01.09.2021

À conversa com Arq.º Filipe Mónica

01.09.2021

À conversa com Arq.º Filipe Mónica

'[A arquitetura] presta-se sempre ao risco e à experimentação. Só assim pode ambicionar continuar a ser uma manifestação cultural da ação do homem na permanente renovação do mundo'

Porque decidiu seguir arquitetura e como foi o início da atividade?

Não sou um arquiteto “natural born” e venho de uma família sem antepassados arquitetos. O curso de arquitetura surgiu como uma escolha natural pela imagem atrativa que tinha da profissão e pela relativa facilidade no domínio da geometria e do desenho. Foi já no decorrer do curso que fui moldando o meu percurso e definindo os meus interesses. Logo a partir do segundo ano, comecei a ter experiências profissionais fora da escola. Após a conclusão do curso, o início da atividade profissional foi, por isso, relativamente natural: falei com o meu professor de projeto do último ano, o Manuel Aires Mateus, e ofereci-me para colaborar no seu atelier. O atelier ia entrar num concurso e a proposta que recebi foi muitíssimo estimulante: a de participar nesse projeto e, em caso de vitória, seria convidado a ficar. Foi o que aconteceu.

Porque optou por constituir atelier próprio?

Foi um passo natural. Em 1996 o atelier do Manuel e do Francisco Aires Mateus era pequeno e partilhava o espaço do atelier do Gonçalo Byrne. Para nós, colaboradores, foi um enorme privilégio viver esses anos muito intensos e poder absorver o melhor de cada um. Quando saí já tinha passado por todas as fases de projeto e de obra, e assumido a coordenação de projetos. Mas a transição foi relativamente suave, até porque já com atelier próprio continuei a colaborar com o Manuel e o Francisco. Por outro lado, as diferenças e os desafios desse passo foram colossais, quer pela fascinante transversalidade a que o trabalho em nome próprio obriga, quer pelo crescimento exponencial que temos como autores – e consequente como pessoas – quando assumimos as rédeas e a responsabilidade de um projeto em nome próprio.

Quais os princípios que estão na base do seu trabalho?

Há muitas arquiteturas, muitas formas de abordar a profissão que, como atividade humanista, presta-se sempre ao risco e à experimentação. Só assim a disciplina pode ambicionar continuar a ser uma manifestação cultural da ação do homem na permanente renovação do mundo, que é como a encaro. Depois há a questão do permanente exercício de diálogo no jogo de contradições da arquitetura: entre a nossa vontade e a do cliente, entre os desejos de projeto e os obstáculos normativos, entre as diversas especialidades e parceiros, etc. E este é, penso, um dos princípios base do meu trabalho: a convicção que há sempre uma resposta criativa e evidente que nasce da fusão da enorme complexidade de dados sobre a mesa, em cada exercício de arquitetura. Outra questão é a de que a criação é um processo que nasce sempre de uma descoberta. Interessa-me muito o processo de chegar a uma solução, o prazer da investigação e compreensão da realidade que envolve cada caso.

Em 2016, recebeu o Prémio Nacional de Reabilitação Urbana e o Prémio Construir. Quais os principais desafios e obstáculos da arquitetura sustentável?

O desafio da arquitetura e da sustentabilidade são o mesmo, o que na obra referida – prédio no Príncipe Real – foi muito evidente. Em primeiro lugar porque não houve uma preocupação em abordar as questões da sustentabilidade de forma diferente das outras questões de projeto. Houve, como tentamos sempre fazer, um enorme rigor no trabalho, e a sustentabilidade acabou por receber visibilidade. Mas há outro ponto de vista importante, que naquela obra foi central: a compreensão holística do tema da eficiência energética e da sustentabilidade, que vai muito além das opções técnicas e materiais dos projetos. Toda a operação, desde a compra do prédio pelos proprietários até ao programa para as habitações, passando pelas delicadas decisões entre a nossa intervenção e as camadas temporais pré-existentes, teve como preocupação não apenas a sustentabilidade ambiental, no sentido estrito, mas também urbana, social, económica, cultural, etc. Por outro lado, trabalhámos com projetistas de muito boa qualidade nas várias especialidades (entre eles a BETAR), e isso foi – e é sempre – muito importante, pelas óbvias questões técnicas, mas também porque isso nos dá liberdade para manter o foco na condução e coordenação geral dos projetos.

Lecionou arquitetura e faz investigação para doutoramento. O que mais o agrada nisso?

O território do ensino da arquitetura é, para quem projeta, uma área imensamente fértil. Se virmos uma sala de aulas, com 30 alunos, como um enorme atelier de arquitetura, com inúmeros projetos a acontecer em simultâneo e outros tantos autores, muito jovens, a refletir, desenhar, e a procurar soluções, em permanente experimentação e questionamento dos limites disciplinares. E se isto não fosse suficiente, o facto de entrar e sair de forma quotidiana do atelier permite ganhar uma distância crítica em relação ao lento e contínuo trabalho da prática de projeto. Tinha tido essa experiência entre 2010 e 2014 quando fui assessor na Ordem dos Arquitectos, na área dos Concursos de Arquitetura, que acabou por ser o tema da tese de Doutoramento que estou a desenvolver, como bolseiro da FCT, e que tem sido uma oportunidade muitíssimo estimulante de alargamento dos limites profissionais e pessoais.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Artes & Letras #133, de Setembro de 2021

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