01.10.2026

À conversa com Arq.º João Santa-Rita

01.10.2026

À conversa com Arq.º João Santa-Rita

'Desenhar uma casa para pessoas que necessitam, que vão (…) dizer com orgulho que “aquela é a minha casa”, tem uma força enorme. (…) Perceber que os nossos atos podem ter uma influência muito relevante na vida dos outros'

Gostaria que começasse por falar um pouco do seu percurso inicial.

Eu tive duas influências, uma foi a Helena Cid dos Santos, muito amiga dos meus pais, que tinha o hábito, quando eu tinha uns 5 ou 6 anos, de me levar a visitar museus e palácios. Talvez esse conhecimento precoce, de conviver com espaços diferentes, tenha tido alguma influência. Depois, obviamente, o meu pai, até porque comecei a trabalhar muito cedo com ele. Mas cheguei a pensar em zoologia, por causa de um tio que era veterinário, e até pensei em ser marinheiro, por causa dos navios. Passava tardes no Museu da Marinha a desenhar navios, fascinavam-me os interiores, o desenho economicista, de encaixar o máximo no mínimo. Podia ter sido Arquiteto Naval, mas como não fui admitido nas forças armadas não pude entrar na Escola Naval. Frustrada essa hipótese, fui para Arquitetura. Fui para o Porto, no primeiro ano, onde tive excelentes “mestres”, como o Prof. Sérgio Fernandes, Prof. Alexandre Alves Costa, o Prof. Fernando Távora, e a Professora Luísa Brandão, depois vim para Lisboa. Quando terminei o curo, trabalhei com o meu pai e, esporadicamente, com outros arquitetos, e depois fui para Macau, trabalhar com o Arq. Manuel Vicente. Quando regressei, o meu pai formou um atelier comigo. No entanto o meu pai morreu em 2001 e, nessa altura, estive quase duas décadas num atelier que era apenas meu. Depois juntei-me a alguns colegas, com quem já colaborava há muito tempo, e formámos naturalmente o atelier Santa-Rita e Associados.

Entretanto ajudou a formar o curso de Arquitetura da Universidade Autónoma de Lisboa. Fale-nos do seu trajeto no ensino e das diferenças do início para agora.

Quando me formei, em 1983, fui desafiado pelo Prof. Carlos Duarte para ficar como monitor do 5º ano da Faculdade de Arquitetura de Lisboa. Anos mais tarde, quando a Autónoma se formou, fiquei encarregue de desenhar, em conjunto com os diretores do curso de Arquitetura, a disciplina de Construções e Tecnologias para os 5 anos de curso. Mais tarde, talvez em 2011, comecei a lecionar também a cadeira de Projeto. Quando comecei a dar aulas na Autónoma, percebi que tinha de aprofundar mais os assuntos e os resultados das matérias lecionadas. Na minha altura de estudante, trabalhávamos quase todos em ateliers, o que era um complemento da formação. Hoje, o ensino tem de ser mais exigente e mais profundo, porque é o único meio de transmitir e experimentar o conhecimento.

Entre 2014 e 2016 foi Presidente da Ordem dos Arquitectos. O que releva desse período?

Em relação às Ordens, há muitas críticas, mas eu acho que o mundo seria pior se não existissem. A Ordem dos Arquitetos procura lutar pela qualidade da arquitetura, a sua existência é benéfica e necessária. Desde logo, permite reunir os profissionais, discutir os assuntos, refletir em conjunto, e ter uma visão do mundo muito mais completa e informada, e ligação a outros países. Eu estive sempre muito próximo da Ordem e, enquanto Presidente, gostei de lidar com matérias das quais estava mais distante, nomeadamente a relação com as instituições do Estado. Passámos um período complicado, estava cá a Troika e tivemos de fazer uma série de coisas forçadas, mas permitiu-nos refletir sobre as mudanças que deviam ser feitas.

Atualmente, quais os valores que regem o Santa-Rita e Associados?

O Santa-Rita e Associados advém de colaborações que já existiam. Temos uma forma próxima de olhar a Arquitetura. Naturalmente, as coisas vão evoluído, e vamos aperfeiçoando aquilo que fazemos e procurando responder às novas solicitações. A Arquitetura não é imutável, está sujeita a novas necessidades, por exemplo, nos últimos anos, e até mais depois da pandemia, as varandas tornaram-se muito mais relevantes que antes. Existe uma coisa muito importante, que procuramos sempre no atelier, que é garantir que as nossas respostas estejam perfeitamente enraizadas nos lugares, no contexto. Importa perceber a relevância de cada objeto que é colocado num espaço e como é que ele pode contribuir para a sua melhoria. O edifício tem de ser mais calmo e silencioso ou ser mais convidativo? E eu acho que, em Portugal, temos uma herança importante do território. Os lugares são complexos, a topografia  é acidentada, tem paisagens diversas e tudo isso também se reflete no nosso trabalho. No atelier, procuramos ter em conta essa complexidade, como tudo se entrelaça. As existências e heranças que nos chegam fazem-nos refletir sobre o modo como devemos abordar cada projeto.

Alguma memória marcante?

Recentemente, concluímos um projeto de habitação para arrendamento acessível, para a Câmara Municipal de Oeiras, no âmbito do PRR, e fomos à cerimónia de entrega das chaves aos novos habitantes. Devo dizer que foi a primeira vez que senti que o papel do arquiteto tem uma relevância mesmo muito grande. Desenhar uma casa para pessoas que necessitam, que vão criar uma empatia com o edifício e dizer com orgulho que “aquela é a minha casa”, tem uma força enorme. Aquela cerimônia comoveu-me profundamente, perceber que os nossos atos podem ter uma influência muito relevante na vida dos outros.

Esta entrevista é parte integrante da revista Artes&Letras #193, de outubro de 2026

Notícias & Entrevistas

01.01.2013

À conversa com Arq.º Alberto de Souza Oliveira

‘A arquitetura é arte… Penso que é uma alegria encontrarmos clientes que gostam de viver nos nossos espaços… e habitar lugares onde possam sonhar’ Ler mais

01.06.2018

À conversa com Eng.º Elias Paulo

‘Moçambique está sólido e o seu grande ativo, que é a sua gente, está cada vez melhor, há cada vez melhores profissionais que vão catapultar o país para outros patamares’ Ler mais

01.12.2021

À conversa com Eng.º Samuel Muzime

'Os principais desafios dos CFM são: ser referência regional no transporte de carga a um preço competitivo e com segurança, ter infraestruturas com modernização contínua e pessoal bem treinado e motivado' Ler mais

Topo

Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência de navegação. Ao continuar a aceder a este website está a concordar com a utilização das mesmas. Para mais informações veja a nossa política de cookies.

Portugal 2020 / Compete 2020 / União Europeia - Fundo Europeu do Desenvolvimento Regional