01.04.2014

À conversa com Arq.º Tomás Salgado e Arq.º Nuno Lourenço

01.04.2014

À conversa com Arq.º Tomás Salgado e Arq.º Nuno Lourenço

‘Na maior parte dos projetos que fazemos, é difícil dizer, no final, quem foi o autor. Todos vão metendo a colher’

O Arq.º Tomás Salgado licenciou-se em Lisboa, em 1994, fez o 5º ano em Barcelona e estagiou em Milão. O que é que cada cidade lhe deu?

TS – Barcelona tinha, na altura, uma pujança cultural que Lisboa não tinha. Uma diversidade incrível de espetáculos, restaurantes, boa arquitectura, etc. que foi muito importante na minha formação. Milão foi uma coisa completamente diferente. Participei em projectos numa estrutura com uma dimensão muito diferente dos ateliers de arquitectura em Portugal, naquela época. A Gregotti Associati Internacional já devia ter umas sessenta pessoas, era uma estrutura bastante profissional, e tinha aquela figura mítica que é o arquitecto Vittorio Gregotti, uma pessoa muito carismática.

Em 1995 integrou a equipa do Risco. Como foi o percurso do atelier?

TS – O Risco, até 1988, era uma estrutura muito pequena, composta pelo meu pai e mais duas ou três pessoas, que fazia essencialmente Planos e estudos urbanísticos. Em 1998 levou uma grande volta, quando o Vittorio Gregotti ganhou o concurso para o Centro Cultural de Belém e o Risco passou a ter vinte e tal pessoas totalmente focadas nesse projecto. Quando fui para Milão o Risco dava os primeiros passos no projecto da EXPO’98, que viria a ser o mais transformador desta casa. Nessa altura integrei a equipa, juntamente com o Nuno Lourenço, o João Almeida e o Jorge Estriga. O Carlos Cruz já cá estava. Desse grupo, eu, o Nuno, o Carlos e o Jorge viríamos a assumir a coordenação dos projectos do Risco, depois da saída do meu pai.

Fale-nos do trabalho em conjunto com o seu pai, o arq. Manuel Salgado.

TS – Trabalhámos todos com ele, entre 1995 e 2007. Penso que a opinião é geral, ele foi absolutamente determinante naquilo que somos hoje. Na forma como encaramos a arquitetura e o desenho urbano, na postura ética em relação ao trabalho, na relação com os clientes. Foi, inquestionavelmente, a pessoa que mais nos marcou. Ver os projectos de arquitectura como parte da cidade, e os projetos urbanos não apenas como planeamento mas tendo uma relação muito forte com a arquitectura foi talvez o mais importante que aprendemos com ele.

Que características distinguem cada um?

TS – O Nuno está, claramente, mais ligado aos projectos urbanos porque tem uma apetência especial para isso, embora neste momento esteja a coordenar o projecto de um hospital, o que é uma coisa boa porque significa que as pessoas não ficam presas àquilo a que mais se dedicam; o Jorge tem uma capacidade fora do normal para gerir equipas mais complexas e situações de pressão; o Carlos tem um talento para o desenho que mais nenhum de nós tem; e o João Almeida é aquele que tem maior atenção ao detalhe e maior sensibilidade para as questões dos materiais; a Cristina Picoto para os interiores, etc.

Como é que mobilizam o atelier para os projectos de grande envergadura?

TS – Lembro-me que no projecto do CCB havia uma grande preocupação com o traçado urbano. A estrutura base é definida pelas ruas que dividem os três módulos e pelo eixo que liga a Praça do Império à Torre de Belém. Nos nossos projetos de grande escala a morfologia também é, na maioria dos casos, gerada por traçados urbanos. No caso do CCB havia igualmente um grande pragmatismo relativamente às regras de desenho, regras geométricas que foram seguidas até à exaustão. Desde os revestimentos interiores até às fachadas. No Estádio do Dragão e no Hospital da Luz, embora essas regras não fossem tão explícitas, existia também essa disciplina. Só assim é que se conseguem gerir equipas. O fundamental é deixar espaço para, pontualmente, quebrar essas regras de desenho…

NL – As equipas também se mobilizam com a complementaridade dos talentos de cada um. O Manuel Salgado tinha a capacidade de gerir os diferentes talentos como contributos que se complementam. Isso é um elemento de motivação que penso que continua presente e que se cruza com a disciplina de que falava o Tomás. É um pouco como na música, em que há uma pauta e uma métrica para que cada um se possa organizar.

TS – Recordo-me de uma entrevista, que li na vossa revista, com um coletivo de colegas nossos, que diziam que era perfeitamente claro quem era o autor interno de cada um dos projetos do atelier. Aqui a situação é diferente, na maior parte dos projetos que fazemos, é difícil dizer, no final, quem foi o autor. Todos vão metendo a colher, em determinado momento, e eu, que tenho um pouco a função de coordenação geral, promovo bastante isso.

O Risco está muito ligado ao Design Urbano. Porque é que é tão importante?

NL – Nós chamamos-lhe desenho urbano porque “design urbano”, fora do contexto anglo-saxónico, pode ser confundido com equipamento ou mobiliário urbano. O que temos vindo a fazer é conceber espaços urbanos numa perspetiva simultaneamente urbanística, relativamente aos edifícios, e arquitectónica na concepção das características dos espaços coletivos. Isto significa que desenhar os limites genéricos do espaço não é independente de saber como se organiza, pavimenta, ilumina ou arboriza o intervalo entre os edifícios. Por iniciativa própria e pelo reconhecimento de projetos anteriores, como a EXPO´98 ou o Cacém Polis, temos apostado nessa abordagem que implica uma consciência bastante alargada das complexidades processuais que estão por detrás da construção da cidade.

TS – Eu diria que há muita competência dos arquitectos portugueses para o desenho do espaço público, ao nível dos pavimentos, do equipamento urbano e da integração do paisagismo. Mas o desenho urbano como nós o entendemos é um pouco diferente porque começa mais atrás. Implica ter uma capacidade muito grande de interação com o poder político e económico porque, inevitavelmente, as cidades desenham-se com aqueles que as exploram enquanto negócio e aqueles que as transformam por vontade política. Penso que temos a capacidade de fazer a síntese das vontades desses atores com outros inputs, não menos importantes, como são as questões ambientais, da mobilidade, do património, etc.

A ligação com a BETAR é para durar?

TS – Sem dúvida nenhuma. Iniciou-se com o projeto dos edifícios Sky II e Sky Business, que projetámos para Angola. Ficámos bastante ligados, em particular ao Miguel Villar que tem uma sensibilidade muito grande para as questões da arquitectura e percebe rapidamente aquilo que queremos. Tem uma força de vontade enorme para explorar as soluções possíveis, e até impossíveis, para materializar as nossas opções.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #52, de abril de 2014

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