À conversa com PAR – plataforma de arquitectura
À conversa com PAR – plataforma de arquitectura
'O conceito CASA CHÃ surgiu como um resumo do nosso processo de projecto, entendendo “casa” como lugar das actividades humanas e “chã” como a valorização das coisas simples e próprias de um lugar'
Falem-nos um pouco do início do vosso percurso profissional. Conheceram-se no atelier Aires Mateus e Associados?
As PAr têm uma feliz experiência comum no atelier Aires Mateus, onde trabalhámos longamente, com responsabilidade em projetos de diversas escalas e programas.
Nesse período, pela sólida afinidade pessoal e intelectual que criámos, passámos a trabalhar juntas nos nossos próprios projetos. Foi nessa altura que experimentámos discutir arquitectura enquanto autoras, lançando as bases dos interesses e conceitos da PAr que vieram a ser desenvolvidos nos anos seguintes.
Em 2006 Susana dos Santos Rodrigues e Joana Carmo Simões fundaram o PAr, projeto ao qual se juntou, em 2009, Vânia Brito Fernandes. Como e porquê surgiu a ideia de criar um espaço próprio?
No início da década passada, a trajectória de parceria e conhecimento comuns já percorrida permitiu-nos focar exclusivamente nos projectos da PAr. Desde então, temos estado consistentemente comprometidas com os valores éticos e estéticos da linguagem PAr.
A criação do nosso espaço foi uma consequência do caminho que vínhamos a percorrer juntas. Inicialmente, fundámos o atelier de Lisboa. Pouco depois, aproveitando a afinidade que a Vânia Brito Fernandes tinha com a região, fizemo-lo também no Algarve, passando a estar em dois ateliers.
Estão sediadas em dois espaços, um em Lisboa e outro em Faro. Como funciona a vossa colaboração a mais de 250Km de distância? Que metodologia usam para desenvolver os projetos?
A distância geográfica nunca foi um obstáculo ao desenvolvimento dos projectos, pois temos bem fundados e sedimentados os nossos princípios e bases PAr. Não vemos como um limite mas como uma ponte, uma forma mais abrangente e estimulante de lidar com várias realidades, dos pontos de vista cultural, histórico ou social.
A metodologia principal é a vontade de partilha. Passa pela uso de ferramentas de trabalho digitais e de comunicação remota comuns entre todas, mas também pelo encontro físico muito frequente. Arriscamos dizer que a distância nos tem colocado ainda mais perto umas das outras, estamos em constante partilha e discussão.
A PAr interessa-se pela reinterpretação das culturas arquitetónicas à luz da contemporaneidade. Os vossos projetos mantêm sempre uma identidade própria. O que é que procuram quando começam a desenhar?
Sim, esse é um principio muito sólido no nosso trabalho. A reinterpretação arquitectónica interessa-nos transversalmente, tratando-se de intervenção em pré-existências ou construção nova. Entendemos a envolvente cultural, no contexto do projecto, como uma construção mental nossa. O estudo da identidade do lugar, com referências próximas ou longínquas, física e temporalmente, é também uma parte do nosso processo de projecto. Procuramo-lo como uma forma de criarmos em liberdade.
Reconhecemos ainda um conhecimento arquitectónico que é comum a diversas culturas e localizações, assumindo localmente diversas formas de implementação, quer materiais, quer formais. Este conhecimento diz respeito a conceitos transversais não só aos locais mas também aos tempos (como luz, orientação, peso, massa, temperatura, relação com a natureza, etc). É uma sabedoria válida também para os padrões e desafios da vida contemporânea.
O foco do atelier é a área residencial e a reabilitação e recorrem muito a materiais naturais e tradicionais. O que é o conceito CASA CHÃ?
O conceito CASA CHÃ surgiu como um resumo do nosso processo de projecto, entendendo “casa” como lugar das actividades humanas (e não só actividade residencial) e “chã” como a valorização das coisas simples e próprias de um lugar (cuja existência não se fecha física ou temporalmente). Esta ideia é lida em conjunto com outras camadas, como a utilização de materiais naturais e locais, o respeito pelas tipologias tradicionais, a harmonia do desenho e o excelente desempenho ambiental.
A partir deste conceito, trabalhamos os diversos programas e escalas, e exploramos as respostas mais adequadas. O princípio de reinterpretação cultural não nos restringe em termos de soluções, embore seja a base de uma identidade comum às nossas obras.
A PAr tem sido frequentemente selecionada em prémios oficiais de arquitetura, como o mais recente Prémio Nacional de Reabilitação Urbana, que venceram em 2024 com o projeto “Casa 1923”. O que é que os prémios dizem do vosso trabalho? Como encaram este tipo de reconhecimentos?
Realizamos o nosso trabalho com profundidade e empenho. As obras construídas e vividas (com o potencial de contribuírem para a felicidade de quem as habita) são, por si próprias, enormemente gratificantes, de uma forma muito autónoma.
No entanto, ficamos gratas pelos prémios. O trabalho de projecto tem um grande impacto social e ambiental, e os prémios constituem, antes de mais, um reconhecimento da importância da Arquitectura. Encaramo-los, pois, como incentivos à consistência no nosso exercício do projecto.
Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #171, de dezembro de 2024
Notícias & Entrevistas
À conversa com Arq.º José Laranjeira
‘A ideia de ‘mestre’ é uma coisa que se está a perder porque não há dinâmica para este tipo de relações que se estabeleciam nos ateliers quando eu iniciei a profissão.’ Ler mais
À conversa com Arq.º Alberto de Souza Oliveira
‘A arquitetura é arte… Penso que é uma alegria encontrarmos clientes que gostam de viver nos nossos espaços… e habitar lugares onde possam sonhar’ Ler mais
À conversa com Eng.º Paulo Barreto
'Embora 2026 esteja a ser um ano particularmente extremo em termos de condições climatéricas, trabalhamos permanentemente para antecipar cenários e reforçar a resiliência da infraestrutura. (…) com o objetivo de assegurar a segurança e a continuidade do serviço na A24' Ler mais
