Recordando uma frase do Escultor Constantin Brâncusi “Les chose ne sont pas difícil à faire, ce que devient difícil cést de se metre en etat de les faire”, talvez aqui esteja a eterna resposta para a complexidade e contradição do nosso processo criativo.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #113, de Novembro de 2019

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